Paulo Lemos
Realmente já ultrapassamos os limites do ponderável no Brasil. Chegamos ao ponto de ter o destino da nação nas mãos do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, hodiernamente presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
Ele foi indicado por Fernando Henrique ao STF. Hoje, o PSDB compõe e faz parte da base de sustentação do governo Temer.
Quando Dilma Rousseff (PT) ainda estava como presidente, Mendes foi enfático e veemente em defender o prosseguimento das ações propostas pelo PSDB, com base, inclusive, numa exegese ampliada do artigo 23 das inelegibilidades.
Agora que seu amigo e colega constitucionalista Michel é o presidente, nas mesmas ações, mudou repentina e radicalmente de posição e interpretação jurídica, manifestando-se contrário à utilização das provas produzidas no âmbito da Lava Jato, como fatos novos, a título de prova emprestada e valoração de fatos públicos e notórios. Agiu mais como defensor, do que como juiz.
Há quem diga que: "quem tem Gilmar no Tribunal, não precisa de advogado".
Ele votou para desempatar o julgamento que estava empatado em três contra três, manifestando-se pela improcedência das ações, isentando Temer de responsabilidade e mantendo-o no cargo de presidente da República.
Foi um dos dias mais tristes e vergonhosos para o Judiciário brasileiro; mais um escárnio para o Mundo inteiro assistir com perplexidade sobre nossa capacidade de conviver com o absurdo e produzir aberrações dessa natureza.
Não porque um magistrado teria julgado conforme sua consciência de política judiciária e convencimento técnico sobre o caso. E sim porque o teatro armado teve como último ato um final já previsto pelos analistas políticos, ao revés de pelos juristas: menos pelo que diz a Constituição e a legislação eleitoral; mais pelo que revelam as conexões indecorosas das cúpulas do poder central da capital federal.
Sinto que as mudanças que queremos continuarão sendo interditadas pelo establishment político e econômico via as instituições ora hospedadas por ele, como um vírus que corroe a célula até sua morte e destruição. Elas só virão caso haja forte apelo, mobilização e pressão popular.
Fora dessa saída, pela via democrática de eleições diretas, o horizonte ficará cada vez mais incerto, sendo que a instabilidade política do país, com reflexos na economia, não cessará. A governabilidade ficará cada vez mais difícil, próximo do impossível, de preservar e realizar, nessa miscelânea que virou Brasília e o Brasil.
Em boa parte isso se deve à ausência de três condições básicas e elementares para a ascensão, sustentação e permanência de Michel no comando do país: legalidade, credibilidade e legitimidade.
Estamos muito próximos de ter de exercer o direito fundamental à desobediência civil, pacífica, em face de autoridades, normativas, decisões e ordens que atentam contra a cidadania, dignidade e soberania popular.
Paulo Lemos é advogado especialista em Direito Eleitoral e Administrativo.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
Operação apreende mais de 540 kg de cocaína na fronteira
PC prende acusado de série de crimes contra motoristas de aplicativos
Ministro anuncia renovações automáticas de CNH para bons motoristas
Estudo aponta aumento de preço da cesta básica: mais de R$ 800
Operação da PM derruba tráfico de drogas em Várzea Grande
Vitória para Mato Grosso. Conquista para o Brasil!
IPCA vai a 0,33% em dezembro e fecha 2025 em 4,26%, abaixo da meta
TJ crava: desconto em conta salário é considerado indevido
Comer errado
PC confirma prisão de homem acusado de tentar matar mulher queimada