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17 Oct 2026 13:42

Entre as incertezas globais e a coragem de plantar

Entre as incertezas globais e a coragem de plantar

O início da safra de soja 2026/27 em Mato Grosso traz uma boa notícia em meio às incertezas climáticas globais. Após semanas de preocupação com as projeções de um El Niño potencialmente muito forte, as chuvas favoreceram a aceleração do plantio, renovando as expectativas dos agricultores.

Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), até 16 de outubro, 51,86% da área prevista para a soja já havia sido semeada, superando os 43,57% registrados no período equivalente da safra anterior e a média histórica de 43,01%. Em apenas uma semana, o plantio avançou 18,58 pontos percentuais, consolidando um início de safra promissor, apesar das preocupações climáticas.

O cenário nacional também inspira otimismo. Em levantamento divulgado em 15 de outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou uma produção brasileira de 181,6 milhões de toneladas de soja, o que poderá representar um novo recorde.

Entretanto, o bom ritmo do plantio não elimina os riscos. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) ainda identifica distribuição irregular das chuvas e diferenças importantes na disponibilidade de água no solo entre as regiões de Mato Grosso. As projeções climáticas recomendam atenção aos próximos meses, especialmente diante da possibilidade de períodos secos durante o desenvolvimento das lavouras.

Essa combinação de expectativas positivas e riscos persistentes evidencia uma das características mais admiráveis do agricultor: sua capacidade de tomar decisões em condições de profunda incerteza.

Antes mesmo do plantio, o produtor já assumiu compromissos financeiros e comerciais, exposto tanto às condições climáticas quanto às oscilações dos mercados globais. Essa realidade, compartilhada com agricultores dos Estados Unidos, da Argentina e da Austrália, exige planejamento e capacidade de adaptação. Em Mato Grosso, segundo o IMEA, 43,73% da produção estimada de soja já havia sido negociada antecipadamente até setembro, ilustrando essa dinâmica.

Em um mercado global interdependente, o desempenho das lavouras mato-grossenses interessa também aos compradores internacionais, especialmente àqueles que dependem da soja brasileira para abastecer suas cadeias agroindustriais. O que acontece no nosso campo repercute muito além das nossas fronteiras.

O início promissor desta safra não elimina as incertezas, mas oferece uma reflexão importante. Mesmo diante de cenários adversos, o agricultor mato-grossense mostra capacidade de transformar informações e riscos em estratégias para seguir produzindo.

Entre as oscilações do clima global e os desafios cotidianos da produção, destaca-se a resiliência de quem cultiva a terra. O agricultor não controla as chuvas nem os preços internacionais, mas responde aos desafios com conhecimento, investimento, trabalho e perseverança.

A safra está apenas começando. Em um mundo cada vez mais interdependente, produzir alimentos exige não apenas eficiência, mas também capacidade de adaptação às transformações globais e coragem para seguir plantando desenvolvimento e segurança alimentar. 

 

Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa - PhD em Ciências Agrícolas pela Universität Hohenheim, Alemanha, professor da UFMT, especialista em agronegócio e internacionalização.

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