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26 Aug 2026 08:01

Brasil além da polarização: reconstruir o diálogo para construir uma nação

Brasil além da polarização: reconstruir o diálogo para construir uma nação
Crédito: Foto: Reprodução
O Brasil precisa reaprender a discordar. A democracia não exige unanimidade, mas pressupõe algo igualmente difícil: reconhecer que quem pensa diferente continua sendo cidadão, titular dos mesmos direitos e integrante da mesma comunidade política.
 
A polarização torna-se perigosa quando o adversário passa a ser tratado como inimigo; quando ideias são substituídas por insultos; quando o pertencimento político vale mais que os fatos; e quando amizades, famílias e relações profissionais são destruídas por eleições que, por definição democrática, são temporárias.
 
Superar esse ambiente não significa eliminar esquerda, direita, centro, conservadores, progressistas ou liberais. Significa restabelecer um princípio elementar: nenhuma identidade política pode ser maior que a cidadania comum.
 
O primeiro passo é retirar a política da lógica do “nós contra eles” e recolocá-la onde deveria estar: na discussão dos problemas nacionais.
 
Em vez de perguntarmos permanentemente quem é culpado, precisamos perguntar: como fazer a economia crescer com estabilidade e distribuição de oportunidades? Como gerar empregos, melhorar salários, estimular investimentos e preservar responsabilidade fiscal? Como fortalecer o SUS, melhorar a educação pública, enfrentar o crime organizado, reduzir homicídios e garantir segurança às famílias? Como combater a fome, a pobreza e as desigualdades? Como ampliar habitação, saneamento, inclusão produtiva e participação social?
 
Essas perguntas obrigam a sociedade a sair do terreno das paixões tribais e entrar no campo das políticas públicas.
 
O Brasil necessita de um projeto nacional que sobreviva aos governos. Nenhuma nação consistente pode começar novamente a cada quatro anos. 
 
Algumas metas deveriam integrar um compromisso de Estado: erradicar a fome extrema; assegurar alfabetização adequada; universalizar saneamento básico; reduzir drasticamente a violência; fortalecer ciência e tecnologia; aumentar produtividade e renda; proteger a primeira infância; desenvolver infraestrutura; promover transição energética; reduzir desigualdades regionais e garantir equilíbrio fiscal sustentável.
 
Governos poderiam divergir sobre os caminhos. O compromisso com determinados objetivos nacionais, entretanto, deveria permanecer.
 
A Constituição de 1988 oferece a base para essa convergência. Nela convivem dignidade humana, cidadania, pluralismo político, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, desenvolvimento nacional, redução das desigualdades e construção de uma sociedade livre, justa e solidária. 
 
Portanto, um projeto de nação não precisa começar pela esquerda nem pela direita. Pode começar pela Constituição.
 
Também precisamos recuperar uma ética republicana do debate.
 
Discordar de uma proposta é legítimo. Criticá-la severamente também. Transformar quem pensa diferente em alguém moralmente inferior é outra coisa. A desumanização política abre caminho para intolerância, violência e autoritarismo.
 
Da mesma maneira, devemos enfrentar o falso moralismo. 
 
Não existe ética republicana quando alguém condena a corrupção do adversário e relativiza a do aliado; denuncia o autoritarismo alheio e desculpa o próprio; defende liberdade de expressão somente para quem concorda consigo ou reivindica direitos apenas para determinados grupos.
 
Uma regra simples poderia melhorar enormemente nossa vida pública: o princípio que utilizamos para julgar nossos adversários deve valer igualmente para nossos aliados.
 
Precisamos, ainda, devolver centralidade aos fatos. Uma proposta pública deveria responder a questões objetivas: quanto custa? Como será financiada? Em quanto tempo produzirá resultados? Que evidências a sustentam? Quais indicadores permitirão avaliar seu sucesso?
 
O debate político ganharia qualidade se candidatos e governantes fossem cobrados menos por frases de efeito e mais pela viabilidade de suas políticas.
 
Há também um desafio humano. A reconstrução nacional começa nas relações cotidianas. Nenhuma disputa eleitoral deveria valer mais do que vínculos construídos durante décadas. É perfeitamente possível preservar convicções sem humilhar parentes, amigos, colegas ou vizinhos.
 
Respeitar não significa concordar. Dialogar não significa renunciar a princípios. Reconciliação tampouco exige tolerar violência, preconceito ou agressões. Significa reconhecer a humanidade do outro mesmo no conflito.
 
Os direitos humanos fornecem exatamente essa linguagem comum. Protegem o trabalhador e o empreendedor, a vítima e o acusado, o cidadão diante do Estado, as minorias e as maiorias. 
 
Sua essência é universal: ninguém perde dignidade por sua origem, condição social, religião, pensamento ou posição política.
 
O Brasil não precisa de menos política. Precisa de uma política melhor: firme sem ser fanática; apaixonada sem ser intolerante; ideológica sem desprezar evidências; competitiva sem abandonar o espírito republicano.
 
Reconciliar o país não significa apagar nossas diferenças. Significa aprender novamente a viver com elas.
 
Talvez esse seja o verdadeiro projeto de nação que nos falta: democracia para administrar as diferenças, República para impedir privilégios, desenvolvimento para produzir prosperidade, justiça social para ampliar oportunidades e direitos humanos para assegurar dignidade a todas as pessoas.
 
Paulo Lemos é advogado e articulista em Mato Grosso.
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