Neste dia 25 de agosto de 2022 completarei 46 anos morando em Mato Grosso. Morava em Brasília e recebi um inesperado convite do governo Garcia Neto pra vir trabalhar. A razão eram as encrencas decorrentes da próxima divisão de Mato Grosso e a necessidade de ações de imprensa. Era jornalista em Brasília. Interessei-me de imediato pela proposta e vim conhecer Cuiabá. Fiquei quatro dias na cidade. A maior parte do tempo no Palácio Paiaguás, uma construção moderna muito longe da cidade antiga.
Cuiabá era uma cidade pequena e recatada. Modesta, mesmo. Tinha o charme de uma cidade colonial, já que pouco ia além do centro tradicional. Exemplo: a atual Avenida Mato Grosso era um traçado cheio de erosões. Nem sinal da avenida. Já a Avenida do CPA era num desertão iluminado com asfalto até a altura do atual Sebrae.
Mato Grosso atual tinha 38 municípios, dois dos quais, Chapada do Guimarães e Barra do Garças eram os maiores do mundo. A população do atual Mato Grosso era de 580 mil habitantes espalhadas nesses 38 municípios. O asfalto ligando Campo Grande e Goiânia a Cuiabá era de 1973. A Universidade Federal também e o primeiro linhão de energia elétrica vindo de Cachoeira Dourada, em Goiás, era do mesmo ano.
Na direção do Norte e do Oeste, o asfalto terminava ali no Posto Zero KM, em Várzea Grande. Assim como a rede de energia elétrica que também acabava ali. Pra frente era o fim do mundo em todas as direções. O Sul de Mato Grosso era mais desenvolvido, mas também era um desertão. A proximidade com Minas, São Paulo e Paraná não ajudava tanto.
Cuiabá tinha apenas 100 mil habitantes. Era mesmo muito modesta. A riqueza vinha da pecuária do Pantanal, dos garimpos de diamante, da extração de borracha e um pouco da madeira. Mas Mato Grosso era um estado muito pobre. Uma coisa era verdade. A população e os dirigentes do governo tinham uma imensa convicção no futuro. Uma fé quase inacreditável. Olhando o que se via, não parecia muito fácil ter tanta fé. Mas era uma herança da alma mato-grossense essa fé constante.
A partir de 1973 começaram as migrações de gentes do Sul e do Sudeste pra ocupar a Amazônia dentro do projeto do governo federal Marcha para o Oeste cujo lema era “Integrar pra não Entregar”. Já começava a mudar o perfil humano da gente de Mato Grosso. Tanto, que no censo de 1980, a população de Mato Grosso já,seria de 1 milhão 139 mil habitantes. Não parou mais de crescer até os 3 milhões 225 mil atuais.
A partir desse cenário, tudo o que se faz foi dali por diante numa gloriosa soma do trabalho de gente que estava e da gente que chegou. Eu, um jovem jornalista, finquei raízes com a esposa, Carmem e os quatro filhos: André, Fábio, Marcelo e Tiago, que nasceu em Cuiabá. Quando vou a Brasília, onde vivi 16 anos, me casei e me formei em Jornalismo na UnB, já não me sinto em casa. Penso que aqueles milhares de migrantes que vieram sucessivamente também. Até porque os filhos se misturaram por aqui, nesse imenso território de Mato Grosso.
Tenho muito orgulho de ter vivenciado tudo isso no exercício do jornalismo. Vi, efetivamente, a História ser construída dia após dia. Agora, já com os cabelos grisalhos, os filhos adultos, com netos e bisnetos, olho pra trás. Vejo uma linda história e agradeço pela decisão tomada naquele longínquo ano de 1976 de me transferir pra cá. No mínimo, vivências e longa história pra reviver.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.
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