• Cuiabá, 12 de Dezembro - 00:00:00

O eleitor desconhecido


Onofre Ribeiro

            Duvide quem quiser duvidar. Mas a paralisação dos caminhoneiros mudou profundamente a eleição de 2018. Tinha uma torneira represada que rompeu. Dela saíram sentimentos muito brabos da população contra algo que no primeiro momento era só discussão do preço do óleo diesel.

            Aos poucos vieram consequências não planejadas como o desabastecimento geral, a paranoia coletiva em busca de combustíveis nos postos de abastecimento. Brasis diversos se confrontando. Interesses se cruzando e um país perplexo. Mais perplexo, porém, foi o governo federal que nunca soube dialogar com movimentos difusos. Sempre lidou bem com associações, sindicatos, confederações, federações, etc. Com gente dispersa não sabe, porque nunca teve uma linguagem política popular.

            O movimento dos caminhoneiros desaguou do ponto inicial do diesel caro para os impostos caros, deles para o custo do Estado brasileiro e, por fim, pra sua imensa ineficiência e crueldade com os brasileiros. Mas isso foi subproduto dos R$ 0,46 descontados em cada litro de óleo diesel. O que marcou mesmo o movimento foi a descoberta de que o mesmo Estado sacrifica a vida dos brasileiros pelos impostos altos que arrecada e não devolve na forma de serviços públicos.

            Então, falou-se de uma coisa muito maior. Foi o que ficou para a população. O inconsciente coletivo assimilou o desabastecimento e percebeu que alguma coisa maior surgia por detrás da cortina levantada pelos motoristas. Um Brasil novo nasceu ali. Pode parecer utopia e o leitor pode até não concordar comigo. A eleição de governador pro mandato tampão no Tocantins revelou ódio e medo do eleitor, marcados por forte ausência às urnas e pelo desamor à eleição.

            O que os candidatos pretenderem dizer aos eleitores não será mais aquele blá-blá-blá genérico. Precisará de conteúdo resistente à descrença e ao ódio. O tamanho do Estado brasileiro e o vergonhoso aparelhamento corporativo dos poderes, dos servidores públicos, das estatais e de todo o estamento público é o tema da vez. Mexer com privilégios está na cabeça do eleitor. Pode ser que ele não racionalize assim, mas ele entende que como está não pra da pra continuar.

            Fico aqui consumindo os meus pobres neurônios pensando como os candidatos a qualquer cargo dirão ao aparelhamento corporativo do Estado que esse tempo da bolha de facilidades e privilégios vai acabar rapidamente. Sinceramente, não gostaria de ser candidato a deputado e nem a senador nesse momento, pelo que terão de pactuar com a sociedade. Se pactuarem, serão severamente cobrados. E serão severamente massacrados pelo poderosíssimo aparelho funcional do Estado. Tempos sofridos!

 

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.

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