Wilson Pedroso
Donald Trump anunciou o tarifaço de 50% ao Brasil e, em poucos instantes, movimentou o tabuleiro do xadrez político interno, acentuou a crise institucional do país, ocupou os principais espaços da mídia nacional e abriu margem para protestos e especulações no mercado econômico. Em poucas palavras: Trump criou o caos.
A partir de seu anúncio, iniciou-se uma contagem regressiva de histeria econômica e diplomática para o dia 1 de agosto, quando deveriam começar a ser aplicadas as novas tarifas. O clima era de tensão, suspense, drama. Um roteiro cuidadosamente construído, digno de compor as melhores séries americanas de bastidor político. E o ápice dessa trama ocorreu no dia 30 de julho, com a investida final de Trump, que apareceu em cena travestido de herói.
Mais do que político, Donald Trump é um comunicador e um estrategista. Ao divulgar o documento que confirma a taxação de 40%, às exportações brasileiras, cumulativa aos 10% que já anunciados antes, o presidente americano abriu cerca de 700 exceções a produtos nacionais diversos, entre eles aviões, suco de laranja, petróleo e minério de ferro.
Desta forma, o estrago do tarifaço, embora ainda grande, foi diluído. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) informou que as medidas anunciadas incidirão apenas sobre 35,9% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Há ainda cerca de 19% que representam produtos taxados em 25% sob a alegação de segurança nacional.
Mas o fato é que 44,6% das exportações ficaram livres da sobretaxa, sendo que sobre eles incidirá a tarifa inicial de 10%. E mais: Trump ainda ampliou em sete dias o prazo para início do vigor das novas taxas. Ou seja, construiu para si uma imagem de líder equilibrado, capaz de buscar uma solução sensata para a crise que ele próprio explodiu.
Em meio a todo esse enredo, Trump cria ainda outros personagens: o ministro Alexandre de Moraes é vilão, Jair Bolsonaro ganha protagonismo no papel de vítima e o Governo Federal, sem reação, fica sufocado como figurante.
É uma situação dramática em que os EUA ditam o cronômetro narrativo da política nacional, manipulam a economia e criam os fatos que determinarão novas manchetes na imprensa local. Enquanto isso, o brasileiro assiste a tudo de mãos atadas e cai na jogada estratégica do presidente americano com o inflamar dos ânimos e dos discursos de polarização radicalizados.
O problema é que não se vislumbra grandes possibilidades de alterações nesse cenário. Na prática, não é uma questão de diplomacia ou de negociação econômica. Estamos diante de um grande teatro político e o Brasil virou fantoche deste enredo bem calculado.
*Wilson Pedroso é analista político e consultor eleitoral com MBA nas áreas de Gestão e Marketing.

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