Lourembergue Alves
Vive-se em momentos de crises. Crises de todos os tipos e para todos os gostos, da política a economia, da moral a ética, cujas soluções não são fáceis de ser encontradas. Mas, curiosamente, alguns brasileiros já sabem o que deve ser feito. E, então, como aconteceu em outras épocas, ressuscitam-se a ideia de que os problemas se encontram no sistema de governo adotado pelo país, em especial no presidencialismo de coalizão. Ressuscitam-se, até por conta disso, também a tese de que a solução para o país, para o seu povo é simplesmente trocar, substituir o sistema de governo pelo parlamentarismo.
A partir de então Projetos de Emendas a Constituição são recolocadas à mesa e passam a ganhar espaços na mídia, com o fim único de aumentar o número de defensores da tal mudança, cooptando, por outro lado, populares. São estes populares que, na verdade, servem para massificar a tese de substituição do sistema do governo, mesmo sem entender bem o que significaria, na prática, o viver sob o signo do Parlamentarismo. Ainda que o Brasil já tenha tido experiência com o parlamentarismo. Foram duas experiências. A primeira delas, no tempo do Império; na segunda, durante o governo João Goulart, com Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima. No início de 1963, um plebiscito pôs fim ao parlamentarismo à moda brasileira. Mas isto não enterrou por vez o sonho de tê-lo de volta. Quando da feitura da atual Constituição Federal, uma porção de parlamentares-constituintes defendeu o parlamentarismo, porém tal vontade não teve sucesso. Em 1995, uma PEC foi apresentada, depois outra, e mais outras.
Aliás, no Congresso Nacional, estão engavetadas várias PECs, e uma ou outra delas pode ser desengavetada, e entre elas a PEC 9/2016, de autoria do senador licenciado e ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira. Este Projeto de Emenda a Constituição defende que o governo seria chefiado pelo primeiro-ministro, o qual é indicado pela maioria da Câmara Federal, ao passo que o presidente, chefe do Estado, continuaria sendo eleito pelo voto popular. O Brasil, então, teria um sistema de governo semelhante ao de Portugal e o da França. Nestes, diferentemente de outros países, o presidente tem mais poderes do que o parlamentarismo puro. O país alteraria também o sistema de eleição dos deputados e vereadores, prevendo sistema distrital e majoritário, em lugar do atual sistema proporcional.
Discutir tudo isso e importante, assim como igualmente é relevante conversar a respeito do presidencialismo de coalizão à moda brasileira. Mas, é preciso dizer, sem a utilização da retórica à moda georgiana, o parlamentarismo, com o voto distrital e majoritário, não é o antídoto, não é solução para coisa alguma, tampouco tem a tarefa de mudar o quadro de crises do país. Pois a troca para a existência do primeiro-ministro não resolve nada. (E) leitor, o que muda verdadeiramente o atual estado de crises, em especial a de moral e ética, e a de comportamento dos agentes políticos, dos agentes públicos e dos agentes econômicos. Mudança de comportamento que nada tem a ver com a adoção do parlamentarismo. É isto.
Lourembergue Alves é professor e analista político.
E-mail: lou.alves@uol.com.br.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
Volta às aulas e material escolar: Procon-MT alerta sobre direitos
TJ alerta: CNH definitiva só pode ser cassada após processo
Código de defesa do contribuinte ou do fisco?
Tribunal de Justiça: cancelamento de hospedagem gera indenização
Golpe do falso advogado: TJ barra descontos de empréstimo
Operação apreende mais de 540 kg de cocaína na fronteira
PC prende acusado de série de crimes contra motoristas de aplicativos
Ministro anuncia renovações automáticas de CNH para bons motoristas
Estudo aponta aumento de preço da cesta básica: mais de R$ 800
Operação da PM derruba tráfico de drogas em Várzea Grande