Wilson Pedroso
Em uma era marcada pela presença da tecnologia digital, as relações humanas enfrentam uma crise silenciosa e muitas vezes invisível. O uso irrestrito de dispositivos móveis, redes sociais e plataformas de mensagens instantâneas transformou profundamente a maneira como interagimos.
A rotina das famílias e grupos de amigos, antes baseada nos diálogos presenciais e momentos compartilhados, tem sido substituída por uma massiva presença de dispositivos eletrônicos. É cada vez mais comum perceber pessoas reunidas em espaços públicos, como bares e restaurantes, que sequer se olham e permanecem imersas nas telas de seus smartphones.
Os melhores abraços e sorrisos ocorrem na hora das selfies, com anglos cuidadosamente escolhidos para serem publicados no Instagram. Também vão para a timeline ou para os storie as fotos do brinde, do prato mais caro do menu, do endereço da moda. Tudo é feito para se encaixar no novo estilo de vida "instagramável", termo recente que revela a necessidade de validação virtual e muitas vezes substitui a espontaneidade das experiências cotidianas.
A tecnologia não é a única responsável por esse cenário de distanciamento; fatores culturais e sociais também contribuem para esse fenômeno. A urbanização acelerada e o ritmo frenético da vida nos grandes centros urbanos favorecem a superficialidade das interações, dificultando a manutenção de relações próximas e significativas. As pessoas estão preocupadas com o trabalho, com o trânsito, com o noticiário econômico. Ninguém mais tem tempo para uma boa conversa ao telefone, para pedir notícias do amigo ou para saber da saúde dos familiares distantes.
Acrescenta-se a esse cenário uma dimensão política que, atualmente, intensifica a fragmentação social: a polarização radical. O conflito ideológico, muitas vezes acompanhado do discurso de ódio e de reações de profunda intolerância, esvazia a possibilidade de convivência respeitosa e de diálogo. As pessoas deixam de se falar simplesmente porque não concordam com a posição política do outro.
Nesse contexto, as pequenas tradições — como o jantar em família, a narrativa de histórias, a oração antes de dormir ou sessões de cinema no sofá de casa — parecem simples, mas constituem a espinha dorsal do fortalecimento dos laços afetivos. Essas práticas, que antes pareciam banais, funcionam como verdadeiros pilares de pertencimento, confiança e identidade.
Para além do mero resgate nostálgico, o reconhecimento do valor dessas rotinas cotidianas é uma questão de sobrevivência emocional. Em um mundo cada vez mais fragmentado, preservar esses momentos é criar um refúgio, um porto seguro.
Cultivar esses rituais significa, sobretudo, reafirmar o valor do encontro face a face e o compromisso com aquilo que, no final das contas, sustenta a essência da convivência social: a capacidade de sermos humanos, uns com os outros.
*Wilson Pedroso é consultor eleitoral e analista político com MBA nas áreas de Gestão e Marketing.

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