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09 May 2025 07:11

EMB3D: benefícios do framework de segurança industrial OT/ICS

EMB3D: benefícios do framework de segurança industrial OT/ICS

A segurança cibernética industrial evoluiu bastante na última década, impulsionada pelo aumento de ataques a sistemas de controle industrial (ICS/OT) e pela necessidade de proteger infraestruturas críticas. Nos últimos anos, em particular, cibercriminosos têm explorado vulnerabilidades em equipamentos de automação em setores como Alimentos, Química e Saneamento.

Ao mesmo tempo, muitos dos dispositivos embarcados que controlam os processos de linha de produção ainda apresentam lacunas de segurança e falta de proteções adequadas, tornando-se alvos fáceis. A segurança de muitos dispositivos embarcados usados em infraestrutura crítica não está acompanhando o ritmo de evolução das ameaças, e diversos operadores industriais não possuem entendimento suficiente dos seus dispositivos para mitigar riscos?.

A questão é que muitos fabricantes de sistemas e equipamentos de automação industrial estão começando a usar o framework MITRE EMB3D, lançado no final de 2023, e atualizado no ano passado, quando a MITRE – organização não-governamental que desenvolve pesquisas em cibersegurança e cujos frameworks são adotados por empresas em todo o mundo – fez algumas recomendações para mitigação de ameaças a utilização de abordagem de segurança por design.

Evolução dos frameworks de segurança industrial

Historicamente, a proteção de ambientes industriais seguiu padrões e frameworks desenvolvidos para TI, adaptados posteriormente para OT. Inicialmente, normas e boas práticas gerais (como ISO 27001 e o modelo Purdue de segmentação de redes industriais) forneciam alguma orientação, mas frameworks específicos para ameaças em ICS eram limitados. Com o crescimento dos ataques direcionados a ICS, surgiram esforços dedicados para modelar e categorizar essas ameaças, tais como o Microsoft STRIDE, desenvolvido na década de 2000; MITRE ATT&CK for ICS, lançado em 2019, que é uma extensão do framework ATT&CK da MITRE, adaptado para ambientes industriais; e o MITRE CWE (Common Weakness Enumeration), catálogo amplamente usado de fraquezas e vulnerabilidades de software/hardware.

Nos últimos anos, também apareceram padrões setoriais como a série IEC 62443, que define requisitos de segurança para sistemas de automação industrial, e iniciativas governamentais (por exemplo, guias do ICS-CERT/CISA). No entanto, até recentemente faltava um framework unificado que encapsulasse tanto as ameaças específicas a dispositivos industriais embarcados quanto as medidas de defesa correspondentes. Em outras palavras, os fabricantes e operadores tinham que combinar informações de múltiplas fontes – TTPs (via ATT&CK), vulnerabilidades (CWE/CVE) e melhores práticas – para modelar ameaças aos seus equipamentos.

É nesse contexto que o MITRE EMB3D se diferencia, por oferecer uma base de conhecimento centralizada sobre ameaças a dispositivos embarcados?. E um dos motivos para a criação do EMB3D foi a natureza distinta dos ambientes industriais: nesses sistemas, há ameaças focadas em hardware e firmware muito mais presentes do que no mundo de TI tradicional?. 

Dispositivos como controladores lógicos programáveis (CLPs/PLCs), sensores e equipamentos de IoT industrial possuem características ��nicas, que podem introduzir vetores de ataque não cobertos pelos modelos tradicionais. Equipes de segurança de produto vinham realizando threat modeling por conta própria, porém enfrentavam dificuldade em acompanhar a rápida evolução das ameaças e vulnerabilidades na OT.

MITRE EMB3D: adoção no setor industrial brasileiro

Em termos estratégicos, a adoção desse framework pode elevar o patamar de segurança dos produtos e operações, influenciar requisitos de compras e fomentar uma cultura de security by design. No Brasil, onde setores industriais como energia, petróleo e gás e saneamento têm impacto direto na economia e sociedade em caso de qualquer incidente, o framework oferece alguns benefícios – e também desafios na sua implementação.

Do lado dos benefícios estratégicos, destaca-se a possibilidade de padronização e eficiência na gestão de risco cibernético industrial. Empresas de grande porte poderão economizar esforços e custos ao aproveitar um modelo comum em vez de desenvolver métricas e frameworks proprietários para avaliar a segurança de seus ICS?. 

Para empresas menores ou operadores de infraestrutura com recursos limitados, o EMB3D pode funcionar como um "roteiro" simplificado de cibersegurança industrial?. Muitas organizações no setor industrial brasileiro não dispõem de equipes especializadas em segurança de OT. O framework, contudo, organiza o conhecimento essencial de forma acessível: mesmo times enxutos podem consultá-lo para entender quais ameaças priorizar e quais controles mínimos exigir de seus fornecedores. Isso democratiza o acesso à inteligência de ameaças de alto nível – um benefício crucial num país onde há grande disparidade de maturidade cibernética entre empresas de diferentes portes.

Ainda dentro do contexto brasileiro, vale notar que nos últimos anos o país vem fortalecendo suas políticas de segurança cibernética em infraestrutura crítica. Desde a Estratégia Nacional de Cibersegurança de 2020 e uma série de normas setoriais (p.ex. a Resolução Normativa 964/2021 da ANEEL para o setor elétrico), criou-se um arcabouço regulatório abrangente que abrange diferentes setores e estabelece obrigações de proteção de dados e de ativos críticos?. Esse movimento regulatório – aliado à crescente conscientização após incidentes cibernéticos de alto perfil – sinaliza que a segurança de OT/ICS ganhou prioridade na agenda corporativa e governamental no Brasil. 

A adoção de frameworks reconhecidos internacionalmente como o EMB3D pode, portanto, alavancar a postura de segurança das empresas brasileiras e alinhá-las às melhores práticas globais.

Legado e falta de mão de obra são obstáculos

Apesar dos benefícios claros, há desafios práticos para a implementação do EMB3D no setor industrial brasileiro. Um dos principais é a lacuna de capacitação e conhecimento especializado. Segurança de ICS/OT é uma disciplina relativamente nova e complexa; profissionais capazes de conduzir threat modeling aprofundado em sistemas industriais ainda são escassos no mercado. Será necessário investir em treinamento da equipe de engenharia e TI/OT para utilizar o framework de forma eficaz – interpretando suas taxonomias (que hoje estão majoritariamente em inglês) e adaptando-as ao contexto de cada planta ou produto.

Outro desafio está ligado à realidade do parque industrial instalado. Muitas fábricas brasileiras operam com equipamentos legados, alguns com décadas de uso e com limitações severas para atualização de segurança. Aplicar as mitigações sugeridas pelo EMB3D nesses sistemas pode não ser viável imediatamente – por exemplo, implementar autenticação criptográfica em um CLP antigo pode exigir troca de hardware. Nesses casos, o framework ainda é útil ao evidenciar onde estão as exposições, mas as empresas precisarão desenvolver planos graduais de mitigação (como segmentar a rede para proteger um dispositivo legado vulnerável, ou introduzir compensações em camadas externas).

Por fim, há também o aspecto cultural e de conscientização. Tradicionalmente, nas indústrias, as equipes de engenharia de produção e manutenção focavam mais em segurança funcional (safety) do que em segurança cibernética. A introdução de um framework formal de ciberameaças exigirá envolvimento multidisciplinar – engenheiros, times de TI/OT e lideranças – para integrar práticas de segurança ao ciclo de vida industrial.

Preparar a organização para utilizar frameworks como este – por meio de capacitação, investimento e cultura – será um diferencial competitivo e de sustentabilidade no cenário industrial dos próximos anos. Adotar o EMB3D é, portanto, antecipar o futuro da segurança industrial e proteger hoje os pilares que sustentarão a indústria 4.0 amanhã.

Ramon Ribeiro, CTO da Solo Iron.

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