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01 Nov 2026 08:10

Esquerda e direita

Esquerda e direita
Crédito: Foto: Reprodução

A política tem termos que permanecem atemporais, mesmo quando a realidade que os criou já não existe mais. A esquerda e a direita ilustram bem essa continuidade. Originadas de uma posição material no espaço, converteram-se em identidades ideológicas e percorreram séculos como ferramentas de catalogação do raciocínio político.

Seu surgimento remonta à Revolução Francesa, em 1789. Na Assembleia Nacional, os representantes que apoiam reformas mais significativas na estrutura política e a restrição dos privilégios tradicionais passaram, em geral, a se sentar à esquerda da presidência. À direita, agrupavam-se os partidários da monarquia e da manutenção das estruturas tradicionais. Uma posição nas cadeiras tornou-se uma posição diante da história.

Ao longo dos séculos, esses termos ganharam outros sentidos. A esquerda começou a ser vista como um símbolo de igualdade social e da mudança nas estruturas econômicas. A direita defende preservar costumes, a propriedade privada e a manutenção das instituições. Porém, nenhuma dessas identidades foi constante ou fixa.

O dilema atual se apresenta quando categorias, que foram desenvolvidas ao longo da história, começam a ser vistas como explicações completas para a realidade. Uma palavra ocupa o lugar do raciocínio; uma identidade dispensa a análise. Antes de se familiarizar com uma ideia, busca-se entender de onde ela se originou.

As mudanças econômicas, culturais e tecnológicas, por sua vez, tornaram essas divisões ainda mais complexas. É viável promover a liberdade econômica enquanto se defende a proteção ambiental, valorizar as tradições culturais e, ao mesmo tempo, aceitar novas configurações familiares, lutar por justiça social e também criticar a concentração de poder do Estado. Essas opiniões não precisam ser agrupadas sob uma única identidade política.

A sociedade atual enfrenta questões que transcendem as barreiras ideológicas: inteligência artificial, mudanças climáticas, envelhecimento da população, disparidades digitais, migrações e a concentração de informações. Reduzir esses temas a apenas dois lados opostos pode camuflar sua complexidade.

Isso não significa que esquerda e direita tenham perdido todo significado. Continuam presentes nas disputas políticas e permitem identificar determinadas tradições de pensamento. Tornam-se insuficientes, porém, quando pretendem explicar integralmente pessoas, instituições e sociedades.

O perigo não reside nas palavras, mas no uso que transforma classificações em sentenças. Quando uma ideia é aceita ou rejeitada exclusivamente por sua origem ideológica, o pensamento deixa de investigar e passa apenas a confirmar pertencimentos.

Talvez o desafio do presente não seja abolir esquerda e direita, mas reconhecer que nenhuma direção esgota as possibilidades da experiência humana. A realidade não possui apenas dois lados, e a inteligência crítica começa quando se admite que problemas diferentes podem exigir respostas diferentes.

É por aí...

 

Gonçalo Antunes de Barros Neto é membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de mato Grosso – IHGMT. (Email: podbedelhar@gmail.com).

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