O professor que chama cada aluno pelo nome
Quem estudou em escola pública lembra do professor de educação física. Nem sempre pelo conteúdo da aula, mas porque foi, muitas vezes, o único adulto daquela escola que chamava todos os alunos pelo nome. Inclusive os que ninguém mais chamava. O repetente, o tímido que se encostava na parede da quadra, o menino que os outros professores já tinham desistido de entender. Na aula de educação física, todo mundo entrava em campo. E não é raro que tenha sido ali, e só ali, que alguns desses alunos se sentiram parte de alguma coisa.
Hoje, 1º de setembro, é o Dia do Profissional de Educação Física. A data não caiu do céu. Foi neste dia, em 1998, que a Lei 9.696 regulamentou a profissão no país, reconhecendo que cuidar do corpo de alguém, de uma criança ou de um idoso, exige formação e responsabilidade. Parece óbvio hoje, mas levou tempo para o Brasil tratar esse trabalho como o trabalho sério que ele é.
Digo isso porque ainda carregamos um preconceito antigo, daqueles que a gente repete sem perceber. É a ideia de que educação física é a aula "de rolar a bola", o intervalo com apito, a matéria que não conta tanto quanto português e matemática. Quem pensa assim nunca prestou atenção no que acontece numa quadra. É ali que a criança aprende a perder num dia e voltar a jogar no outro, que entende que regra não é perseguição e que existe um lugar para ela num time. Isso não é acessório da educação. É educação.
E isso tem efeito prático, que a gente viu na própria pele aqui em Várzea Grande. Quando o IDEB da nossa rede subiu, semanas atrás, para o melhor patamar dos últimos anos, eu fiz questão de lembrar que índice não sobe sozinho. Por trás de uma criança que aprendeu a ler e não largou a escola quase sempre tem uma escola inteira funcionando, e o profissional de educação física está nela. É ele que muitas vezes segura o aluno que já estava com um pé fora, e que costuma perceber antes dos outros quando algo não vai bem em casa.
Mas seria injusto falar só da escola. O profissional que a gente homenageia hoje também está na academia do bairro, no posto de saúde ajudando quem precisa se mexer para viver melhor, na reabilitação de quem teve um AVC, no projeto social que tira adolescente da esquina. Aqui em Mato Grosso, é a categoria representada pelo CREF17 que faz esse trabalho todos os dias, boa parte dele longe dos holofotes. Quando a saúde pública fala em prevenção, é desse profissional que ela está dependendo, mesmo quando esquece de dizer o nome dele.
Como vereador, o meu compromisso com essa categoria é o mesmo que tenho com a educação: sair da homenagem de um dia e chegar na condição dos outros 364. Na prática, é cobrar quadra de verdade nas escolas, e não um espaço improvisado no sol. É garantir estrutura de trabalho e um contracheque digno para quem passa a manhã inteira com trinta crianças. E é parar de deixar o esporte por último na fila do orçamento, quando já sabemos que ele ajuda a segurar o aluno e a melhorar o aprendizado.
Então, aos profissionais de educação física de Várzea Grande, o meu obrigado de hoje vem sem faixa e sem apito. Vem no compromisso de continuar defendendo que o trabalho de vocês seja levado a sério o ano inteiro. A criança que vocês chamam pelo nome não esquece disso. E eu também não.
*Charles da Educação, vereador de Várzea Grande (União).