Lourembergue Alves
Vive-se, por aqui, um cenário estranho. Estranho a civilidade e a tudo que é urbanidade. Por isso, ele deve ser analisado e discutido. Bem mais quando se percebe que o tal cenário é resultado de dois ou mais conjuntos de cenas. Conjuntos diferentes, porém ligados entre si. Pois a situação de crises vividas provoca três quadros: (1º.) o distanciamento de muitos dos negócios públicos, (2º.) a condição de torcedores de vários brasileiros e (3º.) deixa desesperançados dezenas, talvez centenas. Desesperança, condição e distanciamento que mantém o status quo. E, não só isso, a situação gera um ambiente de intolerância, cujo crescimento levanta muros e alimenta o preconceito e realça a segregação. Ainda que proscritos pela Constituição Federal, mas contraditoriamente reforçados por práticas antigas e bastantes presentes.
Práticas ignoradas, ao mesmo tempo estimuladas pelo próprio Estado nacional por meio de seus esteios: corporativismo, cartorialismo e patrimonialismo. São estes, (e) leitor, os mecanismos ou instrumentos impeditivos da diminuição da desigualdade do país. Desigualdade que possibilita o sonhar com o “Salvador da Pátria”. E se este não aparece, procura-se fabricá-lo. Não apenas no tablado do jogo político, mas também na esfera jurídica, com um ou outro juiz sendo guindado para a condição de herói. Explica-se, então, a busca quase frenética pelo protagonismo solitário, com o agir por ofício no lugar do se deixar ser provocado em determinadas ocasiões. Justamente aquelas, claro, em que estão sob as luzes, microfones e holofotes, com direito a reprise nas redes sociais, onde se cria toda uma lista de seguidores.
As aparições teatrais substituem as reações naturais, no exato instante em que fissuras são criadas pelo caminho, e a harmonia, que deveria existir entre os poderes, vê-se quebrada, e, tal como diz a canção “Luzes da Ribalta”, “é sonhar em vão, tentar aos outros iludir”. Mas quando o efeito artístico produzido pelo ilusionismo se desfaz, percebe-se todo o estrago. Estrago, ao contrário do que se pensa, estende-se a todo o tecido, gerando crateras, e não apenas simples feridas.
O Estado, enfim, fica alquebrado, sem a menor condição de ser refeito ou reconstruído. Pois o bisturi adequado (Reforma Política) para esta reconstrução jamais seria utilizado. Não seria porque as camadas privilegiadas não abrem mão de suas regalias. Regalias mantidas pelo Estado corporativista, patrimonialista e cartorialista. Eis, aqui, (e) leitor, o grande problema brasileiro. Problema que, nem de longe, diz respeito ao sistema eleitoral, muito menos ao sistema de governo. Estes sistemas não desviam dinheiro público, nem cobram e recebem propinas. As propinas são cobradas e recebidas pelos agentes políticos e agentes públicos, com a participação direta e ativa de empresários (pagadores das propinas). Os empresários propõem, são cobrados e pagam porque são beneficiados sobremaneira ou com incentivos fiscais ou com prestação de serviços ao Estado.
Existe, aqui, uma relação promiscua. Relação que se dá desde o início da formação do Estado brasileiro, passando por todas as suas fases históricas, e segue até hoje. Relação que, na verdade, gera uma porção de enclaves, e, desse modo, deixa o espaço público fragmentado e segregado. Isto faz do cenário brasileiro não apenas estranho, mas, sobretudo, perverso. Perversão intensificada pelas ações contrárias aos diferentes e às diferenças, o que agride de morte a democracia, e a morte desta, acaba com o sonho do Estado de direito. É isto.
Lourembergue Alves é professor e analista político.
E-mail: lou.alves@uol.com.br.

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