Geral
24 Dec 2017 11:45

'A alegria do nascimento de Cristo é maior que receber presentes', defende padre

'A alegria do nascimento de Cristo é maior que receber presentes', defende padre

Ensina a Tradição Católica, que muito antes de Deus ter criado o Universo, já planejava descer aos homens na pessoa de Jesus Cristo. Esse mistério da fé seria ensejado pela necessidade que a humanidade haveria de ter de uma luz que a guiasse no caminho da salvação, circunstância oposta ao caminho criado pelas escolhas humanas em decorrência do livre arbítrio.

O nascimento de Cristo, há 2017 anos, é chamado por muitos comentaristas bíblicos de plenitude dos tempos, não no sentido de fim, mas no sentido da máxima necessidade que a humanidade demonstrava ter de voltar a se relacionar com Deus, em um sentido de proximidade tal como vivia Adão e Eva antes de se deixarem levar pelo próprio arbítrio.

A perspectiva teológica do nascimento de Jesus parece não encontrar mais tanto espaço na mente dos indivíduos que vivem em um contemporâneo agitado e cheio de demandas existenciais.

Além disso, Cristo disputa o protagonismo com o Papai Noel, uma figura mercadológica criada como campanha de marketing e que atrai mais atenção das crianças e dos adultos, pois tem espaço cativo nos shoppings center ou nas praças, do que o próprio aniversariante do Natal.

Mas o que poderia ser capaz de denotar o verdadeiro sentido do Natal? Para o padre Maurício de Oliveira Sucena, que faz parte dos Arautos do Evangelho – Associação Internacional Católica que mantém um estilo de vida baseado no conservadorismo das tradições da Igreja - a melhor forma de descobrir o sentido do Natal é por meio da reflexão e do entendimento do verdadeiro sentido do Evangelho.

Padre Maurício explica que as características que faziam do ano zero do cristianismo ser a plenitude dos tempos, tais como a violência, o afastamento de Deus, o relativismo e a falta de um horizonte iluminado pela fé, também têm relação com o contemporâneo, o que faz de hoje uma versão atualizada daquele tempo.

Diante desse contexto, Padre Maurício ensina que um critério é decisivo no que diz respeito ao descobrimento do verdadeira sentido do Natal: a alegria. Para o religioso, quando se vive a verdadeira paz proporcionada pelo nascimento de Jesus Cristo, passa-se a entender e sentir que a alegria de ganhar presentes ou desfrutar de saborosas ceias é infinitamente menor que a alegria de celebrar o nascimento daquele que teria trazido ao mundo a salvação.

Confira a entrevista íntegra:

O Natal hoje se transformou em uma data comercial. Inclusive é uma das datas mais aguardadas pelos comerciantes devido ao típico aumento do movimento de clientes. Todavia, o verdadeiro sentido desta data nem sempre é evidenciado. O que o senhor acredita ser possível fazer para resgatar o verdadeiro sentido do Natal?

De fato, o Natal está um pouco desfocado. Sua imagem está fora de foco no que diz respeito ao horizonte mental das pessoas, que muitas vezes veem o Natal com outras imagens deturpadoras, que impedem que haja a verdadeira alegria do Natal. Recordo-me de um falecido bispo da cidade do Porto, norte de Portugal, que dizia: é preciso recristianizar o Natal, ou seja, uma festa cristã que foi paganizada e que nós agora precisamos recristianizar e, com isso, chamar atenção para a origem e para as razões sobrenaturais e espirituais que fizeram nascer essa festa. Na medida em que conseguirmos passar essa mensagem de uma reevangelização e recristianização do Natal faremos um bem enorme às almas e as pessoas sentirão que a alegria espiritual é muito maior que a alegria de receber presentes ou desfrutas de saborosas ceias.

A maior dádiva que alguém pode receber é um bem que não terminará.

E como é possível fazer essa recristianização?

Neste sentido tudo é válido. Nós Arautos do Evangelho, por exemplo, temos em nossa casa de missão em Cuiabá, um presépio com luz e movimento, que procura ser uma catequese para chamar atenção das pessoas. Como esse presépio se utiliza de imagem e movimento, tornando-o muito gracioso, acaba sendo absorvido por crianças com quatro anos idade e por crianças de 90 anos. Deste modo, demonstramos que o Natal é nascimento. Nasceu a salvação para nós com o menino Jesus. A salvação quer dizer o bem sem fim, o bem eterno. Por isso, é natural que se exulte porque é a maior dádiva que alguém pode receber é um bem que não terminará. Então, este que veio nos trazer este bem, já veio com a ideia de fazer tudo o que fosse possível para nos concedê-lo. Por isso, Jesus aceitou todos os sofrimentos e abraçou e beijou a cruz. É natural que no nascimento deste pequenino ser, que ao mesmo tempo é homem como nós, mas também é Deus, todo o orbi (Universo) se detivesse e o celebrasse com gratidão. Então, mais do que nunca, compreendendo isso, destaca-se nosso dever de chamar atenção das pessoas para esse compromisso de gratidão, essa homenagem, essa ação de graças ao menino Jesus, pelo dia em que ele nasceu.

A Igreja Católica Apostólica Romana comumente celebra duas datas muito importantes para o cristianismo, que é o Natal e a Páscoa (Morte e Ressurreição de Cristo). E essas datas são sempre antecedidas por um período de preparação, que em tese é uma espécie de retiro espiritual, o advento e a quaresma, respectivamente. Vendo hoje a agitação do modelo de vida levado pelas pessoas, esses períodos são cada vez mais necessários?

Deveriam ser retiros, e são cada vez mais necessários, pois sabemos que quanto mais grave é a doença maior é a necessidade do remédio. Infelizmente, a luta pela sobrevivência ou pelo êxito, seja escolar, profissional e a projeção pessoal, hoje em dia, sem uma catequese, este modelo de vida acaba não encontrando barreiras, não obedecendo direitos, e com isso, nós vemos o neobarbarismo dos nossos dias. Se no passado foi difícil converter os bárbaros, hoje é mais difícil fazer voltar às práticas religiosas os neobárbaros. Esses neobárbaros são bombardeados psicologicamente para estar com a cabeça cheia de tantas outras coisas, e com isso, é difícil abrir um espaço para o diálogo religioso. Hoje, mais do que nunca, a Igreja tem que se desdobrar, e graças a Deus, é consolador pensar que milhares de sacerdotes, missionários e leigos com dedicação exemplar estão no mundo inteiro chamando atenção das pessoas para o Natal que se aproxima, para o menino Jesus que precisa ser o centro das nossas atenções, que devemos nos preparar para estar com esse que chega, pois é quem merece tudo de nós, como diz o primeiro mandamento: amai a Deus com todas as forças do coração, com toda a alma. Com isso, a Igreja neste momento estará de mil maneiras, através dos seus operários, os operários da vinha do Senhor, empenhada neste trabalho. E tem difíceis barreiras, um desafio que não é pequeno, mas o Espírito Santo não deixará de premiar com frutos espirituais esses esforços.

Nós temos procurado fazer dentro do nosso possível a evangelização através de um contato direto.

De que forma tem acontecido esse suscitar do Espírito Santo na Igreja?

Nós vimos hoje em dia, que o Espírito Santo tem suscitado muitos movimentos novos, que no fundo manifestam a preocupação do Espírito Santo sobre tantos aspectos da realidade dos nossos dias, por isso uns se dedicam aos doentes, outros aos idosos, outros às crianças, outros aos marginalizados, enfim, o Espírito Santo não se esqueceu de ninguém. Ultimamente temos visto muitos movimentos surgirem respondendo aos desafios de hoje, mais do que nunca devemos nos preocupar com a tão falada “Nova Evangelização”. Para isso, muita oração, sem a qual nada vai para frente.

Nosso Senhor disse: pedi e recebereis, portanto, é pedir a Ele que tenha um santo Natal.

Os Arautos do Evangelho são conhecidos pelo carisma conservador de guardar a tradição católica, mas também de trazer isso dentro da Nova Evangelização. Como tem sido a recepção dos fieis em relação a esse modo de vida?

Nós temos procurado fazer dentro do nosso possível a evangelização através de um contato direto. Por exemplo, os jovens acompanhados e educados por nós têm realizado cantatas de Natal, mas explicando antes de cada música o sentido e mensagem de cada música de Natal. Nas últimas semanas estivemos em shoppings, cartórios, hospitais, tudo isso porque é preciso passar essa mensagem a todos, e tudo isso feito através de jovens, que estão entre 9 e 12 anos de idade. E isso toca ao coração. Outra atividade é o presépio, além do trabalho que nos pedemas paróquias. Com o presépio, que promovemos há 15 anos, a experiência tem sido muito bonita, principalmente com as diversas escolas que fizeram excursão até nossa casa dos Arautos, e com seus alunos, independente de religião, puderam compartilhar e celebrar essa linda mensagem de paz e amor que prega o nascimento do menino Jesus. Procuramos naquilo que é possível ajudar os cristãos, seja por meio da música, reuniões, conferências, a catequese, a arte e revelando os belíssimos tesouros guardados no baú da tradição da Igreja Católica.

Qual o conselho que o senhor dá para que as pessoas, independente da fé, vivam um verdadeiro Natal?

Nosso Senhor disse: pedi e recebereis, portanto, é pedir a Ele que tenha um santo Natal. E a partir do momento que existe esse desejo, e repetidamente formulado, Jesus não deixará de providenciar que a pessoa dê o passo necessário para alcançar essa verdadeira alegria. Para isso, Cristo se utiliza de diversos meios, seja através dos intercessores que Ele estabeleceu, seja por meio de uma bela confissão, seja por uma comunhão mais profunda, ou por meio do perdão, ou pela paciência, ou o abandono de um vício, um mau hábito, esses são alguns passos que podem ser dados nesse Natal, e que independente de sua gravidade, o importante é pedir essa graça, pois acima de tudo, Cristo sabe individualmente o que precisamos e o que é melhor para nós, principalmente para que possamos ser vitoriosos sobre nossas próprias fraquezas. Tudo isso, para que o objetivo maior seja alcançado, que é nos aproximar dele, fazendo nascer uma maior felicidade em nossos corações.

Voltar Mais de Geral

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário