Lourembergue Alves
A delação do Silval Barbosa pautou a imprensa e ocupou partes das conversas nos botequins e nas redes sociais. Isto faz sentido. Pois ela revela a existência de um esquema de pagamento e recebimento de propinas. Pagamento e recebimento de propinas que não têm nada de novo, nem tem origem no governo do peemedebista, tampouco na gestão que antecedeu ao do delator. Mas vem de muito tempo, passando por todas as fases históricas do país, consolidando-se no regime burocrático-militar e foi ampliado no atual estágio da República, com a presença constante e permanente de parlamentares, voltado para o pagamento de dívidas de campanhas eleitorais e o enriquecimento de grupos.
Neste sentido, o esquema, ora trazido à tona, não foi diferente do passado. Diferencia-se, talvez, em um ou outro ponto em sua estrutura. Por falar nisto, o dito esquema era formado por um tripé. A sua primeira perna, a central, claro, era o Estado-governo, utilizado como objeto de desejo e a serviço dos grupos envolvidos. A segunda perna formada por empresários e empresas que se serviram do esquema para ganhos próprios. Por isso, eles e elas pagavam gordas propinas, mediantes contratos de serviços com o governo, incentivos fiscais e precatórios. Seus ganhos eram simplesmente fantásticos, e se tornaram maiores com os ingressos de bancos no sistema (BMG, Bic Banco, Daycoval e Banco Rural). Bancos que concederam empréstimos as empresas com créditos com o Estado, e com as garantias de pagamentos do próprio governo estadual. A terceira perna do dito tripé era constituída por agentes políticos e agentes públicos, os quais cobravam e recebiam ilicitamente altos valores. Seus lucros também foram extraordinários.
Percebem-se, (e) leitores, todos eles ganharam muitíssimo. As cifras eram expressivas, saídas de propinas, incentivos fiscais, desapropriações superfaturadas do Renascer e do Liberdade (aqui, com a ajuda preciosa de advogados), precatórios e de suplementação do orçamento da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Contas.
Nada, contudo, ganharam o Estado e a sua população. Pois o dinheiro desviado daria, certamente, para aliviar sobremaneira o atual retrato da saúde, da educação e da segurança públicas.
Olham (e) leitores, a delação é riquíssima, com personagens reais e acontecimentos também verdadeiros. E, por conta dos detalhes, dificilmente poderiam ter saídos das páginas do imaginário ou da mente fértil do delator. Tese, curiosamente, defendida pelos acusados. Eles, os acusados, questionam até as imagens dos vídeos que retratam deputados recebendo dinheiro do ex-secretário-chefe da Casa Civil. Virou piada. Piada de mau gosto.
Tragicômico igualmente é o sumiço do prefeito cuiabano. Acobertado pela Câmara de vereadores, a qual insiste em investigar as imagens gravadas com o prefeito, à época deputado, guardando desajeitadamente o dinheiro ilícito nos bolsos do paletó. Investigar, quando deveriam votar e julgar se o peemedebista deve ou não continuar ocupando o cargo de prefeito, respeitando todo o seu direito de defesa, até para não se ter a nulidade do processo. A Câmara, no entanto, prefere assim não adotar o procedimento correto, e chega ao absurdo de querer esperar a decisão do Judiciário (riso). Há uma razão, o de favorecer o prefeito. Fora recompensada com 6,7 milhões, devendo ser repassados pela prefeitura em cinco parcelas mensais. É para rir ou para chorar, (e) leitor? É isto.
Lourembergue Alves é professor e analista político.
E-mail: lou.alves@uol.com.br.

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