• Cuiabá, 22 de Outrubro - 00:00:00

De melhor lugar do mundo


Eduardo Gomes

Absoluto e silencioso o rio Paraguai passava ficando, escondido pela escuridão da noite, que alguns fachos das lâmpadas na calçada teimavam em iluminar resultando num lusco-fusco que não quebrava a paz do curso do grande formador do Pantanal em seu ponto navegável mais ao norte de Nueva Palmira.

A calçada iluminada pelas lâmpadas, bem ao lado do Bar do Mendo, perto da Praça Barão do Rio Branco, ouvia acaloradas falas convergentes carregadas de bairrismo, bem ao estilo Filhos da Terra de Albuquerque, com todos – inclusive o garçom, enquanto servia à mesa – se desmanchando em amor pela cidade à espera do bicentenário que aconteceria três anos depois.

Não havia a Unemat, nem mesmo seu embrião, o Instituto de Ensino Superior de Cáceres (IESC), estava nos planos da paixão universitária cacerense. Acesso pavimentado, nem pensar; no ‘inverno’, com as águas altas, o Sangradouro cobria a estrada (BR-070) na fazenda do Dr. Hélio Ponce de Arruda e a alternativa era por Barra do Bugres, para se chegar a Cuiabá. Na direita do Paraguai apenas uma cidade, Matto Grosso, que antes se chamava e depois voltou à antiga denominação de Vila Bela da Santíssima Trindade; as demais povoações, Mirassol D’Oeste, Rio Branco, Araputanga, Jauru etc. eram chamadas simplesmente de gleba. Telefonia mais próxima: Cuiabá ou Padronal, perto de Vilhena. A extensão territorial era descomunal: 85.783 km² e a cada município desmembrado encolheu até chegar aos 24.593 km² de agora – área maior que Sergipe – 21.918 km². Os números da população do ontem eram ancorados no chutômetro se comparados com a exatidão da estimativa atual, de 93.882 cidadãos, com base em parâmetros confiáveis do IBGE.

As ruas planas e estreitas cobertas pelo pedalar incessante das bicicletas. Em suas placas de identificação, nomes que remetem à história: Tapagem, Dr. Sabino Vieira. Nesses mesmos caminhos o vaivém dos recém-chegados ao município carregava sonhos de uma vida melhor do que aquela que viviam em seus lugares de origem.

A humilde Pensão Coleta transbordava de tanta gente. Colchões eram jogados ao chão em improvisados biongos de pano. Era gente chegando e gente na estrada, pra chegar. À porta do Supermercado Miura o pessoal das glebas botava a conversa em dia; um grupo mineiro costuma prosear na Casa do Arame. Com um inseparável cigarro apagado, Hugolino Corbelino percorria a estreita calçada da Comandante Balduíno entre o armazém do Manoel Português e a loja do Kassem Mohamad Fares. Do outro lado da rua, Fernandão com seu chapelão pantaneiro a tudo observava.

Cidade acolhedora, Cáceres era uma esquina do mundo com suas colônias árabe, japonesa e boliviana. A vida era associada ao rio. Para demonstrar afeto, o cacerense chamava (ainda chama) o conhecido a quem queria bem, de ‘meu peixe’. Minha mãe – dona Filhinha, não mais entre nós -, mineira, de região amorrada e com pouca água, pescava lambaris no Paraguai perto do cais e se desmanchava pela beleza do grande rio que desce do Chapadão do Parecis para integrar cinco países.

Lindas meninas morenas. Dificilmente se via (e se vê) tantas mulher arrasa-quarteirão quanto em Cáceres. Viajantes se apaixonavam e muitos foram fisgados pela beleza cacerense.

O Aeroporto Nelson Martins Dantas era quase deserto. Todas as quartas o turboélice Avro do Transporte Aereo Militar (TAM) pousava em San Matias, Bolívia. Irmãos dos dois lados da fronteira iam e vinham em paz. Do nosso lado destacamentos do 2º Batalhão de Fronteira do Exército palmilhavam todos os cantos em Corixa, Santa Rita, Casalvasco, Palmarito etc. Na ponte sobre o Paraguai, uma barreira do Exército monitorava tudo. Havia paz.

O bingo era proibido, mas com o jeitinho brasileiro a concessionária Ford dava jeito de realiza-lo em San Matias, cujo acesso não era pavimentado. Nas tardes de domingo o estádio Geraldão pegava fogo.

O bicentenário chegou festivo em 6 de outubro de 1978, encontrou a cidade melhor estruturada e no caminho certo ao amanhã, com o Marco do Jauru e as águas do Paraguai por testemunhas.

Cocaína não era palavra do dicionário cacerense. Nas mesas do Bar do Mendo o sonho com a grande Cáceres era interrompido com o apagar das luzes alertando que em cinco minutos o motor estacionário da cidade – o Monteirão – seria desligado. Apressados goles da saideira enquanto a cidade sonhava com o amanhã. Pena que a droga e seus tentáculos violentaram a alma cacerense num avanço que atesta a ausência do Estado na fronteira e fora dela.

A um passo do adeus ao jornalismo e já saudosista, junto a esse sentimento o de amor a Cáceres – que completa 240 anos – a cidade que sonhava numa época em que a inexistência da droga permitia sonhar no melhor lugar do mundo.

 

Eduardo Gomes de Andrade é jornalista

eduardogomes.ega@gmail.com