• Cuiabá, 21 de Novembro - 00:00:00

Famílias estraçalhadas por uma tragédia anunciada e certa


Sirlei Theis

Marta Alves Martins, uma jovem senhora de 40 anos, conheceu Wilson Tomé ainda menina, com o qual teve uma filha. O ciúme exagerado sempre esteve presente nessa relação que durou 24 anos. No início Marta nem sabia que o tal ciúme e as acusações inverídicas tratavam-se de sintomas de uma relação agressiva. Quando tentou uma separação em ocasião anterior, Wilson tentou estrangula-la, fato que a fez continuar com ele.

Contudo, há 3 meses decidiu enfim que merecia viver sua vida, correr atrás de seus sonhos, criou coragem e resolveu por um fim àquele sofrimento. O fato de Sinop agora ter uma Delegacia Especializada na Defesa da Mulher lhe encorajou, algo que foi muito almejado e reivindicado pela sociedade local. Conseguiu então uma medida protetiva, ufa... estou segura! Pensou ela, no entanto, logo percebeu que tal medida que não era tão protetiva, na realidade era só um papel, que não impedia as perseguições do seu ex companheiro, que em seu desejo de posse não aceitava o fim do relacionamento.

Então Marta, servidora pública efetiva da prefeitura municipal de Sinop, percebeu que para ficar segura teria que ir embora, fugir de sua cidade, ficar longe de seus familiares e amigos, abandonar seu emprego que lhe havia custado muitas horas de estudo, mas a vontade de viver a sua vida era tão grande, que chegou a pedir exoneração de seu cargo, mas como tinha direito a uma licença, optou por tirá-la primeiro. Estava tudo programado na segunda feira, 05/11/2018, Marta ia sair da cidade.

Pena, que não deu tempo, pois Wilson Tomé, lhe surpreendeu bem cedo, impedindo mais uma vez que Marta pudesse viver sua vida. Dessa vez ele foi implacável ao cravar uma faca no pescoço da Marta, vendo-a desfalecer bem na sua frente. Mais um pouco e ela teria conseguido.

Marta estava pronta para deixar a cidade naquela fatídica segunda-feira. O que aconteceu foi mais uma vida interrompida pela violência doméstica, que cresce sem controle e o Poder Público segue com suas campanhas fomentando a denúncia, mas não faz sua parte que é garantir a segurança das vítimas. Até quando vamos continuar lendo essas notícias! Quantas mulheres que passam pela mesma situação que Marta estão aterrorizadas nesse momento e que por pior que seja a vida ao lado do seu agressor ainda é a única chance que tem de viver um pouco mais.

Esse é um resumo da triste história da Marta, mas os muitos veículos de comunicação que se ocuparam da história, trataram a morte de Marta como mais uma estatística, mais um assassinato, onde apenas a faca no pescoço foi motivo de destaque. Sangue inocente que escorreu alimentando a indústria que cada vez mais usa a barbárie para criar manchetes que vão vender, a busca pelo clic a qualquer custo, neste caso a faca, o pescoço. Foco no pior do que aconteceu, olhos cegos ao que vinha acontecendo.

Diariamente no Brasil 12 mulheres são assassinadas simplesmente pelo fato de ser mulher, ou seja, a cada 2 horas uma mulher é assassinada. Os casos mais comuns desses assassinatos ocorrem por motivo de separação, como o caso da Marta. Mato Grosso é o estado com a maior taxa de feminicídio de acordo com pesquisa realizada em 2017: 4,6 a cada 100 mil.

O que Mato Grosso pode fazer para mudar essa realidade? Chega de pensar que para resolver o problema da violência doméstica em razão da complexidade da questão é necessário investir em projetos astronômicos, como o projeto federal “casa da mulher brasileira” que demanda uma grande estrutura física e de pessoal, que “poderia ser o ideal”, mas que para aqueles que conhecem pouco da Administração Pública, sabem de antemão que não resolverá o problema, que não atenderá todo o público que precisa, no máximo uma região da capital, deixando as outras regiões e municípios ainda mais desassistidos.

É claro que seria perfeito se funcionasse, assim como, seria perfeito que as Delegacias especializadas na Defesa da mulher resolvessem o problema da violência doméstica, mas a realidade é bem diferente, sem estrutura de equipamentos e de pessoal, funcionam apenas em horário de expediente, das 13hs às 19Hs, quando sabemos que o maior índice da violência ocorre nos finais de semana, feriados e a noite.

É preciso pensar mais simples, reorganizar e estruturar os plantões, pode ser o primeiro passo. Antes de criar novas Delegacias Especializadas na Defesa da Mulher é necessário garantir o pleno ­­­­funcionamento das que existem, investindo em equipamentos e efetivo qualificado e principalmente implantar o regime de plantão.

Contudo, as ações acima são apenas para garantir o atendimento das vítimas de violência doméstica e não pressupõe que mudarão os índices apresentados. Para combater esse tipo de crime e Mato Grosso sair da posição que se encontra no ranking é necessário investir em políticas preventivas e também no pós-atendimento das vítimas e agressores, fortalecendo a rede de atendimento de todos os municípios do Estado e o mais importante nisso tudo é que existe recurso federal disponível, basta o Estado querer e apresentar seus projetos.

Precisamos começar agora. Se fizermos isso, nas próximas 2 horas poderemos salvar uma mulher da morte certa e iminente, e depois salvaremos mais uma e mais uma, até que então vamos poder deixar de ser aqueles que mais matam.

Até lá poderemos ainda ter muita dor. Se não começarmos logo podemos esperar outras Martas, Marias e afins perdendo a luta contra este inimigo tão cruel. Mulheres que já há muito haviam perdido a liberdade, a coragem e a capacidade de sonhar e caminham a passos largos em direção a morte.

Vamos começar, um passo de cada vez, que vamos conseguir, assim poderemos mostrar ao Brasil como se faz. Vamos ter Mulheres vivas com lindas histórias de superação para contar.

Agora quero saber, quantas Martas mais vamos esperar para de fato decidirmos começar.

 

Sirlei Theis é advogada, servidora pública, especialista em Gestão Pública, palestrante e ex-vítima de violência doméstica.