Eram 10 horas de quarta-feira quando as portas foram abertas. Deixavam à mostra o enorme percurso que deveria ser feito, com a imponência de dois sobrados, erguidos em lados diferentes, arquitetonicamente também distintos, mas de modo que pudessem estar frente a frente um do outro. Os saltos dos sapatos tocavam ao passeio, e, ao fazê-los, produziam um som estridente, nenhum pouco melodioso, mas de aparente poder, tal a força que era imposta aos pés, cujos barulhos chamavam atenção, atraiam os olhares, que se estendiam as vestimentas e depois aos penteados, sempre na linha esnobe e alinhados.
As pessoas começaram a chegar. Rapidamente, logo após os abraços, alguns dos quais mais demorados que outros, em razão da longa ausência, elas se acomodavam nas cadeiras defronte a uma mesa grande estendida em uma parte do salão, quase em estilo “oval”. Construído muito mais para se aproveitar o espaço vazio espremido entre as casas anteriormente construídas do que necessariamente saído da imaginação criativa e inventiva do arquiteto que vivia a rabiscar suas pranchetas.
Gargalhadas ecoavam pelo ambiente, em meio às falas que se misturavam, embora desencontradas, pois cada uma delas tratava de um episódio, ainda que presenciado ou vivido por todos. Os garçons faziam seus espetáculos à parte, sempre a circularem entre as cadeiras e as pessoas. De repente a voz postada de alguém. Persuadiu a todos. Parecia ser o mestre-sala. Pois dava o tom. Falava com autoridade. Ainda que se registrassem, e isto era de praxe, as conversas paralelas. A sineta. Repetida. Novamente o silêncio. Reiniciara a leitura, e, minutos depois, concluída do que deveria ser motivo de debate, discutido. Levantou-se questão de ordem. Tática seguida por outros. A palavra era dada de acordo com as inscrições previamente feitas. Ora desviada, ora voltava ao ponto. Discordantes se digladiavam. Inexistia consenso. Ao menos por enquanto. Nem tanto pela polêmica do assunto. Mas, isto sim, pela visibilidade que se poderia ter. Afinal, uma emissora de TV transmitia ao vivo o acontecimento.
Um dos inscritos falou do interesse comum sobre o assunto, porém rodeou o toco, como se diz no interior; outro se lembrou da necessidade de se dar uma resposta a questão levantada nos botequins, nas casas e nas ruas, mas, ele próprio, não ousou fazê-lo; um terceiro atraiu mais pelo vozeirão que, necessariamente, pelo seu conhecimento de causa, e, talvez, por esta falta, passou a atacar terceiros. Teve a estratégia copiada por dois que o sucederam, rebatidos por uma mulher, aparentemente ainda jovem, sem sê-la de fato, pois falava como veterana, e dava a entender que conhecia todo o caminho da esgrima, embora se recusasse a tratar sobre o tema propriamente dito.
Novo pedido de ordem. Vozes se misturaram. O mestre-sala foi obrigado a intervir, e o fizera com altivez, mas foi com a ameaça de cortar o som dos microfones que conseguiu o silêncio. Retomaram-se as falas. Quase muito parecidas, exceto quando um dos presentes, não familiarizado com os termos jurídicos, resolvia se mostrar do ramo, mas até a “data-vênia” soava falsamente, até os apartes, para quem se encontrava ali pela vez primeira, tinham o caráter impositivo.
O debate cedeu lugar ao bate-boca, recheado de acusações, inclusive para quem não se encontrava presente. Ninguém, porém, se lembrou de indagar a muitos ali o porquê, depois de tanto tempo de vivência naquele ambiente, não propusera antes o mesmo projeto. Por que eles esperaram tanto? Afinal, há muito, inclusive alguns deles próprios, no cotidiano da advocacia, defenderam a prisão depois do transito e julgado, com o fim de beneficiarem seus clientes, bancados a peso de ouro.
Aliás, a relatora da PEC se encaixa neste “script”, igual ao mestre-sala. Estes dois marinheiros de primeira-viagem por ali, ao contrário do autor que, além de profissional do direito, encontra-se no segundo mandato. Não ousara apresentar tal PEC antes. Deixou como tantos outros, o barco correr a deriva, e só agora resolveu gritar, tanto quanto os demais, com o fim de engabelar, jogar para a platéia, e, assim, obter dividendos preciosos. Pobre República, triste país, ingênuo povo! É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário, analista político e escreve nesta coluna. E-mail: Lou.alves@uol.com.br.
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