João Edison
Ao questionar uma pessoa sobre a ausência de cuidados sanitários obrigatórios nesta pandemia, obtive a seguinte resposta: “não se preocupe, somos cristãos fervorosos e a sorte não nos abandonará”. A partir daí comecei a perceber quantas pessoas deixam de fazer o que é preciso, o que é certo, para simplesmente contar com a sorte.
A palavra sorte tem origem latina. Acredita-se que ela venha de sors, uma referência dos antigos romanos para as surpresas boas ou ruins. Segundo a mitologia, a palavra sorte também se refere a uma divindade, a chamada filha de Saturno. Muitos entendem o conceito de sorte como silêncio de destino, fatalidade, programação ou desígnio imposto por forças superiores. Significa força invencível a que se atribuem os rumos e os diversos acontecimentos da vida.
Outros acreditam que é quando Deus concede riquezas e bens a alguém e o capacita a desfrutá-lo, a aceitar sua sorte e a ser feliz em seu trabalho. Isso é um presente de Deus.
Em virtude destas crenças, países latinos estão entre os que mais possuem pessoas que apostam em jogos de azar, embora os latino-americanos não entrem nesta lista de maior volume financeiro, os mesmos lideram em números de pessoas, principalmente Brasil e México, que estão nas primeiras colocações, juntamente com os EUA, em números de apostadores.
Segundo pesquisa da revista The Economist, os apostadores brasileiros perderam em loterias e sites de apostas com jogos de azar cerca de 4,1 bilhões no ano de 2014, quando do estudo foi feito, colocando o Brasil entre as dez nações que mais perdem dinheiro.
Apostar tudo na sorte, na maioria das vezes, é descrer da força do trabalho. Embora não tenhamos um estudo preciso no Brasil sobre o assunto, não dá para comparar o número de desempregados nas filas de lotéricas fazendo apostas, principalmente quando acumula prêmio, com o de desempregados nas filas das agências em busca de emprego.
Este conceito de esperar que um dia a sorte resolva os seus problemas é uma aposta também quando tratamos de estudo e educação. É comum as pessoas dissociarem o esforço do aprender dos resultados alcançados. Sem falar que ainda se faz apologia ao saber autodidata, sem o esforço escolar, inclusive de governantes dos mais altos postos.
Os cuidados com a saúde pessoal e coletiva também são um campo farto onde as pessoas não fazem o básico necessário e deixam as soluções por conta das orações ou sorte do acaso. O agravamento de doenças que precisam regrar de comportamentos e alimentação é enorme.
As doenças que exigem cuidados higiênicos ou sanitários é um desespero. Criadouros de mosquitos transmissores de enfermidades e vírus que necessitam de distanciamento ou procedimentos agradecem tanta gente apostando na sorte.
A Covid-19 está aí para mostrar que sempre contamos com a malfadada sorte para resolver nossos problemas. Para muitos não basta acreditar em Deus; tem que exigir dele um milagre por dia.
Não adianta só caçar corrupto ou atribuir culpas somente a governantes. A parte mais frágil é o exercício de cidadania, a falta de cuidado e respeito para com os outros. Isso é o que mais mata. Que sorte é essa que que faz morrer e matar sem culpa?
João Edison é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso.

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