Aline Cântia
A pandemia nos trouxe um dos maiores desafios de nossa trajetória. Acostumados a contar histórias em presença, em rodas, praças e escolas, de repente nos vimos diante do isolamento. Como narrar sem o encontro físico? Como sustentar projetos em meio à crise sanitária e ao fechamento dos espaços culturais?
Em Produção Cultural pelo Afeto, conto, ao lado do músico Chicó do Céu, que foi preciso inventar novas formas de estar juntos. O livro em questão foi resultado de mais de uma década de experiências práticas do Instituto Cultural AbraPalavra, que recentemente foi anunciado como semifinalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Fomento à Leitura.
Descobrimos, nesse período, que a produção cultural não desaparece quando o corpo não pode estar presente. Ela se transforma. Passamos a experimentar conexões virtuais, a criar encontros híbridos, a levar nossas histórias para telas. E, surpreendentemente, encontramos no digital não uma substituição, mas uma ampliação de possibilidades.
Reinventando formas de presença
O que aprendemos é que a presença não está apenas no corpo físico, mas também na atenção e no cuidado. Quando uma criança escuta uma história pelo computador e depois envia um desenho inspirado nela, percebemos que o vínculo foi criado. Quando uma comunidade distante consegue participar de um encontro virtual, descobrimos que as barreiras geográficas foram atravessadas.
Claro que sentimos a falta dos abraços, do olho no olho, do calor da roda. Mas entendemos que era possível sustentar a produção cultural mesmo assim. As redes digitais se tornaram nossas aliadas para manter viva a oralidade e o afeto.
Cultura como espaço de reinvenção
A pandemia mostrou que a cultura é também espaço de resistência e adaptação. Em um momento de medo e perda, narrar histórias, organizar encontros online e manter a circulação cultural foi um modo de cuidar das pessoas.
Quando voltamos ao presencial, carregamos conosco os aprendizados do período digital. Hoje, sabemos que podemos unir os dois mundos — o físico e o virtual — para ampliar o alcance da produção cultural. E seguimos acreditando que, mesmo em tempos de crise, o afeto encontra caminhos para circular.
*Aline Cântia é narradora de histórias, jornalista, mestre em Literatura e doutora em Educação, com mais de 20 anos dedicados à narração e à formação cultural. Fundadora do Instituto Cultural AbraPalavra, finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Fomento à Leitura, e idealizadora da ELENA – Escola Livre de Estudos da Narração Artística –, ela desenvolve projetos que conectam literatura, oralidade, memória e educação, especialmente em territórios periféricos. Em parceria com o músico Chicó do Céu, Aline assina o livro Produção Cultural pelo Afeto (Editora AbraPalavra), que combina experiência prática e reflexão sobre cultura, profissionalismo e humanização no fazer artístico.

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