Silvinei Toffanin
Como especialista em contabilidade, gestão empresarial e wealth management, nao poderia me furtar a tecer uma análise pragmática sobre como a sanção tarifária de 50% sobre as importações brasileiras, aplicada pelos Estados Unidos, com início previsto para o dia 7 de agosto de 2025, poderá afetar empresas que operam no Brasil — sejam elas exportadoras ou com cadeias de valor afetadas — e quais estratégias podem mitigar riscos e até virar oportunidades.
Para começar, precisamos lembrar que o Brasil exportou cerca de US$ 41 bilhões aos EUA em 2024 (montante que corresponde a aproximadamente 12% do total das exportações brasileiras). As tarifas médias devem saltar de 1,3%, registradas em 2024, para cerca de 37% em 2025. Estimativas do BTG Pactual indicam uma queda de exportações de US$ 7 bilhões em 2025 (algo aproximado a?0,3% do PIB), chegando a US$ 13 bilhões em 2026 (aproximadamente 0,6% do PIB).
Entre os setores mais afetados, podemos destacar o de alimentos, tendo o café, a carne e algumas frutas podendo sofrer perdas significativas. Outros, até então ameaçados, entraram em uma lista de exceções anunciada recentemente, que contempla suco de laranja, petróleo, aviões, minérios, alumínio, fertilizantes, papel e celulose, entre outros.
Outro aspecto importante relacionado à sanção tarifária está ligado à desvalorização do real e ao aumento do dólar, que podem pressionar custos internos e inflação, forçando o Banco Central a manter a Selic elevada. Em paralelo, a maior oferta doméstica de produtos, causada por adaptação dos exportadores à demanda interna, pode ter um efeito desinflacionário pontual.
O fato é que essa escalada tarifária aumenta incertezas, reduz a confiança de investidores institucionais e pode frear investimentos produtivos e fluxo de capitais. Dessa forma, as empresas brasileiras exportadoras, que têm nos EUA mercados expressivos terão suas margens dramaticamente reduzidas ou perderão contratos. Já as empresas norte-americanas presentes no Brasil devem ver suas cadeias de suprimentos ofertando insumos importados dos EUA – sobretudo eletrônica ou autopeças – muito mais caros, tornando o custo total dos produtos mais elevado. Além disso, o ecommerce brasileiro também deve receber impactos, sobretudo os importadores que operam via dropshipping ou revenda de eletrônicos e gadgets vindos dos EUA e da China, já que terão margens muito mais apertadas e modelos de negócios pressionados.
Entre as estratégias para adaptação a essa nova realidade e mitigação de problemas, devemos pensar, por exemplo, no redirecionamento de exportações para países da União Europeia, da Ásia e da América Latina. As empresas que oferecem itens de maior valor agregado devem buscar fusões, parcerias ou abertura de unidades de fabricação offshore.
Outra saída é olhar mais para as oportunidades existentes no mercado interno brasileiro ou regional. Neste caso, a ideia é aproveitar o enfraquecimento de concorrentes importadores impactados por tarifas, algo que deve ser comum em mercados como o de eletrônicos, autopeças e bens de consumo.
Claro, não estão descartadas as ações jurídicas e diplomáticas. A estratégia brasileira inclui a abertura de recurso na Organização Mundial do Comércio (OMC), aplicação da Lei de Reciprocidade Comercial e possível imposição de tarifas de resposta sobre produtos americanos – inclusive serviços, investimento ou propriedade intelectual. Também deve ser avaliada a possibilidade de uma reestruturação contábil e fiscal por parte das empresas, que devem revisar a classificação tarifária, prazos contratuais, manter compliance regulatório rígido e adotar planejamento tributário estratégico para atenuar impacto na margem líquida.
Por fim, recomendamos que as empresas trabalhem no fortalecimento da governança e de wealth management. As empresas com exposição cambial e trade finance devem reforçar hedge de moedas e prazos de recebíveis, planejar liquidez e reavaliar projeções de fluxo de caixa com cenários "adversos com tarifas" que considerem perdas sustentadas ou realinhamento de clientes.
É inegável que se realmente implementado, o tarifaço dos EUA, previsto para 1º de agosto de 2025, representa um choque macro e setorial relevante para o Brasil. Afinal, afetará diretamente exportadores de valor agregado, do agronegócios e setores industriais. A resposta para empresas exige um tripé estratégico: diversificação de rotas comerciais, adaptação do portfólio para foco nacional, e resposta institucional com embasamento jurídico e diplomático.
Empresas que tiverem ágil adaptação de cadeia, boa gestão de risco e presença robusta nos mercados doméstico ou em outros players internacionais podem atravessar essa crise com resiliência, convertendo risco em oportunidade num cenário de reconfiguração corporativa global. Embora o tarifaço possa retrair voos comerciais e elevar os custos de negócios, ele também pode catalisar transformações estratégicas no Brasil ao forçar grupos empresariais e gestores patrimoniais a repensar estruturas, realocar investimentos e fortalecer resiliência operacional. O futuro das empresas brasileiras perante esse choque dependerá de decisões planejadas, ágeis e bem coordenadas com visão e planejamento contábil e de wealth management.
*Silvinei Toffanin é fundador e sócio da DIRETO Group – empresa de wealth management reconhecida por sua integridade e solidez corporativa, acumuladas em quase 30 anos de mercado, oferecendo serviços que incluem consultoria, contabilidade, controladoria, assessoria fiscal, tributária, trabalhista, legal, societária, BPO Financeiro, planejamento financeiro estratégico, gestão e administração de Family Offices, criação de Offshores, além de soluções de tecnologia, ciência de dados e inteligência - www.diretogroup.com

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