O coração elétrico da nuvem
A nuvem tem endereço, e ela passa por subestações, transformadores, painéis, barramentos, cabos e conexões. Cada servidor que processa uma solicitação de inteligência artificial consome eletricidade que precisa ser entregue com confiabilidade, durante todo o dia. Por isso, a expansão dos data centers no Brasil não envolve apenas investimentos, área física e capacidade computacional. Ela depende também de uma infraestrutura elétrica preparada para atender uma nova geração de grandes consumidores.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 706 MW de capacidade instalada em data centers, mais de seis vezes o volume registrado em 2012, segundo a JLL, consultoria especializada em soluções imobiliárias para data centers. Desde então, o setor cresceu a uma taxa média de 15% ao ano. Outros 660 MW estão em construção, enquanto a taxa de vacância nacional é de apenas 4%. A consultoria projeta que o mercado brasileiro dobre de tamanho até 2030. São Paulo, incluindo as regiões de Barueri e Campinas, concentra parcela relevante dessa estrutura e permanece como principal polo nacional.
O planejamento energético também passou a incorporar de forma mais explícita essa transformação. No Caderno de Demanda de Eletricidade do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, a Empresa de Pesquisa Energética, EPE e o Ministério de Minas e Energia projetam consumo de 939 TWh em 2035 no cenário de referência e incluem, entre as chamadas cargas especiais, a eletromobilidade, os data centers e a produção de hidrogênio por eletrólise. A participação conjunta dessas cargas varia de 1,2% a 12,9% entre os cenários analisados. No cenário de referência, a participação é de 1,4%. O percentual mais elevado está associado a uma hipótese de expansão mais intensa, que considera grandes projetos de data centers e de hidrogênio relacionados a oportunidades internacionais.
O Plano da Operação Energética 2026-2030, do Operador Nacional do Sistema Elétrico, ONS, reforça a necessidade de acompanhar os efeitos desta nova demanda. Nos cenários de maior expansão de cargas, aparecem desafios relacionados aos critérios de suprimento a partir de 2029, além de uma atenção especial ao atendimento durante o período de ponta noturna. A característica contínua dos data centers reduz a possibilidade de deslocamento do consumo para outros horários, aumentando a importância de uma infraestrutura capaz de entregar energia e potência de forma confiável.
A questão, porém, não termina na geração e na transmissão. Entre a subestação e o rack existe uma cadeia de equipamentos que precisa suportar cargas elevadas de maneira contínua. Transformadores, painéis, barramentos, cabos e conexões fazem parte de uma infraestrutura na qual cada componente tem impacto sobre a confiabilidade do sistema.
Uma conexão mal dimensionada ou executada de maneira inadequada pode elevar a resistência de contato. Quando submetida a correntes elevadas, essa resistência se transforma em calor pelo efeito "joule", aumentando perdas elétricas e o risco de falhas. Em uma instalação convencional, um problema localizado pode exigir uma intervenção.
Em um data center, onde a continuidade da operação é um requisito fundamental, uma falha em um componente pode afetar uma estrutura de grande porte.
A expansão da infraestrutura digital ocorre ainda em um ambiente de custos crescentes. Segundo a Cushman & Wakefield, empresa global líder em serviços imobiliários comerciais e corporativos, os custos de construção de data centers nos mercados dos Estados Unidos e Canadá aumentaram, em média, 21% por megawatt desde o quarto trimestre de 2024. A consultoria aponta como fatores de pressão a escassez de mão de obra especializada, o aumento dos custos de equipamentos, os prazos mais longos de fornecimento e as restrições para conexão à rede elétrica. O dado não representa os custos brasileiros, mas ajuda a dimensionar um desafio que vem acompanhando a expansão global do setor.
No Brasil, o ambiente regulatório também passou por uma mudança importante. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, foi sancionado em setembro de 2026 e criou incentivos para a instalação de data centers no país. A legislação estabelece contrapartidas relacionadas, entre outros pontos, a investimentos em pesquisa e desenvolvimento e ao desenvolvimento da cadeia tecnológica nacional. O programa também incorpora critérios relacionados à sustentabilidade e ao uso de energia. Neste cenário é importante destacar que um data center pode entrar em operação em dois ou três anos e uma obra de transmissão necessita de até sete anos para iniciar sua operação o que pode provocar um sistema ocioso que significa tarifa de energia mais cara.
O Brasil reúne condições para ampliar sua participação no mercado regional de data centers, apoiado pela disponibilidade de energia renovável, pelo tamanho do mercado consumidor e pela posição já alcançada na América Latina. Transformar esse potencial em capacidade operacional confiável, entretanto, exige olhar para além dos anúncios de novos investimentos.
Subestações adequadamente dimensionadas, redes com capacidade de atendimento, equipamentos elétricos de qualidade e profissionais preparados para instalação, manutenção e operação serão tão importantes quanto servidores, sistemas de refrigeração e capacidade computacional.
A nuvem pode parecer imaterial para quem acessa um aplicativo ou utiliza uma ferramenta de inteligência artificial. Mas, por trás de cada processamento, existe uma estrutura física que precisa funcionar continuamente. E ela começa muito antes do rack, na energia que chega ao data center e em cada conexão responsável por conduzi-la.
*Marcelo Mendes é gerente geral da KRJ Conexões (https://krj.com.br/).É economista e executivo de marketing e vendas do setor elétrico há mais de 15 anos, com atuação inclusive em vários mercados internacionais.