• Cuiabá, 19 de Julho - 00:00:00

?Projeto ultraconservador de sociedade exclui LGBTs do ideal de Brasil?, assevera organizador da Parada Gay


Vinícius Bruno ? Especial para o FocoCidade

Nas ruas, o movimento tira a rotina do óbvio. O que se vê são pessoas que espalham alegria, disposição, cores e festa. Enfrentar a avenida em uma tarde quente de primavera, poderia ser a história costumeira de quem precisa encontrar no labor diário a fonte de sustento. Mas neste caso é diferente.

O que se ouve entre os transeuntes são gritos clamando por igualdade em uma nação laica e que não ofereça o perigoso veneno contagioso de ideologias supremacistas religiosas ou política.

A Parada LGBT, realizada na última sexta-feira (22), em Cuiabá, levou mais de 20 mil pessoas às ruas, superando a média histórica de 5 mil participantes ao longo dos últimos 15 anos. Esta foi a 15ª edição do movimento, considerado um híbrido de ato político em formato de festa.

Nada seria mais propício do que uma festa, afinal, ser gay, apesar de todas as forças contrárias, é sinônimo de alegria, conforme já sabiamente traz a origem da palavra na língua inglesa.

E para quem pensa que sair às ruas ao som de divas pops, nacionais ou estrangeiras, se assemelha mais a um Carnaval fora de época do que a ato político, dar-se em espanto ao deparar com o fato de que cada LGBT (Lésbicas, Gay, Bissexuais e Travestis), por si só é um ato político ambulante.

Não haveria de ser por menos, pois a partir do autodescobrimento o LGBT começa a empenhar uma grande luta, primeiro na família, em seguida  na escola, na igreja, no grupo de amigos. Luta que é travada contra o medo, o preconceito, os estereótipos, as falsas impressões, os julgamentos incapacitantes.

Para o presidente do Movimento Livre Mente, em Cuiabá, Gabriel Henrique Figueiredo, 26 anos, e que desde os 20 anos é engajado nas causas LGBTs, sair às ruas é uma forma de celebrar o orgulho gay, não em oposição a ser hetero, mas o orgulho de ser livre para usar as cores que bem entender para pintar o próprio quadro existencial.

Leia a entrevista na íntegra:

Qual sua avaliação da participação da comunidade LGBTS no movimento gay – expressado principalmente na Parada Gay, em Cuiabá?

Tenho percebido que cada vez mais a Parada tem tido a participação de diversos segmentos. O próprio movimento LGBT, com suas diferentes siglas que visto surgir novos grupos que têm se aproximado e participado cada vez mais. Por exemplo, nos últimos anos vimos a criação de um coletivo chamado Mais Pela Diversidade, formado por pais e mães de LGBTs que veio somar com a comunidade, principalmente com a luta pela cidadania e dignidade dos filhos. Este ano também tivemos a participação inédito de um grupo de Ursos (Urso na gíria LGBT denomina homossexuais com determinado tipo físico). Tenho percebido que cada vez mais tem tido a participação da família dos LGBT, dos estudantes entre outros simpatizantes que vêm para este grande movimento que é a Parada, que também é um festa na qual celebramos a luta.

Estado Laico e Cidadania – direito de todas e todos - o tema da 15ª Parada da Diversidade Sexual em Cuiabá é bem sugestivo em tempos nos quais o conservadorismo ganha mais espaços nas forças políticas. Como você avalia a característica laica do país, hoje?  Ainda há muito influencia religiosa nas decisões que afetam o coletivo?

Constitucionalmente temos um Estado que garante a laicidade, com isonomia do Estado em relação às questões religiosas, incluindo a liberdade religiosa de cada cidadão brasileiro e a separação entre Estado e Religião. Acontece que ultimamente temos percebido um aumento do conservadorismo, do fundamentalismo religioso, mas principalmente, no âmbito político, nos espaços públicos, destaco os setores que nos afetam veementemente, que é no espaço público de poder, executivo e legislativo, principalmente. Temos visto crescer cada vez mais as bancadas religiosas, isto é bastante preocupante e alarmante, tendo em vista que estes legisladores têm um projeto de sociedade que não nos representa e não nos insere neste “Brasil”, na visão deles. Uma das problemáticas do avanço deste conservadorismo no espaço político reflete no fato de que as políticas públicas não serão pensadas nem organizadas ou criadas para a população LGBT. Muito menos serão pensadas as políticas específicas que precisam ser criadas para corrigir a desigualdade social existente entre a população não LGBT e nós LGBT. Isso é bastante significativo, porque nós precisamos que a população LGBT seja inserida nas políticas públicas e de políticas específicas. Só considerando algumas diferenças é que nós seremos tratados de forma equânime.

Costumo dizer que a Parada LGBT é uma grande festa sim.

Uma crítica recorrente à Parada da Diversidade Sexual é que a passeata se transformou em uma festa pública, com participantes vestidos com poucas roupas ou com fantasias extravagantes. Até mesmo muitos homossexuais acabam dizendo que o formato que a Parada Gay tem hoje não os representa. As questões levantadas são paradoxais? A Parada como acontece hoje cumpre o objetivo de garantia de direitos humanos e igualdade aos LGBTS?

Costumo dizer que a Parada LGBT é uma grande festa sim. Ela não deixa de ser um ato político se não tiver um tema e se não levar uma mensagem. E a nossa parada tem. Todos os anos fazemos seminários, audiências públicas, fazemos um enfrentamento com uma pauta. Mesmo se não fizéssemos essa conscientização, a Parada continuaria sendo um ato político. Porque nós LGBT’s por existência somos um ato político. Cada LGBT onde estiver, e o que estiver fazendo, estará a fazer política, seja em relação ao próprio corpo, ou política de resistência, de enfrentamento. Vou citar como exemplo uma travesti, cujo silicone é um grande ato político, pois choca, problematiza, leva à reflexão, possibilita a visibilidade, a percepção da existência do diferente e ainda que promova um sentimento de ódio ou de aversão em uma pessoa que seja preconceituosa ou que discrimina, mas produz a bandeira, o aspecto da existência. Ser LGBT é um ato político, e ocupar as ruas para beijar na boca, para dançar, para curtir e dizer “eu sou gay”, ou “eu sou lésbica” já é um grande ato político.

Voltando ao âmbito dos poderes, percebe-se que a chamada bancada “Bíblia, Boi e Bala”, que faz referência as alas evangélicas, ruralistas e conservadoras, tem cada dia mais força nas tomadas de decisões que influenciam a sociedade brasileira. Por outro lado, na Câmara Federal só existe um único deputado assumidamente gay. Quais as dificuldades que impedem que mais homossexuais assumidos conquistem um cargo eletivo?

Nós do movimento LGBT temos discutido e pensado sobre a importância de maior participação política. Vejo que seja muito recente ainda a discussão no meio LGBT sobre a importância de ocuparmos também esse espaço. Nós falamos tanto da importância de ocuparmos espaços, e talvez ainda seja recente o despertar em relação a essa questão.

Temos visto crescer cada vez mais as bancadas religiosas, isto é bastante preocupante e alarmante, tendo em vista que estes legisladores têm um projeto de sociedade que não nos representa e não nos insere neste “Brasil”, na visão deles.

 

Para 2018, temos as eleições presidenciais. Um dos pré-candidatos que tem se destacado nas mídias sociais é o Jair Bolsonaro. Apesar das declarações abertas e públicas sobre temas como homossexualidade, igualdade de gênero entre outros temas ligados às minorias, o referido pré-candidato recebe apoio de muita gente, que chega a formar uma espécie de “torcida organizada”. Essa perspectiva preocupa a comunidade LGBTS?

De fato existe uma massificação do apoio às ideias do Jair Bolsonaro. É uma questão que preocupa, principalmente, pelo fato dele se posicionar simbolicamente em relação à população LGBT, porque ao mesmo tempo em que ele faz um discurso que ameniza, dizendo que apoia nossa comunidade, por outro lado, não reconhece as nossas demandas e as trata como privilégio. Não reconhecer a importância de políticas públicas para população LGBT, ou não inclusão nas políticas já existentes, como exemplo a inclusão na política de educação, a qual inclusão ficou conotada como ideologia de gênero, o que acaba se transformando uma ideologia. Menos pior seria se ele se posicionasse de forma coerente com o discurso. Alguém que diz acreditar que dois homens não devem se beijar, ou que uma travesti não deve ser chamada no feminino, é alguém que tem algo contra gay, sim.

Outra questão que sempre envolve polêmica é a perspectiva religiosa. Muitas religiões acabam afastando os homossexuais de suas fileiras, e quando dizem que aceitam impõem limites ou até mesmo transformações radicais para que possam ser membros de determinada denominação religiosa. Como o gay contemporâneo pode encarar essa dimensão da fé e sua vida particular?

Muitos teóricos do estudo de gênero falam que quando a homofobia opera na sociedade, nos coloca em espaços marginalizados. Ou seja, quando nos é possível ocuparmos algum espaço, nós os ocupamos de forma marginalizada.

Em relação à decisão proferida pelo juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara de Brasília, que liberou a realização de terapias para reversão sexual por meio de tratamentos psicológicos. Qual tua avaliação em relação a isso?

Não há respaldo cientifico para nenhuma técnica no sentido de reversão da orientação sexual. Isso não é possível, tendo em vista que homossexualidade não é doença. No imaginário social essa decisão autentica para as famílias brasileiras que há possibilidade de procurar um profissional. Com isso, naquele momento que um filho ou filha está saindo do armário, ou quando foi retirado ou descoberto no armário, a primeira coisa que pode vir a cabeça destes pais e mães é: posso procurar alguém para fazer esse trabalho de reversão.  E isso acontece justamente no momento mais difícil para um LGBT, que é quando ele precisa de acolhimento, suporte, amor, carinho, alguém que o abrace, o acolha, que segure não mão e diga “estou contigo”, se transformando no momento que ele será criminalizado e escorraçado pelo família ao invés de receber acolhida.  

O jornalista e escritor italiano Humberto Ecco foi categórico ao afirmar que a internet deu voz a muitos idiotas. Hoje, percebemos que qualquer discussão ganha dimensões estratosféricas, principalmente em razão de intervenções poucos inteligentes de alguns interlocutores. Como conseguir driblar essas barreiras e apresentar a agenda LGBT à sociedade de forma eficaz e contundente?

Penso que a internet tem essa caracterização, mas também foi bastante importante para a comunidade LGBT, pois é possível perceber que na internet a comunidade LGBT tem se organizado, sendo um espaço de construção da discussão. Evidente que as barreiras existem, porém existem os lados positivos permitindo o fomento da nossa cultura e identidade, através de fóruns e comunidades, o que possibilidade nosso diálogo e relação entre pares.




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