Articulistas
08 Nov 2026 08:01

Semaglutida e Tirzepatida - Quando tratar a obesidade também passa a ser uma estratégia de proteção cardiovascular

Semaglutida e Tirzepatida - Quando tratar a obesidade também passa a ser uma estratégia de proteção cardiovascular
Durante muito tempo, os medicamentos para obesidade foram avaliados quase exclusivamente por uma pergunta: quantos quilos o paciente consegue perder?
 
Essa pergunta continua importante. Mas talvez já não seja a principal.
 
A chegada de medicamentos como a semaglutida, agonista do receptor de GLP-1, e a tirzepatida, que atua simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1, mudou a forma como a medicina começa a enxergar o tratamento da obesidade.
 
Hoje, a discussão deixou de ser apenas estética.Estamos falando também de coração, vasos sanguíneos, metabolismo e risco de eventos cardiovasculares.
 
E essa mudança de perspectiva é especialmente importante porque a obesidade não é simplesmente excesso de peso. Ela está relacionada a hipertensão, diabetes, alterações do colesterol, apneia do sono, esteatose hepática, inflamação sistêmica, aterosclerose e insuficiência cardíaca.
 
Em outras palavras: quando tratamos adequadamente a obesidade, não estamos tratando apenas a balança. Estamos tratando uma doença que conversa diretamente com o coração.
 

O estudo que mudou a conversa :

Um dos trabalhos mais importantes nessa área foi o estudo SELECT, que acompanhou mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes.
 
Os participantes que receberam semaglutida 2,4 mg apresentaram uma redução de aproximadamente 20% no risco do conjunto formado por morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal em comparação ao placebo.
 
Esse resultado provocou uma mudança importante de paradigma.
Pela primeira vez, um grande estudo mostrou de maneira robusta que um medicamento utilizado para tratar obesidade poderia também reduzir eventos cardiovasculares maiores em pessoas sem diabetes.
 
Mas existe um detalhe ainda mais interessante.As análises do estudo indicaram que parte do benefício cardiovascular apareceu relativamente cedo e não parece depender exclusivamente da quantidade de peso perdida. As diretrizes norte-americanas de 2026 sobre a síndrome cardiovascular-renal-metabólica destacam justamente que os benefícios cardiovasculares observados com a semaglutida parecem ser, em parte, independentes da magnitude do emagrecimento.
 
Isso não significa que perder peso seja irrelevante. Muito pelo contrário.Significa que talvez estejamos diante de medicamentos capazes de interferir em vários componentes do risco cardiovascular ao mesmo tempo.
 
Além da redução de peso e da circunferência abdominal, esses tratamentos podem melhorar parâmetros metabólicos e estão associados à redução de marcadores de inflamação sistêmica. Ainda há muito a compreender sobre quais mecanismos explicam cada parcela da proteção observada, e seria precipitado atribuir todo o benefício a uma única ação “direta” sobre as artérias.
Mas a mensagem clínica é clara: o efeito parece ir além da balança.

 

E a tirzepatida?

A tirzepatida acrescentou outro capítulo a essa história.No estudo SUMMIT, pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada apresentaram menos eventos de piora da insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular com tirzepatida do que com placebo.
O desfecho ocorreu em 9,9% dos pacientes tratados com tirzepatida contra 15,3% no grupo placebo, além de melhora importante dos sintomas e da qualidade de vida.
 
Já o grande estudo SURPASS-CVOT, publicado posteriormente, avaliou pessoas com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica. A tirzepatida demonstrou segurança cardiovascular, sendo não inferior à dulaglutida para morte cardiovascular, infarto ou AVC. O estudo, entretanto, não demonstrou superioridade estatística nesse desfecho.Essa distinção é importante.
 
Ciência de qualidade também significa saber dizer até onde a evidência permite ir.
Semaglutida e tirzepatida têm dados cardiovasculares extremamente relevantes, mas não devemos simplesmente atribuir a ambas exatamente os mesmos resultados ou indicações.
 

O perigo de reduzir tudo a uma “caneta para emagrecer”:

 
Talvez aqui esteja um dos maiores problemas da popularização dessas medicações.
 
Transformamos uma ferramenta médica extremamente poderosa em um produto de estética rápida.
 
Quando isso acontece, o paciente pode se preocupar apenas com quantos quilos perdeu na primeira semana e deixar em segundo plano perguntas muito mais importantes:
Como está sua pressão arterial?Qual é seu risco de infarto?Como estão colesterol, ApoB e glicemia?Existe doença cardiovascular silenciosa?Há apneia do sono?Existe gordura no fígado?
Como está sua massa muscular?Qual é seu histórico familiar?Há insuficiência cardíaca?
Que medicamentos ele já utiliza?
 
É justamente por isso que o tratamento moderno da obesidade deveria começar com uma avaliação muito mais ampla do que simplesmente peso e IMC.
 

A caneta não substitui a medicina….. Atenção !!!

 
Semaglutida e tirzepatida não são medicamentos isentos de efeitos adversos, não funcionam da mesma maneira para todas as pessoas e não deveriam ser utilizadas simplesmente porque alguém deseja perder alguns quilos rapidamente.
 
Há necessidade de avaliar indicação, contraindicações, composição corporal, alimentação, atividade física, preservação de massa muscular, sintomas gastrointestinais, doenças associadas e outros medicamentos utilizados pelo paciente.E existe um ponto que considero particularmente importante:quanto maior a potência de uma medicação, maior deve ser a qualidade do acompanhamento.
 
O futuro do tratamento da obesidade provavelmente não será escolher entre “emagrecer” ou “proteger o coração”.Será compreender que, em determinados pacientes, essas duas estratégias fazem parte do mesmo tratamento.
 
A obesidade é uma doença crônica, complexa e profundamente relacionada ao risco cardiovascular. Por isso, principalmente em pessoas acima dos 40 anos, com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, histórico familiar ou doença cardiovascular conhecida, o acompanhamento não deveria se limitar à prescrição de uma medicação.
 
É necessário conhecer o coração que existe por trás daquele peso.
Porque talvez a maior mudança trazida pela nova geração de medicamentos contra a obesidade não seja simplesmente fazer pessoas emagrecerem mais.
 
É nos obrigar a parar de tratar obesidade como uma questão estética e começar a tratá-la como aquilo que ela realmente é: uma importante questão de saúde cardiovascular e metabólica.
 
 
Dr. Max Lima - Cardiologista — CRM 6194 | RQE 2308
Atuação em cardiometabolismo, prevenção e longevidade.
 
Voltar Mais de Articulistas

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário