O mundo atravessa um daqueles períodos em que a sensação de chão firme desaparece. Invasões territoriais, testes de mísseis hipersônicos, sanções econômicas em cadeia, disputas monetárias e uma guerra cultural permanente compõem um cenário de instabilidade difusa, difícil de localizar e ainda mais difícil de conter. Não se trata apenas de conflitos armados tradicionais, mas de uma convergência de tensões que atravessam fronteiras, mercados, identidades e narrativas.
A guerra, como já advertia Carl von Clausewitz (Carl Philipp Gottfried, como está escrito na sua lápide), nunca foi um fenômeno isolado: ela é a continuação da política por outros meios. O que muda no século XXI é a multiplicação desses “outros meios”. Hoje, o confronto não se dá apenas no campo de batalha, mas nas cadeias de suprimentos, nas taxas de juros, nos algoritmos das redes sociais e na disputa pela opinião pública global. A violência, muitas vezes, não explode — infiltra-se.
Essa infiltração ajuda a explicar o sentimento generalizado de insegurança. Thomas Hobbes descreveu o medo como o afeto fundador da política moderna: o receio da morte violenta leva os indivíduos a aceitarem um poder comum. Contudo, quando o próprio sistema internacional parece incapaz de oferecer previsibilidade, o medo deixa de organizar e passa a desagregar. Estados se rearmam, moedas se protegem, sociedades se fecham.
Ao analisar os totalitarismos do século XX, Hannah Arendt alertou para o perigo da banalização da violência e da mentira. Em tempos de guerra informacional, esse alerta ganha nova atualidade. A desinformação não apenas confunde: ela corrói a confiança pública, dissolve consensos mínimos e transforma adversários políticos em inimigos existenciais. A guerra cultural, nesse sentido, prepara o terreno simbólico para conflitos mais duros.
Some-se a isso a fluidez descrita por Zygmunt Bauman. Vivemos numa modernidade líquida, na qual instituições, alianças e certezas se desfazem rapidamente. A instabilidade não é mais exceção, mas regra. A sensação de crise permanente gera fadiga social, radicalização e a busca por soluções simples para problemas complexos — um terreno fértil para aventuras autoritárias.
O desafio do nosso tempo, portanto, não é apenas evitar guerras, mas reconstruir mecanismos de confiança em um mundo fragmentado. A confiança, hoje, não se rompe apenas entre Estados, mas também entre governos e cidadãos, entre ciência e opinião pública, entre informação e verdade. Sem esse tecido mínimo de credibilidade compartilhada, tratados se tornam frágeis, instituições perdem legitimidade e qualquer crise local ganha potencial de contágio global.
Reconstruir essa confiança exige diplomacia paciente, menos orientada por gestos espetaculares e mais comprometida com acordos duradouros; exige responsabilidade informacional, capaz de enfrentar a lógica da desinformação em massa sem recorrer à censura ou ao autoritarismo; e exige cooperação econômica que vá além da retórica, reconhecendo que interdependência não é fraqueza, mas condição da sobrevivência coletiva. Num mundo financeiramente conectado, colapsos locais rapidamente se transformam em crises sistêmicas.
Há, ainda, um componente ético incontornável. Pensar além da lógica do confronto total significa recusar a ideia de que a destruição do outro é pré-requisito para a própria segurança. A história demonstra que políticas fundadas exclusivamente no medo produzem espirais de violência e desumanização, nas quais o inimigo deixa de ser um ator político e passa a ser tratado como ameaça absoluta, sem direito à existência.
Como ensina a história, momentos de instabilidade podem produzir regressões profundas — com perda de direitos, normalização da violência e erosão das liberdades —, mas também podem abrir oportunidades de reinvenção institucional, cultural e política. A escolha não é simples nem totalmente livre: ela é condicionada por estruturas econômicas, disputas de poder e heranças históricas. Ainda assim, permanece, em alguma medida, nas mãos humanas. São decisões concretas, tomadas no presente, que definirão se este período será lembrado como o prelúdio de novas catástrofes ou como o ponto de inflexão para uma ordem mais responsável e solidária.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT (Email: podbedelhar@gmail.com).

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