• Cuiabá, 19 de Novembro - 00:00:00

Após 11 anos de violência doméstica, vítima quebra silêncio e expõe "ciclo de terror"


Da Redação - FocoCidade

“Não é fácil estar aqui hoje, até mesmo porque muitas pessoas me conhecem. Mas, como é um momento de reflexão sobre o assunto, senti que era importante contar um pouquinho da minha história. Eu fui vítima de agressões e maus tratos durante 11 anos. Antes de mais nada quero dizer a todos: não julguem as mulheres vítimas de violência doméstica, porque ninguém apanha porque gosta. Ninguém apanha porque merece. Ninguém apanha porque é mulher safada. Há sete meses consegui finalmente sair deste ciclo de terror”.

O relato, feito em meio a lágrimas e muita emoção, é da psicóloga C.T.B., 41 anos, prestado durante a abertura do Fórum Sobre o combate e a prevenção à Violência Doméstica e Familiar contra e Mulher, realizado na quinta-feira (18), no município de Diamantino.

O evento, que é uma das etapas do Projeto Despertar, realizado pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso, por meio da Promotoria de Justiça de Diamantino, visa promover a integração na implementação da política de atendimento da mulher vítima de violência doméstica e familiar. A proposta é que tanto vítima, quanto agressor sejam inseridos em uma rede de atendimento multidisciplinar.

Um dos principais objetivos desta rede é mostrar às mulheres vítimas de violência doméstica que elas não estão sozinhas e que existe toda uma equipe pronta, preparada e capacitada para atendê-las. Com a rede funcionamento de maneira integrada, a expectativa é reduzir as subnotificações, já que no Brasil estima-se que apenas 10% dos casos sejam comunicados à Polícia.

O medo de serem julgadas, condenadas e ignoradas, somados a ausência de uma rede de apoio que funcione de maneira eficaz, leva cerca de 90% das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar a se calarem.

“Eu tinha muito medo de denunciar meu ex-marido. Só tive coragem de sair do ciclo de violência em que eu me encontrava quando desabafei com uma amiga e ela me disse: você não merece. Você não precisa disso. Ela ficou repetindo isso para mim durante alguns dias até que eu comecei a entender que eu não merecia viver todas aquelas agressões, que meus filhos não mereciam. Até que eu assimilei que não precisava mais conviver com aquele ciclo e sai de casa. Coloquei meus três filhos no carro, nosso cachorro e as roupas que couberam. Sai do interior de São Paulo e vim para Alto Paraguai onde minha mãe mora. Finalmente depois de anos me senti em casa. Me senti protegida e amparada, porque ninguém sabia o que eu passava, nem mesmo a minha família”.

Espancada na lua-de-mel

Conforme ela, as agressões começaram ainda na lua-de-mel. “Foi só o início de um ciclo que parecia interminável de agressões. Ele me espancava, me violentava, tentou me matar afogada e estrangulada várias vezes. Uma vez fiquei 11 dias escondida numa fazenda para minha família não me ver. Meu rosto estava desfigurado. Ele passava gelo e pomada em minhas lesões para eu sarar logo. Depois me batia novamente. Nos últimos 5 anos só eu trabalhava, mas não ficava com nenhum centavo. Ele pegava tudo. Eu só tinha uma calça velha e rasgada para vestir. Não tinha direito a absolutamente nada. Quanto mais eu ficasse parecida com uma mendiga, melhor”, conta.

Quando o marido de C.T.B. mandou uma mensagem falando que tinha comprado as passagens para vir buscá-la em Alto Paraguai ela finalmente deixou de ser uma subnotificação, procurou a Polícia e registrou um Boletim de Ocorrência contra o marido. “Ai eu contei tudo. Finalmente pude falar. Dói muito falar de novo, dói demais. Mas, o que dói também é você ouvir: mas porque só agora depois de 11 anos você decidiu denunciar ele? É muito difícil ouvir isso. Não falei antes porque não tinha condições. Quando a gente sofre todo tipo de violência, a gente vai sendo tão diminuída, tão esmagada que não dá mais conta de reagir pra vida. Por isso eu peço: não julguem as mulheres vítimas de violência, olhem para nós com um olhar diferente”.

É exatamente este olhar diferenciado para com as mulheres vítimas de violência que o Projeto Despertar busca imprimir na rede de atendimento. “O trabalho formal nós já fazemos. É preciso, porém, ir além. Para fazermos a diferença na vida destas mulheres precisamos trabalhar de forma integrada. Hoje atuamos como ilhas, cada um faz um trabalho. Muitas vezes todo mundo está acompanhando o mesmo caso e um não sabe do outro. Daí a necessidade desta união entre as instituições. Aqui em Diamantino, tanto a área de atendimento à saúde, quanto da assistência social, existem e funcionam bem. Porém, não estão sistematizados. Precisamos amparar estas vítimas no todo, saber quem são elas, de que forma são atendidas e quantas conseguimos retornar à dignidade. Estes dados nós teremos com a construção desta rede”, destaca a promotora de Justiça Maria Coeli Pessoa de Lima.

Camisa para esconder hematomas

A psicóloga que sofreu a agressão durante anos destaca que o funcionamento eficaz de uma rede pode ajudar a salvar muitas vidas e a resgatar dezenas de mulheres que vivem neste ciclo de violência familiar. “Quantas vezes que eu fui num posto de saúde com diarreia, pressão alta, machucada e nunca ninguém me perguntou o que tinha acontecido comigo. Se alguém ali tivesse me ouvido saberia que eu estava sendo agredida em casa. Quantas faltas eu tive no serviço. Quantos dias eu fui de manga comprida trabalhar no sol quente porque eu estava com hematomas nos braços. É preciso olhar mais para quem está perto de nós. Um olhar diferenciado pode salvar uma vida”.

De acordo com o promotor de Justiça Daniel Balan Záppia, para que esta rede funcione de maneira integrada, garantindo eficiência no processo de atendimento, será assinado até o fim do mês um Protocolo de Atendimento Multidisciplinar, no qual farão parte: as três Promotorias de Justiça de Diamantino, o Poder Judiciário, as Polícias Civil e Militar, as secretarias municipais de Saúde e Assistência Social, além do Conselho Tutelar.

“Nós – Ministério Público, Judiciário, Defensoria Pública – temos formação jurídica. Porém, para lidar com este tipo de conflito isso não é suficiente, o atendimento tem que ser multidisciplinar. É preciso envolver profissionais que lidam também com conflitos em suas outras matizes, não só na seara judicial, na seara criminal, mas também no âmbito da família, no pessoal e social. Fazer um atendimento limitado a análise do litígio, apenas sob o filtro judicial é ignorar a real dimensão desta violência. O protocolo visa trazer este conhecimento e este procedimento especializado para dentro da rotina de atendimento, hoje ele existe, porém de forma fragmentada, nós queremos unificar este processo e torná-lo célere”.

A promotora de Justiça Gileade Pereira Souza Maia destaca que fenômeno da violência doméstica é drasticamente democrático, ou seja, ele atinge mulheres de todas as classes sociais, não importa a cor, raça ou religião. “Não existe uma vítima específica, mas existe um padrão específico, o da subnotificação. A vítima da violência doméstica é uma vítima diferenciada, ela não é aquela que chega até o sistema de Justiça, que bate à porta da Polícia com sangue nos olhos, com sede de Justiça. É diferente, ela chega com lágrimas nos olhos, por isso precisa ser atendida e acolhida de forma integrada, daí a importância deste projeto”.

Violência no Brasil

Dados do Ministério dos Direitos Humanos (MDH) – referentes ao balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, revelam que de janeiro a julho de 2018, ocorreram no Brasil 27 feminicídios, 51 homicídios, 547 tentativas de feminicídios e 118 tentativas de homicídios. No mesmo período, os relatos de violência chegaram a 79.661, sendo os maiores números referentes à violência física (37.396) e violência psicológica (26.527). Entre os relatos de violência, 63.116 foram classificados como violência doméstica.

Os dados abrangem cárcere privado, esporte sem assédio, homicídio, tráfico de pessoas, tráfico internacional de pessoas, tráfico interno de pessoas e as violências física, moral, obstétrica, patrimonial, psicológica e sexual.

 

Com informações MP