Apontam dedos sem ouvir a história
A sociedade humana sempre teve um olhar observador e crítico. Examinou comportamentos, crenças, costumes e diferenças. Entretanto, há algo que provoca um arrepio na espinha da sociedade contemporânea: a transformação da punição em uma espécie de condecoração. Nunca esteve tão fácil condenar, tão rápido emitir juízos e tão difícil captar as nuances.
O grande pensador grego, Sócrates, disse que o verdadeiro pensar acontece quando questionamos o que pensamos que sabemos. A sociedade digital parece ter rompido com essa tradição. Antes de se confrontar com a realidade, já se municia de uma opinião prévia; antes mesmo de ouvir o que o outro tem a dizer, já o julga culpado; e antes de buscar uma compreensão genuína, já se apressa em emitir um veredito. A incerteza, que um dia foi considerada uma joia da sabedoria, agora é vista como um caminho para a vulnerabilidade.
As redes sociais agem como tribunais eternos. Nesses casos, a acusação não exige provas; a indignação substitui as explicações e a reputação de alguém pode ser destruída em um instante. Não existem juízes neutros como camaleões em cima de muros, nem métodos que assegurem uma defesa de gladiador. Há um imenso público que observa, dissemina e emite seus juízos.
Michel Foucault mostrou que o poder não se encontra apenas nas instituições, mas flui nas relações sociais, produzindo mecanismos de controle e normalização. Atualmente, essa observação se disseminou como uma rede: cada pessoa é o olho da outra. Todo homem pode ser, ao mesmo tempo, o vigilante da lei, o acusado no tribunal e o executor de uma punição sem vestígios, uma poeira mágica que se esvai ao vento.
A sociologia revela um novo lado deste evento. Avaliar também gera um sentimento de pertencimento. A raiva coletiva une as pessoas, solidifica as identidades e estabelece as fronteiras entre os que são considerados moralmente corretos e aqueles que devem ser excluídos da festa. O tribunal se transforma numa grande vitrine da moralidade, na qual a busca da verdade se torna um espetáculo das virtudes em exibição.
Hannah Arendt fez um aviso a respeito dos perigos de viver sem reflexão crítica. Quando a meditação cede lugar à dança das ideias e dá lugar à balança desregulada das crenças em coro, a autonomia de cada um acaba como um balão murcho. A brutalidade não precisa ser visível sob a forma de socos para causar dor. O vexame e a desintegração da autoestima são, evidentemente, formas de violência que marcam a alma.
É certo que a contradição é evidente. Um grupo que grita pela liberdade de se expressar muitas vezes não considera a vontade de aceitar uma argumentação oposta. Defende-se a diversidade no debate, mas, na prática, a turma quer a uniformidade dos pensamentos.
Isso não sugere que seja o momento de se descuidar da obrigação de prestar contas. Há condutas que são verdadeiros crimes no sentido jurídico e no da sociedade. Ao mesmo passo, a atribuição de responsabilidade há de não suprimir o ser do transgressor. A justiça requer um olhar atento; a vingança se sustenta da dor do outro.
O Direito construiu muros de proteção para impedir a corrida das verdades absolutas. O jogo do contraditório, a defesa plena e a presunção de inocência, até prova em contrário, são vitórias da civilização, pois fazem um gesto amistoso à ideia de que até os juízes podem errar na difícil tarefa de decidir.
Um dos maiores desafios do presente talvez seja recuperar a capacidade de ouvir sem necessariamente acenar com a cabeça, de entender sem sair justificando tudo e, claro, de discordar sem ser um ogro peludo que se esqueceu da educação.
Quando a multidão se entusiasma em julgar e ninguém a querer ouvir, a justiça pode se perder nas vaidades da multidão, assim como um balão murcho pelo meio do desfile.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) também é fundador do Canal do YouTube PodBedelhar (email: podbedelhar@gmail.com).