• Cuiabá, 16 de Novembro - 00:00:00

A dor e a delícia de ser o que é


Antônio Wagner Oliveira

 

Os dias atuais devem estar sendo “saborosos” e, ao mesmo tempo difíceis para os Cientistas Políticos, especialmente no que tange as intenções e emoções que cercam as eleições desse 7 de outubro de 2018.

O que se vê é um país polarizado. Dividido mais uma vez, só que agora com o componente da raiva, do ódio, abstraídos por alguma força motriz difícil de decifrar, que impulsiona tanta tensão. Não tão difícil decifrar é quem se aproveita dessa profusão de sentimentos e ressentimentos, que levam a desentendimentos políticos não só entre os partidos e os atores de sempre, mas entre amigos, familiares, pessoas de um mesmo seguimento ou categoria, casais, ou seja , pessoas normais que sempre mantiveram um distanciamento da política, por a acharem “suja demais” e algo a não se discutir, como religião e futebol, reprodução do adágio popular. 

Mas estas eleições trouxeram essas pessoas a debater política, de modo raivoso na defesa de um candidato a quem resolveram chamar de “mito”, embora saibamos que em política “endeusar” alguém equivale a elogiar um árbitro ou goleiro antes do fim do jogo.

Mas o que levam essas pessoas a isso? Quais seus interesses mais imediatos e caros?. O que as leva a taxar os que são contrários àquela visão, com adjetivações por vezes tão grosseiras e tão odientas?.

Ao ler um debate no grupo da categoria a qual pertenço, pude ter alguma ideia do que compõe este sentimento. Talvez uma parte desses eleitores, esteja sendo impulsionada pelo desejo de ver exterminada a corrupção, mas quando percebemos que esta mesma preocupação não se aplicaria aos candidatos a deputados, Senadores e Governadores, isso perde importância, pois muitos desses que vociferam para defenderem esse candidato “andrógeno” por ver nele o representante desse combate, não se furtam a votar nos corruptos locais, nas oligarquias que desde sempre surrupiaram os cofres públicos e muitos direitos conquistados. Usar a camisa de alguém que dizem honesto e, votar numa pessoa ou partido local corrupto, é no mínimo contrassensual e, por que não, hipócrita.

Por isso, acredito que sejam outros os motivos adjacentes a esse voto, principalmente uma confusão de conceitos e pré-conceitos que tanto se vê nas conversas em geral e, mais ainda, nas mídias sociais. Uma postagem hoje chamou atenção de alguns colegas pela ofensividade das imagens (não cheguei as ver, o colega percebeu o erro e as apagou), que seriam homossexuais se tocando. Ao que foi repreendido por alguns, o colega retrucou dizendo que aquilo “estávamos cansados de saber que era a cartilha da esquerda”, nas palavras dele. Como se a defesa pela dignidade dos homossexuais na sociedade fosse uma pauta exclusiva da esquerda.

Intrigou-me essa frase não por vir eivada de raiva, pois não veio, mas por que é uma confusão conceitual que leva ao ódio ao “petê” e PCdoB que mais a defendem publicamente por alguns de seus quadros políticos, que eleva isso a toda esquerda, como se o “petê” fosse o único representante da esquerda, em erros e acertos. E não é. Carimbando uma raiva irracional a toda esquerda genuína. 

É necessário reconhecermo-nos em uma sociedade conservadora e, portanto, tais assuntos antes de racionalidade, carregam pré-conceitos históricos. Mas afirmar que esta é uma pauta da esquerda propriamente, por que este ou aquele partido de esquerda se vale mais dela é um erro. 

Quase todos os partidos têm seus seguimentos de defesa dos LGBTs, das mulheres, dos negros, dos deficientes físicos etc. Eu propriamente acredito que esta pauta seja “de esquerda” apenas quando envolvem-se relações de trabalho e, explico. Se um dado trabalhador, ganhar menos por conta de sua sexualidade, essa pauta se torna uma pauta trabalhista e, sim, da esquerda. O mesmo no caso da causa das mulheres. Se estas recebem menos por serem mulheres, se precisam de condições especais quando grávidas, quando amamentando etc, sim, passa a ser uma pauta genuína “de esquerda”. O mesmo quanto ao combate do racismo. É uma pauta de esquerda quando por ser negro alguém ganha menos que outro trabalhador na mesma ocupação ou em razão da cor, ser maltratado e assediado pelo patrão etc. Aí sim, tais pautas são de “propriedade” da esquerda.

No geral, leis de proteção as mulheres que punem os agressores com penas maiores, que punem quem ataca homossexuais pela condição de o serem, com penas maiores etc e, o mesmo com relação a população negra, não é uma PAUTA exclusiva da esquerda, mas de toda sociedade e todos os partidos, embora alguns partidos de esquerda, como “petê” e PSOL tenham dela se adonado , o que confunde-as como pautas exclusivas da esquerda, afastando trabalhadores mais conservadores daqueles que existem para contrapor a força do poder econômico contra os mais fracos socialmente, ou seja, os próprios trabalhadores. 

Assim de conceito errado em conceito errado se estimula o pré-conceito e afasta os trabalhadores dos partidos e entidades que existem para sua retaguarda social e trabalhista. Os eleitores desse dado candidato, não todos, são conservadores que querem que tais assuntos desapareçam do debate político. Outros apenas querem armas e posarem de honestos, mesmo apoiando outros desonestos estaduais. Também há os que realmente querem que mude algo, são honestos, votam em gente honesta, na vã esperança de ver algo ser alterado, embora, entendo que pela via errada. Os gays, negros, mulheres com suas lutas históricas existem, eles se organizaram em entidades próprias. Se ajuntaram para defesa dos direitos que julgam ter. Assim como as corporações. É da democracia. Mas nem todas essas defesas são feitas pela esquerda. Erro pensar isso. Eles são eleitores e os parlamentares querem seus votos também, seja de que partido for. 

E quem ganha com isso são os manipuladores midiáticos que conduzem a esse erro e aproveitam para saquear o país em gestos que parecem legais, institucionalizando a corrupção, quando abocanham cada vez mais benefícios tributários e nunca combatem os privilégios, nem os grandes temas que deveriam ser prioridade no debate nacional. Em nome da moral e bons costumes, os direitos como a previdência e trabalhistas, sejam dos trabalhadores públicos ou privados, vão caindo um a um, e o pior, com uma ajudinha da própria classe que se esquece como classe e passam a se ver como patrulheiros da moral cristã, que se somam com com os que são preconceituosos e machistas mesmo, e agora podem assumir. 



Antônio Wagner Oliveira é presidente em Exercício da Central dos Sindicatos Brasileiros em MT, Coordenador do Fórum Sindical, diretor Jurídico do SINPAIG MT.