Mordaça de Xangai - Soberania ou submissão tecnológica?
Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5 mil profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.
Ao exaltar o open source como uma "oportunidade histórica", o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os "valores socialistas" do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.
Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.
A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da "segurança nacional" para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de "controle humano" defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.
Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.
A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.
*Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.