A fraude continua depois que os pagamentos param
Quando uma fraude de investimento começa a desmoronar, um comportamento costuma causar perplexidade: os pagamentos atrasam, os resgates deixam de ocorrer e surgem reclamações e investigações. Ainda assim, muitos investidores continuam acreditando que tudo será resolvido.
Esse comportamento tem motivo. A razão é que a vítima não precisa apenas aceitar que perdeu dinheiro. Precisa admitir que toda uma realidade na qual acreditou durante meses ou anos talvez nunca tenha existido.
É preciso compreender que fraudes sofisticadas no mercado de investimentos não vendem apenas uma aplicação. Vendem uma narrativa: uma oportunidade exclusiva, uma tecnologia revolucionária, um ativo extraordinário ou uma rentabilidade apresentada como segura.
Quando surgem os primeiros sinais de colapso, aparecem explicações capazes de preservar essa narrativa: problema de liquidez, bloqueio bancário, auditoria, entrada de um novo investidor, venda de ativos ou uma nova data para pagamento.
É nesse estágio que surge o que chamo de administração da esperança.
A promessa muda de forma. Antes, prometia-se rentabilidade. Depois, promete-se recuperação. A vítima continua ligada à estrutura, agora não pela expectativa de lucro, mas pela expectativa de receber de volta.
Pagamentos seletivos e acordos individuais reforçam esse mecanismo. Se alguns investidores recebem, muitos outros passam a acreditar que basta esperar. E tempo é um dos ativos mais importantes de uma fraude em colapso: tempo para movimentar patrimônio, reorganizar ativos e criar novas justificativas.
Surge, então, um paradoxo importante. O momento em que juridicamente seria mais relevante agir pode ser exatamente aquele em que psicologicamente a vítima ainda não está preparada para admitir que precisa agir.
Fraudes de investimento precisam de dinheiro para crescer. Quando começam a ruir, passam a precisar de outra coisa: tempo.
E muitas vezes é a própria dificuldade da vítima em aceitar que foi enganada que fornece esse tempo. O tempo, então, se transforma em mais um ativo que alimenta e retroalimenta esse tipo de fraude.
*Jorge Calazans é advogado especializado na defesa de investidores vítimas de fraude, sócio do escritório Calazans e Vieira Dias Advogados e autor do livro A Arquitetura da Fraude em Investimentos — Método Estrutural: Anatomia, Identificação e Desmonte, publicado pela Editora JusPodivm.