Neftalí Reyes
Em 12 de julho de 1904, numa casa modesta de Parral, no sul do Chile, nascia Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. A mãe, dona Rosa, morreu poucas semanas depois do parto, vítima de tuberculose. O pai, ferroviário, mal sabia ler. Ninguém apostaria naquele menino magro e silencioso. Décadas depois, ele seria conhecido como Pablo Neruda, um dos maiores poetas do século XX.
A infância foi dura. Aos 9 anos, órfão de mãe, mudou-se com o pai para Temuco, cidade chuvosa de fronteiras e florestas. Foi lá, entre trilhos de trem e araucárias, que o menino descobriu a palavra. Escrevia versos escondido, com medo do pai, que considerava poesia coisa de preguiçoso. A madrasta, dona Trinidad, foi sua primeira e doce cúmplice. Aos 16 anos, adotou o pseudônimo "Neruda", inspirado no poeta tcheco Jan Neruda — um disfarce para publicar sem reprovação familiar.
Em 1924, aos 20 anos, publicou "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção de Desespero". O livro vendeu milhares de exemplares e transformou-o em fenômeno. Eram versos crus, sensuais, desesperados, escritos por um jovem que ainda não havia amado de verdade — ou que já amava demais. No poema XIV, eternizou o verso: "Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras." O livro jamais deixou de ser reimpresso.
Neruda não foi apenas poeta do amor. Em "Residência na Terra", mergulhou no desespero e na solidão do homem moderno. Em "Canto Geral", épico de mais de 15 mil versos, reescreveu a história da América Latina pela ótica dos vencidos. A poesia tornou-se sua arma. E ele a empunhou com paixão. Comunista convicto, percorreu Ásia, Europa e América Latina como cônsul e exilado. Viveu solitário em Rangum, Colombo e Batávia, entre calor, solidão e estranheza. Na Espanha, viveu a Guerra Civil e perdeu o amigo Federico García Lorca, assassinado por fascistas. De luto, escreveu "España en el corazón". Voltou ao Chile, elegeu-se senador, e quando o governo perseguiu os comunistas, viveu na clandestinidade. Exilou-se novamente, cruzou a cordilheira a cavalo, rumo à Argentina.
O reconhecimento veio forte. Em 1945, recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Chile. Em 1971, o Nobel de Literatura — o segundo chileno a conquistá-lo, após Gabriela Mistral, sua antiga professora. No discurso de Estocolmo, disse que a poesia é "um chamado secreto" que resiste "ao tempo e ao espaço".
A morte o alcançou em 23 de setembro de 1973, em Santiago, doze dias após o golpe que derrubou Salvador Allende. Neruda tinha câncer de próstata, mas a rapidez do declínio alimentou suspeitas de envenenamento. Investigações recentes não confirmaram a teoria, mas o mistério persiste.
Suas casas em Valparaíso e Isla Negra viraram museus, cheias de conchas, garrafas e memórias. Seus versos continuam em canções, filmes, cartas de amor e muros de protesto. Neruda transformou dor pessoal e política em poesia universal. Sua voz, rouca e generosa, ainda ecoa — como a primavera que faz das cerejeiras um incêndio de beleza.
Não morre quem assim escreveu: “Posso escrever os versos mais tristes desta noite./ Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada, e tremem, azuis, os astros, ao longe»./ O vento da noite gira no céu e canta./ Posso escrever os versos mais tristes desta noite./ Eu a amei, e às vezes ela também me amou./ Nas noites como esta a tive entre meus braços./ A beijei tantas vezes sob o céu infinito./ Ela me amou, às vezes eu também a amava. Como não ter amado seus grandes olhos fixos./Posso escrever os versos mais tristes desta noite./ Pensar que não a tenho./ Sentir que a perdi./ Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela./ E o verso cai na alma como no pasto o orvalho./ Que importa que meu amor não pudesse guardá-la./ A noite está estrelada e tremem, azuis, os astros, ao longe./ Isso é tudo. Sob o céu azul infinito, ela se foi com outro e eu fiquei com meus versos.”
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é ocupante da Cadeira 7 da Academia Mato-Grossense de Letras.