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17 Aug 2026 09:58

Não escolha um deputado; escolha um representante

Não escolha um deputado; escolha um representante
A campanha eleitoral está começando e, como acontece a cada quatro anos, veremos uma enxurrada de vídeos, jingles, promessas, debates e frases de efeito. Haverá candidatos para todos os gostos: os mais engraçados, os mais barulhentos, os mais polêmicos e os mais presentes nas redes sociais. O risco é que, no meio desse espetáculo, o eleitor esqueça uma pergunta essencial: estou escolhendo um deputado ou apenas alguém de quem gosto?

Essa talvez seja uma das maiores fragilidades da democracia brasileira. Confundimos representação com identificação. Votamos em quem fala como nós, se veste como nós, torce pelo mesmo time ou reforça nossas convicções. Mas representar uma sociedade exige muito mais do que agradar um determinado grupo. Exige preparo, equilíbrio, capacidade de diálogo e compromisso com o interesse público, mesmo quando isso significa tomar decisões impopulares.

Imagine um empresário escolhendo o diretor financeiro de sua empresa apenas porque ele faz discursos empolgantes. Ou uma família contratando um médico pelo número de seguidores que possui na internet. Parece absurdo, porque sabemos que funções importantes exigem competência, experiência e responsabilidade. Na política, porém, frequentemente fazemos exatamente o contrário: entregamos um mandato a pessoas que conhecemos apenas por vídeos de poucos segundos ou por frases que confirmam aquilo que já pensamos.

Uma pesquisa Datafolha divulgada recentemente revelou um dado preocupante: 67% dos brasileiros não se lembram em quem votaram para deputado federal na última eleição, e 68% não conseguem citar o nome de um deputado federal atualmente em exercício. Isso mostra que muitos eleitores tratam o voto para o Legislativo como um detalhe da eleição, quando, na verdade, é justamente no Parlamento que são discutidas e aprovadas as leis que moldam a vida do país.

Ao longo dos últimos meses, escrevi nesta coluna sobre planejamento, mobilidade, qualidade dos espaços públicos, excesso de burocracia e respeito ao cidadão. Nenhum desses temas depende apenas do governador ou do presidente. Todos passam, inevitavelmente, pelo trabalho de deputados que elaboram leis, fiscalizam o Executivo, aprovam orçamentos e definem prioridades. Um parlamentar despreparado custa caro à sociedade, mesmo que nunca apareça em um escândalo.

Talvez o eleitor esteja fazendo a pergunta errada. Em vez de questionar se o candidato pensa exatamente como ele, deveria perguntar se aquela pessoa possui equilíbrio para representar uma sociedade formada por milhões de brasileiros diferentes entre si. Representar não é ecoar paixões momentâneas nem alimentar divisões. Representar é estudar os problemas, ouvir posições divergentes, construir soluções e decidir com responsabilidade.

Vivemos uma época em que a política corre o risco de se transformar em entretenimento. Há candidatos que parecem disputar audiência, e não a confiança do eleitor. Mas mandatos não são prêmios de popularidade. São responsabilidades públicas. A urna não foi criada para eleger influenciadores, mas representantes.

Quando escolhemos um deputado, entregamos a ele uma procuração para falar e votar em nosso nome durante quatro anos. Uma procuração dessa importância não pode ser concedida por impulso, simpatia ou algoritmo. Ela deve ser resultado de reflexão, porque as campanhas terminam em outubro, mas as consequências do voto permanecem durante todo o mandato.

Nesta eleição, portanto, faça um favor a si mesmo e à democracia. Não escolha apenas um deputado. Escolha alguém que tenha capacidade de representar você, inclusive nos momentos em que a decisão mais correta não for a mais popular. É assim que se fortalecem as instituições, amadurece a política e se constrói um país melhor.

*Rodrigo Arruda e Sá é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.*
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