• Cuiabá, 22 de Maio - 00:00:00

'O maior risco hoje é a economia brasileira travar com as eleições de 2018', avalia economista


Vinícius Bruno ? Especial para o FocoCidade

Ainda não será o ano dos “sonhos”, todavia, melhor que 2017. Essa é a projeção que predomina entre os economistas em relação a 2018. Por outro lado, a iminência do período eleitoral traz à tona uma série de expectativas, seja para o mercado financeiro, ou para o meio político, e principalmente para a população.

Como a economia é uma ciência, suas previsões são resultado de cálculos, que nem sempre possuem o fator exatidão. A exatidão neste caso é justamente aquela universalidade de atos administrativos vindos das diversas esferas do poder público, que podem dar um resultado positivo ou não para a conta do futuro.

Se por esse prisma, 2018 pode ser um forte ano de transformações, ou de estagnações. A economista Suely da Costa Campos avalia que a marcha da retomada do crescimento no último ano foi a passos lentos, o que não deve ser diferente neste ano, já que o país ainda não conseguiu recuperar credibilidade econômica junto ao mercado internacional, mantendo suas classificações de risco em níveis baixos.

Para Suely, que é doutora em Economia pela Universidade de Barcelona (UB) – Espanha, e professora universitária,  outro fator importante são as reformas. A trabalhista, já concluída demonstra não ser tão resolutiva como vendida e defendida por seus famigerados legisladores. As que estão na iminência de serem realizadas também são acompanhadas pelo crivo da insegurança e da falta de critérios realmente justos aos olhos de grande parte da população, alimentando tão somente aos interesses de uma classe política falida moralmente e sem muita margem intelectual para dar soluções concretas ao país.

Confira a entrevista na íntegra:

Sabe-se que em ano eleitoral é criada toda uma expectativa sobre a mudança de governo, seja em qualquer âmbito da esfera administrativa. Como a economia deve se comportar em 2018, com diversos cenários sendo desenhados na política?

As turbulências enfrentadas pelo Brasil nos últimos anos, tanto no cenário econômico quanto político, deixa a população receosa sobre o que esperar para 2018. Do ponto de vista econômico, tudo indica que a pior fase da tempestade tenha passado. A Selic (taxa básica de juros do país) chegou ao patamar de 14,25% ao ano no fim de 2015 e caiu um pouco para 13,75% a.a. no fim de 2016, e está em 2017 a 7% a.a. - menor patamar histórico desde 1997. Depois de dois anos de recessão, e de 2017 marcado por uma recuperação lenta, a previsão e projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do próprio governo brasileiro é de que a economia brasileira vai crescer com mais força em 2018. No entanto, projeções sobre indicadores como câmbio, juros e inflação divergem em meio às incertezas sobre as eleições e reformas. O Banco Central do Brasil apresentou em 02/01/2018, um leve ajuste para cima nas projeções para o crescimento da economia brasileira para os anos de 2017 e 2018. As estimativas previstas para o Produto Interno Bruto (PIB) para o ano de 2017 deve registrar um crescimento de 1% (esta é a quinta e consecutiva expectativa para este indicador).  Porém, o crescimento da economia brasileira no ano de 2017 será fechado oficialmente apenas em 1º de março de 2018, com a divulgação das Contas Nacionais Trimestrais que é  feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é responsável pelos cálculos. Para 2018, o Banco Central tem a expectativa do PIB para 2,70% (esta é sétima semana consecutiva de aumento do otimismo com relação a este indicador). É pouco provável que a economia brasileira consiga crescer 3% no ano 2018, mesmo que a Selic (taxa básica de juros) chegue em 7% ao ano. O País ainda vive uma situação fiscal delicadíssima. A dívida líquida sobe de forma consistente, saindo de 30,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, para 50,7% do PIB no ano de 2017. A economia ainda necessita de um profundo ajuste fiscal. O rombo nas contas públicas, de R$ 159 bilhões projetados para o ano 2017 e também para 2018, deixa claro que há mudanças estruturais importantes que ainda precisam ser encaminhadas. Também, têm-se reformas importantes que necessitam serem feitas, tais como:  a reforma tributária e a reforma da previdência. O bom desempenho dos setores que puxaram a alta do PIB em 2017 não devem se repetir em 2018, como é o caso da agricultura, que em 2017, contou com o clima muito favorável e safras recordes.  Há muitas incertezas, e o principal gargalo para esse crescimento são os investimentos, que segundo o Banco Central encolheram em 4,6% em 2017 porque o nível de confiança no país ainda não se recuperou. A taxa de investimento correspondeu a 16,1% do PIB, em 2017 abaixo do ano 2016 (16,3%). Para o país crescer em ritmo mais acelerado, é preciso que a taxa de investimento fique acima da média mundial, de 25% do PIB. Segundo os dados oficiais do Banco Central brasileiro, a taxa de investimento em relação ao PIB, que é o principal motor para o crescimento, continuará abaixo de 20% do PIB até 2025. E a taxa de poupança foi de 14,9% para 15,2%, resultados que indicam economia fraca. O Investimento Estrangeiro Direto, ocorreu com ingresso de US$ 80 bilhões em 2017 e para 2018, as estimativas foram mantidas em um ingresso de US$ 80 bilhões. As estimativas para o IPCA, indicador oficial de inflação, em 2017 e 2018 foram mantidas em 2,78% e 3,96% respectivamente. Um dado positivo em 2017 refere-se ao consumo das famílias, que cresceu 1,2% no terceiro trimestre, em relação ao anterior, e à Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), um indicador de investimentos, que teve alta de 1,6%. Entre os setores, a agropecuária caiu 3%, a indústria subiu 0,8% (1,4% na indústria de transformação) e os serviços registraram crescimento de 0,6%, sendo 1,6% no segmento de comércio.  Na comparação com o terceiro trimestre do ano passado (1,4%), a agropecuária colaborou com expansão de 9,1%. Este resultado pode ser explicado, principalmente, pelo desempenho de alguns produtos da lavoura que possuem safra relevante no terceiro trimestre e pela produtividade, visível na estimativa de variação da quantidade produzida em relação à área plantada, diz o IBGE. A indústria variou 0,4%, subindo 2,4% no setor de transformação, com destaque para produção de alimentos, veículos automotores e equipamentos de informática, além de máquinas e equipamentos, entre outros. O setor de serviços subiu 1%, com destaque para o comércio (3,8%). Ainda nessa comparação, o consumo das famílias, cresceu 2,2%.  Na soma dos quatro últimos trimestres (-0,2%), a agropecuária novamente se destaca, com 11,6%. Indústria (-1,4%, sendo -0,6% no setor de transformação e 6,6% na construção) e serviços (-0,8%) caem, assim como o consumo das famílias (-0,5%), do governo (-0,4%) e a FBCF (-4,2%). O maior risco hoje é a economia brasileira travar com as eleições de 2018. E este cenário, tem muito a ver também com a conjuntura internacional. A economia global, segundo as agências internacionais tais como FMI e Banco Mundial, deve voltar a crescer em torno de 3,5%, um avanço sobre os patamares vistos desde a crise de 2008, apesar de ainda estar muito abaixo dos níveis em anos anteriores. A vantagem é que é homogênea a distribuição do crescimento entre as principais economias globais, ainda que as economias desenvolvidas estejam crescendo menos do que China e Índia. Em 2018 também existem ameaças geopolíticas como a crescente tensão entre a Coreia do Norte e as outras potências, além de um calendário eleitoral recheado de datas (entre as mais importantes estão as eleições no Brasil, no México e na Colômbia, além das legislativas nos EUA), e renegociação do Tratado de Livre Comércio na América do Norte (Nafta), o processo para selar a saída do Reino Unido da União Europeia e a formação de Governo na Alemanha.

O crédito no Brasil deve apresentar em 2018, a primeira expansão real desde 2014, deixando para trás um período de retração.

 

Os ajustes realizados pela equipe econômica do presidente Michel Temer foram ao encontro do anseio dos setores de produção econômica, principalmente o que se diz respeito à reforma trabalhista e a iminente reforma previdenciária. Essas mudanças são suficientes para garantir a criação de empregos sólidos e rentáveis?

Acredito que não. Estudo publicado pela  Organização Internacional do Trabalho (OIT), Drivers and effects of labour market reforms: Evidence from a novel policy compendium, produzido pelos pesquisadores Dragos Adascalieti e Clemente Pignatti Morano, demonstra as reformas legislativas laborais e de mercado de trabalho que foram realizadas em 110 países no período de 2008 a 2014.   O fundamento comum observado no estudo realizado, é que as diversas iniciativas de reformas, realizadas no contexto de grave crise e estagnação econômica com desemprego nos países, tiveram como objetivo aumentar a competitividade das economias (leia-se reduzir o custo do trabalho) e criar postos de trabalho (leia-se flexibilizar contratos de trabalho). Observaram-se, ações: a) para reformar a legislação do mercado de trabalho, especialmente no que se refere aos contratos permanentes; e, b) reestruturação das instituições de negociação coletiva (processos de negociação, legislação, sindicatos). As duas dimensões estão presentes, com maior ou menor intensidade, na maioria dos projetos de reformas implementados nos 110 países analisados. Um olhar mais amplo mostra que a maioria das reformas nos países diminuiu o nível de regulamentação existente. Foram observadas e analisadas 642 mudanças nos sistemas laborais nos 110 países. Em 55% dos casos, as reformas visaram a reduzir a proteção ao emprego, atingindo toda a população, tinham caráter definitivo, produzindo uma mudança de longo prazo na regulamentação do mercado de trabalho. Vale prestar muita atenção ao fato do estudo indicar que mudanças como essas na legislação trabalhista, realizadas em período de crise econômica, e que visam a reduzir a proteção ao trabalhador, podem aumentar a taxa de desemprego no curto prazo. Esses resultados são corroborados por outros estudos produzidos pelo FMI e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2016. Do total de reformas, destacam-se aquelas que diminuem os níveis de regulação, das quais: 74% trataram de jornada de trabalho, 65% de contratos de trabalho temporário, 62% de demissões coletivas, 59% de contratos permanentes, 46% de negociações coletivas e 28% de outras formas de emprego. O Brasil se integra a este movimento de desregulação do mercado de trabalho, flexibilizando as formas de contratação com um “menu” muito variado de possibilidades de ocupações precárias que se tornam legais. No Brasil o desemprego, ainda continua em patamar elevado e preocupante, vem caindo aos poucos. A taxa de desemprego chegou a subir de 6,8% no começo de 2015; e, ao ápice de 13,7% em março de 2017, mas dali em diante voltou a fazer uma trajetória de queda. Na última medição, encerrada em outubro de 2017, ficou no patamar de 12,2%, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Apesar de a taxa de desemprego ter começado a cair em 2017, muitos brasileiros ainda não sentem uma melhora efetiva no mercado de trabalho. Uma das razões é que, durante o ano, a grande maioria dos postos de trabalho criados no Brasil foi composta de vagas informais. A tendência para 2018 é que se passe a ver o emprego formal crescendo com mais força. No entanto, para 2018, observa-se que a taxa de desemprego deve ser analisada com maior cuidado, porque com a recessão de anos anteriores muitas pessoas haviam desistido de procurar emprego e, portanto, saíram das estatísticas sobre desempregados. Estas pessoas desistiram de procurar emprego, porém estavam neste período, estudando, ou mesmo, fora do mercado de trabalho. Com o retorno do crescimento econômico as pessoas voltam a buscar trabalho, porém, a oferta por trabalho não cresce no mesmo ritmo da procura por trabalho, pois o número de pessoas que procuram trabalho é maior. Ao voltarem a buscar trabalho, estas pessoas entram para as estatísticas de desempregados, impactando o índice de desocupação. Tendo esta consideração sobre os dados, tem-se a expectativas de que a taxa de desemprego termine 2018 em 12,4%, índice maior que o registrado nos últimos meses, este aumento deve-se ao número maior de pessoas que devem voltar a procurar trabalho em 2018. Acredito que é necessário que na economia brasileira se invista mais em indústria, e em tecnologia para que se aumente de forma efetiva o número de vagas e postos de trabalho que vão proporcionar os melhores salários. A  flexibilização do mercado de trabalho é um avanço, porém, desde que acompanhada de outros elementos que melhorem o ambiente de negócios, tais como: uma reforma tributária, investimentos em infraestrutura, redução da burocracia, incentivo a inovações e abertura comercial que integre a economia do país com as grandes estruturas produtivas do mundo.

Há muitas incertezas, e o principal gargalo para esse crescimento são os investimentos, que segundo o Banco Central encolheu 4,6% em 2017 porque o nível de confiança no país ainda não se recuperou.

Se por um lado o empregador busca segurança jurídica para manter a empresa em atividade, do outro lado, o trabalhador busca rendimentos financeiros dignos com um estilo de vida favorável. Quais fatores são fundamentais para manter o equilíbrio entre estas duas partes importantes para o mercado de trabalho?

O debate sobre os agregados macroeconômicos remonta às origens da economia política. No entanto, a macroeconomia enquanto ramo específico da ciência econômica surge com a contribuição original de John Maynard Keynes (1883-1946) economista britânico, cujas ideias mudaram fundamentalmente a teoria e prática da macroeconomia, bem como as políticas econômicas instituídas pelos governos. Escrevendo em plena crise dos anos 1930, Keynes,  buscava compreender as causas do desemprego que assolava os países centrais em seu livro: “Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro” de 1936. O objetivo específico do livro era determinar variáveis que o governo pode controlar, de modo a reduzir o desemprego. Segundo Keynes as expectativas de longo prazo e de curto prazo determinam as decisões de investimento e de produção, que explicam o nível de emprego. Keynes mostra através do efeito multiplicador que um aumento do investimento resulta em um aumento do consumo e da renda, produzindo como resíduo um aumento correspondente da poupança. Deste modo, as decisões da taxa de juros afetam as decisões de investimento que determinam as expectativas de demanda agregada, que determinam as decisões de produção, que determinam o nível de emprego. Partindo deste princípio é fundamental que o governo brasileiro mantenha a queda da taxa de juros e busque um nível de investimento que possa reduzir o desemprego. Apesar da taxa de desemprego ter começado a cair em 2017 no Brasil, muitos brasileiros ainda não sentem uma melhora efetiva no mercado de trabalho. Uma das razões é que durante o ano de 2017, a grande maioria dos postos de trabalho criados no Brasil foi composta de vagas informais segundo o IBGE. Analisando o caso brasileiro ao verificar as etapas da consolidação de direitos trabalhistas, que buscaram resguardar o empregado para que não caísse na precarização, mesmo que muitos não conseguissem fugir dessa realidade, mantendo-se na informalidade, ou compondo os elevados percentuais da taxa de desemprego. A afirmação da “precarização” das relações de trabalho como tendência, abriu espaço para as discussões sobre flexibilização das leis trabalhistas, consideradas pelos executores da “cartilha do ideário econômico neoliberal”  como um impedimento à competitividade e ao crescimento econômico. Nesse sentido, o que se encontra, no Brasil, atualmente, não difere muito da realidade mundial, e  em muitos  países, como é o caso da França, que desde 1982 já havia iniciado a flexibilização de seus direitos trabalhistas, assim como na Itália e na Argentina, países que buscaram na flexibilização a resposta ao desemprego, mas não alcançaram sucesso, ou seja, o desemprego e a crescente informalidade não foram extirpados. Os Estados Unidos, no entanto, diferentemente dos países europeus, não implantaram uma política trabalhista, ou seja, sequer aderiram às convenções da OIT e nem mesmo por isso, deixaram de vislumbrar o crescente desemprego. Como se pode verificar a questão é de ordem socioeconômica, não apenas legal. O que resolverá a questão do desemprego no Brasil e no mundo não é apenas a reforma das leis trabalhistas que flexibilizam os direitos dos trabalhadores e sim, uma atitude comprometida dos governos com a política macroeconômica de seus países visando o bem estar da população como um todo.

Inflação baixa, mas a volatilidade dos juros pelas financeiras ainda é um fator decisivo  quando o assunto é disponibilidade de crédito. A senhora já tem notado um comportamento flexível nos bancos para atender a demanda por crédito?

Depois de dois anos de recessão e um 2017 marcado por recuperação lenta, as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do próprio governo federal, é de que a economia brasileira vai crescer com mais força em 2018. Sobre o que vai puxar esse crescimento mais expressivo em 2018, grande parte disso se deve ao ciclo de corte de juros, iniciado pelo Banco Central ainda em 2016. O processo de redução da taxa básica de juros foi significativo, e está começando a afetar a economia agora. Ocorre que o tempo da redução da taxa de juros feita pelo governo e a que ocorre de fato no mercado há uma defasagem de 6 a 9 meses.  O investimento tende a aumentar, mesmo em setores como a construção civil, que ainda não se recuperou da crise e segurou a expansão da economia em 2017. Com a baixa da taxa de juros a propensão a investir é maior. No entanto, projeções sobre indicadores como câmbio, juros e inflação geram expectativas em meio às incertezas sobre as eleições e as reformas, retraindo o investimento. O crédito no Brasil deve apresentar em 2018, a primeira expansão real desde 2014, deixando para trás um período de retração. Mas a recuperação será gradual e diretamente ligada aos setores que vêm puxando a melhora recente da economia. Enquanto as operações com pessoas físicas ensaiam uma volta à normalidade com aumento do consumo. O crédito bancário para empresas, em especial as grandes, ainda caminha lentamente. Mais conservador que a média do mercado, o Banco Central brasileiro, prevê crescimento nominal de 3% para o estoque de crédito no Brasil em 2018, abaixo da variação  de 3,96% do IPCA prevista. A expectativa do Banco Central coloca uma projeção de recuo de 2% no volume de operações com empresas, e projeta um saldo de financiamento às famílias que deverá crescer em 7%.  O mercado brasileiro de crédito fechou em novembro de 2017 em R$ 3,063 trilhões em estoque, queda de 1,3% em um ano. Segundo o Banco Central o último ano de crescimento nominal dos financiamentos foi em 2015, mas a inflação de 10,67% no período levou a uma queda do saldo em termos reais. A recuperação iniciou em 2017, mas em ritmo mais lento que o esperado, principalmente em relação às empresas. As famílias foram ajudadas pela queda da inflação e redução do desemprego, ampliando seu poder de compra. As pequenas empresas têm demandado crédito bancário, mas as altas taxas de juros e garantias solicitadas pelas instituições financeiras acabam por resultar em desembolsos menores por parte dos bancos.

O grande período de teste sobre a dinâmica do câmbio no Brasil será no  2º trimestre de 2018, quando estiverem definidos os candidatos (à presidência) e conhecido se a reforma da Previdência vai ser aprovada ou não.

Especialistas apontam que a taxa básica de juros (Selic) deverá se situar abaixo de 7% em 2018. O que isso pode significar de positivo para a população, seja a de empregados, quanto à de empregadores?

Nós economistas acompanhamos as indicações do Banco Central em relação ao rumo da taxa Selic, que terminou o ano de 2017 em 7%. A grande dúvida é sobre o patamar que deverá ser fixado para manter a inflação na meta de 3,96% em 2018. A dúvida sobre a taxa de juros se deve às fortes oscilações esperadas para o dólar em 2018 e devido à política monetária que o governo deve adotar utilizando a taxa de juros como meio de conter a inflação e mantê-la segundo a meta estabelecida pelo Banco Central brasileiro para 2018 em 3,96%. Como vários itens vendidos no Brasil são importados ou são feitos com componentes importados, uma eventual alta do dólar poderá pressionar a inflação. Um dos principais instrumentos do Banco Central para segurar a inflação é a alta dos juros. Há possibilidade de alta na Selic em 2018, dependendo do cenário eleitoral. Uma taxa de juros menor na macroeconomia implica em maior investimento direto das empresas e o maior investimento pode ampliar a oferta de empregos, criando renda e ampliando a capacidade das famílias em consumir.

Outra projeção é que o PIB Brasil cresça acima de 2,5% este ano. A senhora acredita que essa premissa se realize? Quais setores serão fundamentais para garantir esse crescimento?

Para 2018, o Banco Central têm a expectativa do PIB para 2,70% - esta é sétima semana consecutiva de aumento do otimismo com relação a este indicador. É pouco provável que a economia brasileira consiga crescer 3% no ano 2018, mesmo que a Selic (taxa básica de juros) chegue em 7% ao ano. O País ainda vive uma situação fiscal delicadíssima. O bom desempenho dos setores que puxaram a alta do PIB em 2017 não devem se repetir em 2018, como é o caso da agricultura, que em 2017, contou com o clima muito favorável e safras recordes.  Segundo o IBGE o avanço do PIB em 2017 ocorreu sobre uma base bastante deprimida está-se no mesmo patamar do final de 2010.  A agropecuária registrou a maior expansão em mais de 20 anos e foi destaque entre os setores calculados pelo IBGE, com salto de 13,4% em relação ao trimestre imediatamente anterior. A safra recorde de grãos ajudou a impulsionar o resultado. Foi o maior crescimento desde o 4º trimestre de 1996. Apesar de a agropecuária pesar 5,5% no valor adicionado da economia (participação do setor no cálculo do PIB), os prognósticos de recorde de safra puxaram todas as taxas para cima. Segundo o IBGE, soja, milho, arroz e fumo respondem juntos, por cerca de 50% do peso da agropecuária do país. Os quatro estiveram com uma estimativa muito boa em 2017, principalmente o milho. Depois da agropecuária, o setor com o melhor desempenho foi o da produção e distribuição de eletricidade, gás, água e esgoto, com expansão de 3,3%. O nível de investimento, que caiu ao menor patamar da série histórica medida pelo IBGE é afetado pela ociosidade da indústria e pela incerteza política. A capacidade de investimento não existe, porque o retorno está muito fraco e não há crédito subsidiado porque o governo não pode dar dinheiro para o setor privado. Segundo o IBGE a construção civil, abalada por uma forte queda nos trimestres anteriores, voltou a subir nos três primeiros meses do ano de 2017. O crescimento foi de 0,5% frente ao período anterior, mas houve queda de 6,3% frente ao ano anterior. Apesar da alta, a construção segue com taxas muito negativas tanto no setor imobiliário quanto de infraestrutura. As incertezas trazidas pela crise política podem levar os empresários a repensar ainda mais os investimentos, que caíram à menor taxa da série do IBGE. Há muitas incertezas, e o principal gargalo para esse crescimento são os investimentos, que segundo o Banco Central encolheu 4,6% em 2017 porque o nível de confiança no país ainda não se recuperou. A taxa de investimento correspondeu a 16,1% do PIB, em 2017 abaixo do ano 2016 (16,3%). Para o país crescer em ritmo mais acelerado, é preciso que a taxa de investimento fique acima da média mundial, de 25% do PIB. Segundo os dados oficiais do Banco Central brasileiro, a taxa de investimento em relação ao PIB, que é o principal motor para o crescimento, continuará abaixo de 20% do PIB até 2025. E a taxa de poupança foi de 14,9% para 15,2%, resultados que indicam economia fraca.  A vantagem é que é homogênea a distribuição do crescimento entre as principais economias globais, ainda que as economias desenvolvidas estejam crescendo menos do que China e Índia. Outro fator importante a considerar é o que diz o economista francês Thomas Piketty autor do livro “O capital no século XXI”  que  afirma que o Brasil não deverá crescer de forma sustentável se não reduzir sua desigualdade, e a extrema concentração de renda.

Os últimos três anos de crise econômica, puxada pela crise na política brasileira, trouxeram à tona a fragilidade do poder público em ter que administrar grandes áreas de atuação, principalmente a saúde, que demonstra ser a mais onerosa entre todas. É possível pensar em um modelo de administração pública mais econômica e eficaz? Como seria esse modelo?

Alguns dos sinais de melhora da economia vieram de um compromisso com o equilíbrio fiscal. A questão, é que a população brasileira já está no limite do que pode suportar dos ajustes. O que vejo é que os brasileiros não vão querer insistir muito mais em ajustes de ordem de política fiscal (como aumento de impostos). Vivemos um ambiente de muito estresse do tecido social e econômico. Tem-se que buscar mais qualidade e homogeneidade dos serviços públicos. Para que se logrem esses objetivos, sabemos que o Estado brasileiro precisará manter os níveis crescentes de investimento em suas políticas sociais, mesmo face aos níveis mais tímidos de crescimento econômico. Há que se buscar também maior integração entre os serviços públicos e privados. As áreas de políticas sociais públicas carecem de maior integração, e transversalidade. Outro problema importante a ser enfrentado, é a corrupção que reduz investimentos nos serviços essenciais de educação, saúde e segurança e contribui para o desemprego e para a diminuição da renda dos brasileiros. Além disso, a má conduta no mundo corporativo afeta a economia como um todo, reduzindo a produtividade e a competitividade do país,  ao prejudicar o dia a dia das empresas e famílias que não compactuam com as práticas ilícitas.

Tendo em vista as dificuldades passadas no ápice da crise, 2018 ainda não terá fôlego para ser um ano maravilhoso, mas tudo indica que será melhor que 2017.

Quanto ao fator investimento. O que se pode esperar de 2018 no quesito investimentos? As empresas voltarão a investir? E os trabalhadores como poderão investir?

Nós economistas somos unânimes ao apontar 2018 como um ano de instabilidade para o mercado financeiro, diante do cenário eleitoral incerto. Avalia-se que, até o final de 2018, a tendência é que o dólar se estabilize, mas não há consenso sobre o patamar em que a moeda irá se firmar em relação ao real. O FED (Federal Reserve, Banco Central Norte Americano) já informou que vai subir os juros no ano de 2018 e isso vai impactar o dólar frente a várias moedas. Isto porque, com taxas mais altas, os Estados Unidos se tornariam mais atraentes para investidores, que podem retirar seus recursos aplicados em outros mercados, como no Brasil, para migrar para o país norte-americano. Isso motivaria uma tendência de alta do dólar sobre outras moedas. O grande período de teste sobre a dinâmica do câmbio no Brasil será no  2º trimestre de 2018, quando estiverem definidos os candidatos (à presidência) e conhecido se a reforma da Previdência vai ser aprovada ou não. Há muitas incertezas, e o principal gargalo para esse crescimento são os investimentos, que segundo o Banco Central encolheu 4,6% em 2017 porque o nível de confiança no país ainda não se recuperou. A taxa de investimento correspondeu a 16,1% do PIB, em 2017 abaixo do ano 2016 (16,3%). Para o país crescer em ritmo mais acelerado, é preciso que a taxa de investimento fique acima da média mundial, de 25% do PIB. Por fim, do ponto de vista de investimentos financeiros, ainda é válido continuar aplicando em instrumentos de renda fixa, uma vez que os juros reais continuam sendo bons e garantem uma rentabilidade interessante ao investidor, mesmo com a Selic em um patamar baixo. Tendo em vista as dificuldades passadas no ápice da crise, 2018 ainda não terá fôlego para ser um ano maravilhoso, mas tudo indica que será melhor que 2017.

Retomando ao tema da administração pública, qual seria o melhor cenário político para garantir um ambiente negocial favorável no Brasil nos próximos anos? A ascensão de um governo de esquerda ou de direita, conservador ou liberal, faria diferença para a conjuntura econômica?

A recuperação econômica de 2017 pode ter um efeito eleitoral em 2018 menor que o esperado pelos candidatos do autodenominado “centro democrático”. Os candidatos de oposição enfatizarão problemas econômicos, lacunas e insatisfações, apontando também o agravamento de questões sociais. Os problemas estruturais do País terão de vir à tona e devem ser discutidos seriamente pelos candidatos em 2018. Acredito que o próximo presidente terá que conseguir transitar no presidencialismo de coalizão, e que seja capaz de agregar maiorias significativas no Congresso. Há possibilidade de irem para o segundo turno um candidato de esquerda e um de extrema direita. Outra questão chave na eleição de 2018 é a presença ou não do ex-presidente Lula. Pelas pesquisas apresentadas até o momento, se ele estiver na eleição, estará no segundo turno.  O mercado busca como cenário a eleição de um candidato de centro-direita que vai de encontro à economia liberal de livre mercado. Caso a percepção do mercado, ao longo do processo eleitoral, for à de que o resultado será diferente, 2018 pode ser um ano de grande volatilidade do dólar, o que traz dificuldades na gestão macroeconômica, investimento menor, e PIB menor. Porém, a economia deve se estabilizar à medida em que o novo governo adotar políticas econômicas adequadas que amplie o nível  de confiança.

Muito se prega a necessidade de reformas no âmbito político para garantir melhorias para o país, todavia, sabe-se que o Custo Brasil assim como o Risco Brasil continuam elevados. Sabendo que uma reforma administrativa profunda é praticamente utópica, seria possível que tal “revolução” pudesse ser protagonizada pelas forças econômicas? De que forma?

Na economia trabalhamos com indicadores e cenário econômico local e global que estão condicionados por séries históricas e expectativas racionais. Existem temas em cenário local e global que pautam as agendas de todos os países desenvolvidos, e dos que estão em processo de desenvolvimento, como o Brasil. A capacidade do país, em fortalecer as instituições, com maior transparência, ética e em combater de forma séria a corrupção. O combate à corrupção está na agenda local e internacional e, é fundamental para percorrer o caminho do desenvolvimento com sustentabilidade. A corrupção tem um impacto devastador em todo o mundo. O Banco Mundial estima que a cada ano seja perdido entre 20 a 41 milhões de dólares em  países em desenvolvimento devido à corrupção e suborno, ampliando ainda mais os custos e o risco em investir no país.  Permitir à geração atual e futura as melhores oportunidades nas dimensões do desenvolvimento sustentável: econômica, social, ambiental, cultural e institucional. Garantir a equidade entre todas estas dimensões é garantir a capacidade ética da nação em permitir que toda a sociedade internalize os custos e benefícios da riqueza gerada em nosso país. Possibilitando assim, que tenhamos uma sociedade mais justa e menos desigual, esta seria a verdadeira revolução e desafio para o Brasil.




6 Comentários

  • Maria Clara disse:
    22 de Janeiro

    É bom ver uma profissional em Economia falando de Economia, com clareza, discernimento e com dados. Pouco se vê isto aqui em Mato Grosso.

  • Guilherme Augusto disse:
    22 de Janeiro

    Parabéns Dra. SUELY Costa. Clara, objetiva e coerente. É um orgulho para os Matogrossenses ter uma Doutora em Economia formada numa das mais renomadas universidades do mundo (Universidade de Barcelona).

  • Angélica disse:
    22 de Janeiro

    Parabéns Dra. Suely. Uma aula de economia.

  • Otávio Augusto disse:
    21 de Janeiro

    Muito boa entrevista. Que o tenhamos êxito, e a politica não atrapalhe a economia. Parabéns

  • Rita de Cassia Gonçalves Fiori disse:
    21 de Janeiro

    Entrevista elucidativa, clara e objetiva! Dra. Suely parabéns!

  • Guilherme disse:
    21 de Janeiro

    Gostei muito!


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