Soraya Medeiros
A gente vive como se tivesse tempo. Como se os dias viessem em fila indiana, todos esperando sua vez. Como se o amor aceitasse ser deixado para depois. Como se os abraços tivessem prazo elástico.
Mas não têm. Outro dia, ouvi a história de Rafael. Ele se despediu da mãe como tantas vezes já havia feito.
Era uma manhã comum, numa cidade pequena — daquelas em que o tempo parece caminhar mais devagar. Ela ia visitar a própria mãe, já velhinha, noventa e dois anos de sabedoria nos olhos. Na despedida, trocaram um abraço. Um abraço longo, firme. Um desses que a gente só dá em quem ama com a alma. Não sabiam — e como poderiam saber? — que aquele seria o último.
Horas depois, o avião caiu. Não houve sobreviventes. O tempo — esse velho conhecido que nunca espera — fez o que sempre faz: foi embora. Levou com ele a presença, o cheiro, a voz da mãe de Rafael. Mas deixou o abraço. Aquele gesto simples, captado por uma câmera de segurança, virou símbolo. Não só da despedida — mas do amor que não se atrasa, do carinho que não se guarda, da urgência de viver o agora com quem se ama.
Desde então, carrego essa pergunta no peito como quem carrega um lembrete colado na alma: e se for o último abraço? Quantas vezes deixamos para depois o que deveria ser agora? O "eu te amo" que engolimos, o perdão que adiamos, o abraço que economizamos. Como se o amanhã viesse com garantia. Como se as pessoas fossem eternas.
A mãe de Rafael era dessas mulheres que fazem o bem em silêncio. Mãos inchadas pela artrite, mas sempre estendidas a quem precisava. Sorriso calmo, jeito simples. Dizia que o essencial era suficiente. E foi assim que partiu: com a paz de quem viveu com leveza, com fé, com verdade.
E nós? Será que estamos vivendo assim também? Será que temos dado nossos abraços como se fossem os últimos — profundos, demorados, sinceros?
A vida é um sopro. E se há algo que ela nos ensina, mesmo sem dizer, é que não vale a pena economizar amor. Que o essencial, quase sempre, cabe num gesto. Num toque. Num olhar que diz: "estou aqui com você".
Hoje, te convido a abraçar como se fosse a última vez. A olhar nos olhos com presença. A falar com o coração. Porque quando esse momento não puder mais ser repetido, que ele ao menos tenha vivido com toda a verdade do mundo. Porque o último abraço, quando vivido com verdade, tem o poder de durar para sempre.
*Soraya Medeiros é jornalista com mais de 23 anos de experiência, possui pós-graduação em MBA em Gestão de Marketing. É formada em Gastronomia e certificada como sommelier.

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