• Cuiabá, 19 de Outrubro - 00:00:00

'O Brasil só vai ser decente quando tiver Educação', defende Fabrício Carvalho


Longe do conceito restrito a um quadro de giz, ou cadeiras bem organizadas em fileiras, com professores ensinando ‘decorebas’, ou estudantes enfiados na carteira, a educação se parece muito mais com a batuta de um maestro, que ao usar de gestos muito próprios, conduz uma universalidade de instrumentos a uma harmonia perfeita.

Com sua forma peculiar de enigmatismo, o maestro também reverbera na plateia à típica emoção que a música é capaz de produzir. Mas na educação algumas notas ainda estão descompassas. Ora falta verba, ora falta espaço. Contudo, não faltam horizontes para onde o desenvolvimento proporcionado pela educação possam atingir.

Em uma mescla de passado, presente e futuro, característica típica do que é o ser humano, a entrevista desta semana do FocoCidade põe em pauta a educação. O assunto é peculiar, e sempre requer muito espaço -  merecido espaço - que ainda precisa ser conquistado de forma mais ampla na realidade da maioria das famílias brasileiras.

Para o maestro e secretário de Articulação e Relações Institucionais da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Fabrício Carvalho, a educação é a única forma de se pensar o país e/ou o Estado. Da mesma maneira, a educação é a perspectiva pela qual se pode vislumbrar o desenvolvimento humano, conforme detalha o professor.

Ao se falar em educação, outros assuntos vem à tona, como a forma de ingresso ao ensino superior público e as arcaicas discussões que ora ou outra são pautadas no viés político, como é o caso das cotas, contraposta de forma equivocada, pelo menos sob a análise de Carvalho, a meritocracia.

Já que o assunto é política, o engajamento dos estudantes em movimentos desta ordem também tem refletido mudanças, tais como as que vêm acontecendo na sociedade. Fabrício Carvalho informa que os paradigmas estão em transformação, o que para ele é de suma importância.

E se após essa entrevista, o leitor ainda tiver dúvidas sobre o poder transformador da educação, só restará invocar um grande m(a)estre. "Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda", Paulo Freire.

Confira a entrevista na íntegra:

 

O contemporâneo é um período bastante turbulento, principalmente para entrar no mercado de trabalho. Sabe-se que a formação profissional é uma escolha nem sempre fácil de se fazer. O senhor concorda que essa dificuldade se manifesta no cotidiano da universidade? Como o corpo docente da UFMT lida com essa realidade de transformações líquidas no corpo discente?

Formação pessoal é sempre um detalhe muito particular na vida das famílias brasileiras. Algumas questões são sempre recorrentes como recurso financeiro, qualidade de vida, influências genéticas, como continuidade da profissão do pai. Acredito que a universidade deve cada vez mais se qualificar em relação a esse processo de escolha dos estudantes. Óbvio que não influenciar, mas estar preparada para fazer a leitura da decisão tomada. O processo do Sisu/Enem deixa isso um pouco mais claro, pois se escolhe a universidade para a qual se quer ir, assim como as opções do curso, o que ressalta a possibilidade de escolha. Não é foco da universidade se preocupar com isso, mas é parte integrante da sensibilidade profissional do professor e da instituição, por consequência, estar atento a qualquer sinal que o estudante manifeste. Isso acontece do ponto de vista mecânico, quando alguns estudantes apresentam algum tipo de distúrbio quando não estão satisfeitos ou no local ou no curso, e a universidade sempre está muito atenta em relação a isso e aos programas de assistências estudantil, que no caso da UFMT são modelos em nível nacional.

Ainda na perspectiva da contemporaneidade, como a extensão é encarada pelo senhor? Quais os desafios de fazer da extensão uma concretude para a realidade da sociedade e, com isso, contribuir para que essa realidade seja transformada?

Eu sou um apaixonado pela extensão universitária. Fui pró-reitor por oito anos e a extensão nos permite ver o tamanho da universidade. O tamanho de uma universidade socialmente referenciada, como ela pode atender e agir na sociedade, fazendo com que seus estudantes conheçam a problemática social, e fazendo com que seus estudantes tenham evolução acadêmica satisfatória, trabalhando o potencial nesses problemas. Fazendo uma pesquisa teórico-prática, levando o melhor do conhecimento teórico discutido dentro da Universidade o caminho com a sociedade. Ao mesmo tempo observando o que a sociedade nos coloca também. O caminho da extensão é dual, é daqui pra lá e de lá para cá, o que significa que é preciso estar atento também ao conhecimento popular, aos mestres populares de conhecimento absolutamente fantásticos e necessários para a solução de alguns problemas sociais  e isso a Universidade também tem. E o tempo que tive na pró-reitoria permitiu ter essa visão mais ampla. A transformação social  acontece de maneira muito concreta quando a gente tem a chance de levar o conhecimento cientifico. Para a sociedade e trazer o conhecimento popular para dentro da sociedade. Essa troca real, orgânica para o crescimento de todos.

Na educação de uma maneira em geral, todo orçamento ainda é pouco, insatisfatório para o tamanho da responsabilidade da educação no país.

 

O ensino teórico alinhado com a prática do mercado de trabalho tem incluído a iniciativa privada. Como hoje é a relação da UFMT com as empresas quanto ao atendimento das demanda por profissionais que atendam ao mercado?

Este é um ponto muito interessante, que temos abordado principalmente sob a gestão da professora Mirian Serra. Não é se preocupar com o que o mercado quer da UFMT, mas estar atento as demandas que vêm da sociedade. Óbvio que alguns se interessam pelas áreas de pesquisa, e quando há o interesse comum da sociedade pra gente e da gente a sociedade, isso acontece com mais tranquilidade. Quando a universidade é demandada pela sociedade para encontrar soluções, a universidade tem que estar preparada para isso. É o que chamamos de alinhamento teórico-prático. Construir de forma pragmática, substancial e prática as possíveis soluções e indicá-las. E não é papel da Universidade ir até a sociedade e resolver, mas sim apontar, sugerir e se alinhar com o poder público – Poder Executivo principalmente, e dar sugestões. O processo de extensão deve ser transformador do ponto de vista macro.

Qual é o orçamento da UFMT para pesquisas e extensão? Esses valores são suficientes? Quanto foi no ano passado? Quanto está sendo este ano?

Os números são variáveis. Na educação de uma maneira em geral, todo orçamento ainda é pouco, insatisfatório para o tamanho da responsabilidade da educação no país. O investimento da educação no Brasil ainda é ínfimo em relação ao tamanho continental deste país. Em relação a posição estratégica de desenvolvimento de terceiro mundo. Em relação a posição estratégica na América do Sul. E não é só em extensão, é em pesquisa, ensino, pós-graduação. Temos aberto a universidade cada vez mais para captar recursos externos, daqueles  que vêm até nós procurar por pesquisas. Para isso desenvolvemos uma política de gestão para que o cuidado com estes recursos sejam cada vez mais republicana.

Como o senhor avalia o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Houve democratização do ensino? Está no caminho certo?

Sou profundo entusiasta do processo de educação continuada e de avaliação continuada. Quanto mais tivermos a chance de sempre estar nos avaliando, melhor. Isso para saber se o nosso processo está correto, se a forma que estamos trabalhando tem dado resultado, assim como, se é democraticamente acessível, se está fazendo bem para a sociedade. Sempre que se tem a oportunidade de fazer essa reflexão, eu acho importante. O Enem tem um pouco desta característica. O que chamo atenção em relação ao Enem é o que está relacionado ao Sisu – Sistema de Seleção Unificada, que permitiu que o Brasil todo tivesse acesso as Universidades Federais e a tantas outras, também que houvesse uma democratização do acesso às vagas. Em Mato Grosso nós fazíamos vestibular em quatro cidades onde temos polos – Cuiabá, Rondonópolis, Sinop e Barra do Garças – quem quisesse fazer vestibular na UFMT teria que se descolar para algumas dessas cidades. Hoje não, você faz vestibular em qualquer lugar do Brasil e vem para Mato Grosso. Precisa melhorar? É óbvio que precisa melhorar. Mas é sem dúvidas uma evolução relação ao vestibular antigo.

Acredito que o país vai desenvolver verdadeiramente, quando crescer o seu povo. Quando a educação tiver uma qualidade indelével e quando a maioria das pessoas estiverem acesso à educação.

Ora ou outra, o assunto cotas vem a tona. Percebe-se que há uma tendência mais conservadora na política que critica duramente a concessão de cotas e prega como contraponto a ‘meritocracia’. O que o senhor tem a dizer sobre as cotas e a importância delas para a sociedade brasileira?

Primeiro que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Uma coisa são as cotas, outra coisa é a meritocracia. Uma coisa não se mistura com a outra. Cotas é correção de uma distorção. Quando se abre cotas para pretos, índios, oriundos de escola pública, elas só foram abertas mediante estudo técnico, científico, e não tem achismo em relação a isso. Negros, indígenas, oriundos de escola pública não estão acessando a universidade pública, por diversos fatores, históricos, sociais, econômicos, geográficos, diversos. Então se abre cotas para corrigir e permitir que aquela parcela da sociedade tenha acesso a um direito fundamental que é a educação. Cota deve ser perene? objetivamente não. Na UFMT foi implementada política de cotas, mesmo antes da Lei 11.711, que determinou que o Brasil assim o fizesse, nós havíamos entendido que as cotas são importantes e, por isso, as implantamos um ano antes. São 10 anos de cotas. E este período foi o que o conselho de pesquisa da UFMT entendeu que seria interessante para fazer essa avaliação do processo de entrada de camadas sociais, que não se faziam presentes ou quando estavam presentes era de maneira muito ínfima. Se ao afinal dessa avaliação, as conclusões apontarem que as cotas foram importantes, mas que a Universidade tem condições de acolher a todos sem  essa forma de correção de um distorção, as cotas vão acabar. Isso aconteceu nos Estados Unidos na década de 50, e foi de suma importância quando existia fortes conflitos raciais entre brancos e pretos. Isso não é protecionismo, isso é moderno e necessário. Já a meritocracia é a condição do mérito. Quem tem mais mérito ganha. A sociedade já é assim. Isso é normal. O mercado de emprego já mostra isso, o mercado de currículo já mostra isso. O mercado estético já mostra isso, de maneira errônea. Não entendo essa coisa de ora uma ou outra. A questão da meritocracia sempre tem alguns ângulos. Como é que vamos discutir mérito entre pessoas que estão em condições diferentes? Entre pessoas que estão iguais, no mesmo local e partiram do mesmo ponto, que tiveram as mesmas condições, se alimentaram da mesma comida?. Agora discutir meritocracia entre quem não tem nada e com quem tem tudo, para chegar ao mesmo objetivo, com certeza temos que discutir isso.

Há alguns meses, as festas promovidas pelos acadêmicos de alguns cursos da UFMT começaram a ser alvo de críticas pela mídia. A principal denúncia decorre sobre a alta concentração de pessoas e o uso de drogas, bebidas em excesso entre outras situações, como o lixo que fica após estas reuniões. Como a Universidade lida com essa realidade?

Lida como com qualquer atividade dos estudantes, que em algum momento fogem à regra. Lida com processos disciplinares, administrativos. A universidade não negocia nenhum tipo de atitude que não seja concernente com a legislação em vigor. Óbvio que existem vários assuntos de fundo que precisam ser discutidos, e a universidade tem discutido. Por exemplo, uso do espaço físico da universidade para festa e como deve ser. A universidade está fazendo um trabalho fantástico em relação a isso, que é uma discussão ampla com os professores e técnicos administrativos, para definir como que deve ser utilizado o espaço da universidade. Afinal de contas, se acontece alguma coisa dentro da universidade a culpa é do gestor. É justo isso? É honesto isso? Por isso, a universidade vem discutindo e o estudante é sempre muito consciente do seu espaço físico. Aliás a universidade faz reuniões festivas, saraus, eu mesmo já fiz alguns concertos com a orquestra lá dentro, e problemas graves nunca aconteceram. Acontecem quando a comunidade externa com uma certa despreocupação proporciona alguns desencontros lá dentro. O lixo que fica incomoda, assim como alguns exageros incomodam. Mas a universidade trata isso com muita tranquilidade e firmeza quando há algum tipo de ilícito. O caminho é o processo administrativo, disciplinar, garantindo a defesa e tomando a atitude necessária para sanar aquele problema e evitar que continuarão sendo dessa forma como vem sendo há 47 anos na universidade.

Outra questão é o engajamento político. No Brasil, predomina uma cultura de que alunos das universidades públicas tenham mais tendências para o engajamento político em movimentos sociais – grande parte de esquerda, o que não é tão comum, e ouso dizer até mesmo raro nas universidades particulares. Como o senhor avalia essa questão?

Veja, você tem razão, mas assim como há na sociedade brasileira mudanças,  também acontece nas universidades federais. Nós tivemos no início deste ano uma grande assembleia que debateu greve, ocupação dos setores acadêmicos pelos estudantes, e tinha mais 1,5 mil estudantes, cuja votação fez ganhar a tese que defendia a não ocupação e não greve. Isso não significa esquerda. Pode até se dizer que a direita ganhou. Eu não gosto muito dessa divisão, porque restringe entre direita e esquerda, e isso não é inteligente, mas até para explicar, pois até seria natural um movimento de ocupação, greve dos estudantes. E se percebe na universidade diversos movimentos, inclusive mais conservadores, o que reflete o que acontece na sociedade. E na universidade isso se qualifica. O discurso é mais qualificado, tanto para os que são mais sociais, quanto para aqueles que são da meritocracia. Óbvio que os movimentos sociais, inclusive alguns ligados até a partidos, aos centros acadêmicos – isso tem uma história e muito bonita que se mistura com a história da universidade, da cidade e do Estado. Diversos atores políticos de hoje saíram do banco da UFMT. Mas há uma mudança clara de comportamento e alternância de pensamentos, o que para mim, pessoalmente é algo absolutamente fantástico, e que demonstra o tamanho da universidade e o quanto ela faz essa reflexão.

Quais são os grandes desafios da Educação no ensino superior hoje? E quais os caminhos possíveis de serem seguidos? O que ainda falta para o país encontrar a excelência no quesito educação? Essa é uma realidade que passa pela intensificação da cultura?

A educação deve sempre estar atrelada ao conhecimento cultural, até mesmo porque uma coisa não se dissocia da outra, devem caminhar sempre juntas. A educação deve trabalhar com ferramentas estratégicas, modernas, como educação de ensino a distância, usar as tecnologias disponíveis. Todo tipo de tecnologia deve ser usado à favor da educação. Também se precisa pensar em qualidade do investimento, não simplesmente dinheiro por dinheiro, e  sim como será aplicado. Precisamos de mais universidade públicas, mais qualidade no ensino médio. Um olhar absolutamente criterioso para a educação de base, inclusive a que é oferecida aos pais, para que eles voltem a escola para ajudar na formação dos filhos. E cultura é fundamental no sentido do que ouvir em casa, no que ler em casa. É muito mais que dinheiro, é uma ação complexa, de país. Acredito que o país vai desenvolver verdadeiramente, quando crescer o seu povo. Quando a educação tiver uma qualidade indelével e quando a maioria das pessoas estiverem acesso à educação. Não é possível pensar o Brasil e Mato Groso sem educação de qualidade. Isso passa por investimento e principalmente, por uma nova mentalidade de educação, que possa abarcar desde a família até a universidade. Isso vem com investimento, com inteligência e com uma ação de guerra para transformar o país, verdadeiramente em um país decente.