Onofre Ribeiro
Finda hoje o longo 2017. Foi um ano emblemático e indicador de que o futuro recomeçou. Findou em agonia as crises ética, política e econômica herdadas das gestões recentes. O principal fato de 2017 no tocante às crises, foi o descolamento da economia. Abandonou seu parceiro siamês, a política, e seguiu carreira solo. Ao seguir seu rumo, a economia abre cenários de investimentos internos e externos. Empobrecido, o Brasil precisa de muitos investimentos pra retomar uma direção que perdeu lá por 2014 em diante.
Em 2017 vimos a política descer ao último dos círculos do Inferno, de Dante. Perda total de credibilidade e a incapacidade de se reinventar. Por que?, perguntaria o leitor. Não é difícil de entender. Ao longo do último século, especialmente depois de 1950, a política brasileira seguiu o perfil do velho Jeca Tatu, personagem crítico do escritor Monteiro Lobato ao retratar o caipira brasileiro descrito no livro “Urupês”, de 1918, nos primeiros anos do século 20. Jeca era uma caboclo preguiçoso, doentio, sem projeto de vida e sem rumo. Fumava o velho cigarro de palha, o conhecido “paieiro”, enchia o mundo de filhos e respondia aos desafios da vida com um repetido “quá”, símbolo da desculpa de que nada valia a pena fazer. As roupas remendadas ao ponto de não se distinguir o tecido original, lembra a política brasileira: remendada, remendada com tecidos de todas as cores. No fim não tem cor nenhuma.
Em 2017 a sociedade teve ímpetos de querer trocar a roupa do Jeca Tatu. Mas não teve energia suficiente e nem ânimo. Gastou a sua energia exatamente como o Jeca Tatu: “quá”!
2017 termina assim: “quá”!
Mas ensinou muito. Os políticos com ou sem mandato foram flagrados nas mais constrangedoras situações. Junto, a magistratura embarcou na mesma onda de deboche. As gestões públicas também desceram ao último degrau da eficiência e da capacidade de gerir. Crises financeiras, greve, gastos astronômicos. O Estado vivendo de si pra si, espoliando nós os Jecas Tatus.
Não creio em mudanças ao longo das próximas gerações. O Jeca Tatu impregnou a todos nós. Leva gerações para depurar a alma coletiva quando isso não acontece em guerras, genocídios ou eventos de sofrimento geral. As crises recentes não foram suficientes. O Jeca Tatu viverá por longos anos apesar de todos nós desfilarmos com nossos smartfones teclando desesperadamente a mediocridade que alimenta o nosso espírito.
O desafio de 2018 não virá nas eleições gerais de outubro. Mas, quem sabe, na nossa capacidade de perceber que não será mais possível reproduzir a pobreza do Jeca Tatu que reside dentro de cada um de nós.
2018 pode ser o ano do começo de nossas vidas cidadãs.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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