Paulo Lemos
Vivemos num mundo que não tem paciência para a tristeza.
Você precisa ser positivo e produtivo o tempo todo, mesmo quando por dentro está se despedaçando.
Nesse contexto, a depressão vira um problema: ela te deixa lento, tira suas forças e mostra que a felicidade constante é uma mentira.
Em vez de tentarmos entender, preferimos julgar. E esse julgamento vem em forma de conselhos vazios: “reaja”, “pense positivo”, “seja forte”.
Nenhuma dessas frases ajuda — elas só fazem a pessoa se calar.
A depressão não é frescura. Ela tem causas reais. Pode ser uma química desregulada no cérebro, um cansaço extremo do corpo, uma dor antiga da alma, ou o peso de viver num mundo tão competitivo e solitário.
É biológica, psicológica e social ao mesmo tempo. E, para muitos, é também espiritual: é o vazio de não encontrar mais sentido na vida.
Vivemos numa sociedade que nos cobra sermos os melhores o tempo todo. Nos tornamos nossos próprios chefes exigentes. E quando a gente não aguenta mais, o sistema nos pune por termos quebrado.
A depressão é o jeito que o corpo e a mente acham para dizer “chega”. É um pedido de socorro que ninguém ouve.
Muitas vezes, a depressão vem de perdas que os outros não enxergam. Não é só a morte de alguém.
Pode ser a distância de um filho, o fim de um sonho, a saudade de alguém especial, o luto e/ou a perda da fé e da esperança, ausência de amor.
São feridas que não sangram, mas doem muito. A pessoa não perde só algo ou alguém; perde um pedaço de si mesma.
A sociedade exige que a pessoa “volte ao normal”. Mas como voltar ao normal quando a gente não é mais o mesmo?
O que foi perdido não volta. A pessoa precisa se reconstruir a partir do zero.
A depressão, nesse sentido, não é uma doença qualquer. É a resposta de um ser humano a uma dor imensa.
A cultura transforma o sofrimento em culpa. A pessoa com depressão é tratada como se tivesse falhado em ser feliz.
Mas, na verdade, a depressão pode ser um mecanismo de proteção.
O corpo e a mente estão tentando sobreviver à dor, pedindo um tempo para se recompor.
O que parece fraqueza pode ser, na verdade, uma força interna tentando se preservar.
A angústia profunda é o desespero de ter que continuar vivendo depois de uma grande perda.
A sociedade não quer ver essa dor. Ela trata a pausa como preguiça e o silêncio como defeito.
A pessoa é criticada por não acompanhar o ritmo, quando na verdade ela está lutando a batalha mais difícil: aprender a viver de novo.
Toda tristeza, todo cansaço, todo silêncio é uma tentativa de comunicação. A pessoa deprimida está tentando dizer algo.
Ouvir sem julgamento é um ato de amor, não de pena.
O problema é que o mundo quer soluções rápidas. Ele não quer ouvir a verdade; ele quer ver um sorriso forçado.
Julgar quem sofre é uma forma de se proteger. Ver alguém cair nos assusta, porque lembra que nós também podemos cair.
Lembra que nosso equilíbrio mental é frágil, que nossa química cerebral pode desequilibrar, que nossa alma pode se perder.
Por isso é mais fácil dizer “supere!” do que parar e escutar. Julgar é fugir do nosso próprio medo.
Mas existe um caminho. A cura começa quando a dor pode ser compartilhada. Quando o sofrimento é nomeado e o silêncio tem companhia.
A depressão perde força quando encontra um ombro amigo — alguém que fica ao lado, mesmo sem ter respostas.
A cura está na presença, não na pressa.
É aí que o acolhimento funciona. Algumas dores só começam a sarar quando encontram um coração que as compreende. Quando o olhar do outro não critica, mas aceita.
Quando alguém segura sua mão e, sem dizer uma palavra, transmite: “Estou aqui com você. Sua dor é válida. Você não está sozinho.”
Esse é o tipo de encontro que realmente ajuda. Não é sobre dar conselhos. É sobre oferecer presença.
O acolhimento é quando dois seres humanos se conectam na vulnerabilidade, e um reconhece o sofrimento do outro.
Às vezes, uma pequena fagulha de conexão — um abraço, um olhar, uma escuta — é o suficiente para reacender a vontade de viver.
Mudar essa cultura do julgamento significa trocar a crítica pela escuta, a cobrança pelo cuidado, a pressa pela paciência. É permitir que a tristeza seja um sentimento válido.
Acolher não é tirar a dor do outro; é ficar ao lado dela, com amor. E isso, muitas vezes, já é o suficiente para a dor se tornar mais leve.
A depressão é o oposto da indiferença: é sentir demais num mundo que insensibiliza.
Quem diz “seja forte” muitas vezes está, na verdade, dizendo “não quero lidar com a sua dor”.
Mas há uma coragem enorme em quem consegue levantar da cama todos os dias, mesmo sem ver motivo.
A vida não é uma linha reta de sucesso — é uma jornada com altos e baixos.
As pessoas julgam a depressão porque têm medo de admitir que a vida pode ser dolorosa e que o sentido pode se perder. Julgam para não encarar a própria fragilidade.
Mas o que salva não é o julgamento — é a escuta. Não é o conselho — é a presença.
A depressão não é falta de força. É humanidade em seu estado mais puro e sensível.
E talvez a cura real comece justamente aí — nesse encontro simples entre duas pessoas, onde uma ousa ficar junto da dor da outra.
Porque ninguém se cura totalmente sozinho. Mas todos podemos ser o porto seguro onde alguém encontra forças para recomeçar.
Paulo Lemos é advogado e humanista.
paulolemosadvocacia@gmail.com

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