João Edison
O mundo passa por uma transformação enorme e o motivo principal não é a pandemia, embora ela acelere muitas coisas. Mas o fato é que estamos vivendo um apagão de grandes lideranças. Falo daquelas pessoas com capacidade de apontar rumos. Onde elas estão? Se olharmos para o passado, veremos que morreram ou envelheceram o bastante para serem desacreditadas. Isso veio ocorrendo gradualmente após a Segunda Grande Guerra e início deste século e, pelo andar, estamos próximo de zerar. Logo poderemos falar que por aqui tudo é líquido, como bem escreveu o filósofo polonês Zygmunt Bauman.
A modernidade, para Bauman, pode ser definida como um período de liquidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança, em que o período anterior, denominado pelo autor como modernidade sólida, seria “substituído” pela lógica do consumo, do gozo e da artificialidade imediatos.
Se fizermos uma busca rápida, independente do gosto político de cada um, podemos lembrar Mahatma Gandhi, de 1948; Nelson Mandela, de 2013; Madre Teresa De Calcutá, de 1997; Martin Luther King Jr, 1968; Margaret Theatcher, de 2013; Fidel Castro, 2016; Helmut Kohl, 2017; François Mitterrand, 1996; George W. Bush, 2018. Só para citar alguns, mas há tantos outros que ao gosto do leitor pode fazer sua lista. A pergunta é: dos atuais, quem tem o tamanho de algum destes tantos?
Dentre tantos cito esses, porque acredito que um líder é um vendedor de esperança. Como afirmou Napoleão Bonaparte, ou mesmo no texto de Simone de Beauvoir, que afirma que “é horrível assistir à agonia de uma esperança”. Nossos líderes agonizaram e morreram.
No Brasil, até para não fomentar a guerra polarizada, vou evitar citar nomes, mas quem com moral sobrou para ter umas voz moderadora em momentos de crise? É a isso que me refiro. Lideranças que não precisam necessariamente ocupar o poder, mas que sua voz é ouvida. Quando o líquido se fez vida, o sólido se tornou invisível.
Através dos tempos sempre houve pessoas escrevendo sobre o desejo de libertação das relações do poder que emana do Estado. Acontece que culturalmente ainda não estamos evoluídos para isso, mas a necessidade de exercício individual e responsabilidade para com a cidadania chegou. E o acelerar das coisas, internet, rede social, pandemia e ideologização política chegaram espremendo as várias gerações existentes dentro de uma única época. É provável que a história registre este momento como a era dos confrontos individualizados pelo apagão de lideranças.
Qualquer tipo de apagão ataca primeiro o emocional e se reflete nos sentimentos que explode em conflitos, viver isso é doloroso, é existir sem saber exatamente por qual motivo se está lutando, é andar sem saber por onde ir, é perder a direção sem sair do lugar, é não saber onde a luz está. É uma espécie de punição em terra que te deixa desnorteado.
João Edison é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso.

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