Cristhiane Brandão
Toda empresa nasce do sonho de alguém ou de um grupo de pessoas. Como mais de 70% dos empreendimentos no Brasil pertencem a famílias, podemos dizer que foram construídos a partir de aspirações juvenis, muito suor, valores e crenças, passados de geração em geração.
Para essas famílias empresárias, o sucesso normalmente tem aparência destemida, voz de comando, atitude centralizadora, comum aos fundadores, que não precisavam dividir suas decisões com ninguém. Mais que isso, o patriarca sempre teve um lugar no centro da mesa de jantar – e da empresa, onde não era incomodado ou questionado. Pelo menos era assim.
Mas inevitavelmente os tempos mudaram e as organizações devem acompanhar tudo isso para se manterem de pé, o que inclui a profissionalização e a modernização das ferramentas e da própria estrutura organizacional. Agora, antes de chegar a esse nível técnico, vamos ter que passar pelo calcanhar de Aquiles da questão: o processo de sucessão familiar.
Passar o bastão para a segunda geração é uma das experiências mais difíceis ou mesmo traumáticas que um fundador pode experimentar. Mais do que qualquer crise financeira. Primeiro, porque tem que admitir que envelheceu, e que terá que assumir um novo papel ou até se aposentar, e isso é difícil. Segundo, a troca também gera um ‘choque de gerações’.
Então, eles dizem: ‘Não dá simplesmente para largar o osso!’. A gente entende, claro que entende. Mesmo no mundo racional e objetivo dos negócios, o primeiro conflito que surge para administrar é na esfera emocional. Temos que trabalhar nesse fundador o sentimento de perda e de impotência diante das mudanças, entre elas, as próprias da idade e da vida, como o envelhecimento e a morte.
Ao mesmo tempo, podem surgir nessa fase da vida novos projetos e prioridades. Quando conseguimos que o fundador interiorize seu envelhecimento e aceite a necessidade da sucessão na empresa, ainda há uma longa jornada a trilhar, que inclui todos os tipos de transformações necessárias para manter este legado sem que ele perca sua essência.
Na esfera empresarial é preciso trabalhar o repasse de toda a experiência sedimentada ao longo do tempo, que por meio da implantação de um sistema sólido de governança ajuda a profissionalizar, amadurecer e trazer longevidade à empresa familiar. O fundador pode enxergar que existem outras possibilidades: presidir um conselho ou se voltar exclusivamente à estratégia do negócio, se afastando rotineiramente da operação.
Há uma empresa nacional que passou por um processo similar e pode nos servir de exemplo e motivação. Com 69 anos de fundação, a Randon S/A, que atua no setor dos transportes, possui mais de 7 mil funcionários, exporta para 80 países e entre 2005 e 2009 esteve entre as 10 melhores para se trabalhar no país. Ou seja, é um grupo consolidado e de sucesso.
Após sobreviver bravamente a várias crises, Raul Anselmo e Hercílio Randon, os irmãos fundadores, concordaram em abrir o processo de sucessão para os cinco herdeiros da segunda geração, dos quais quatro trabalhavam na empresa. Aliás, a empresa esteve sob a gestão da primeira geração até abril de 2009.
O plano traçava a migração da holding para a bolsa de valores e que se manteria com os filhos em formato operacional, enquanto para a terceira geração caberia apenas administrar e usufruir os dividendos. É importante destacar que Raul foi cuidadoso ao preparar a empresa para esse processo, fazendo questão que os filhos, principalmente David, o atual presidente, estudassem e trabalhassem fora da companhia.
Mesmo em paz com o resultado, na presidência do conselho, diariamente ele comparecia ao batente. Ele faleceu no dia três de março deste ano, com 69 dedicados à vida empresarial. Quando observamos os efeitos desse esforço realizado pela Randon é fantástico!
Inspirado nesse case de sucesso, se você ainda não iniciou o seu plano de sucessão, porque acha que ainda é muito cedo, um alerta: O tempo passa muito rápido; e quanto antes se antecipar aos problemas, melhor.
Cristhiane Brandão é administradora pela UFMT, especialista em Dinâmica dos Grupos pela SBDG, 20 anos de experiência em Gestão e Estratégia para empresas familiares e sócia proprietária da Nunes Brandão Consultoria Empresarial & Empresas Familiares, crisbran@nunesbrandao.com.br.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
Recursos: MP destaca que STJ ajusta penas em casos graves
Prazo para recurso da avaliação de títulos do CNU termina hoje
Taxação da carne bovina brasileira pela China
PM desmantela esquema de furto de diesel no Estado
Cibersegurança municipal: o risco invisível que já bate à porta
Wellington defende derrubada de veto à regularização na faixa de fronteira
TJ: entidade filantrópica pode ingressar ação no foro de seu domicílio
Brasil institui o Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento
PC deflagra operação contra furto de defensivos agrícolas
Justiça condena concessionária por morte causada por animal