• Cuiabá, 21 de Janeiro - 00:00:00

Coragem para avançar


Sonia Fiori

Todo jornalista conhece bem e caminha ao ritmo do “quando tá tudo muito bem, tá tudo muito mal” – é bordão nas redações. Mas com certeza o abismo chamado delação do ex-governador Silval Barbosa (PMDB), que coloca tudo muito mal quando o tema é corrupção deslavada, não teve o mesmo sabor de ter em mãos informações para quilômetros de matérias.

Especialmente dessa vez, toca a alma do mato-grossense a tristeza de ver desnudado um sistema corrompido, que roubou milhões, quiçá, bilhões, envolvendo nomes de autoridades, políticos e empresários.

Na forma mais vil da organização criminosa, a engenharia adotada na gestão do ex-governador poupou quase nada da corrupção. Em 4 volumes sendo 271 páginas a descrição global da delação junto à Procuradoria Geral da República (PGR), homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, constam atos ilícitos que atingiram da base ao topo a administração pública em termos de projetos e programas em desvios que alimentaram o perfil mais gritante do “ladrão” de vidas – termo que serve de referência aos que participaram do esquema.

É realmente assombrosa a delação, ou como pontuou o ministro do STF “monstruosa” em menção a grandiosidade do engendramento criminoso. Não é muito dizer que causa indignação, náusea, revolta e a mais profunda decepção.

Ao longo de aproximadamente 20 anos de cobertura na área vi políticos desistirem da carreira. Perguntei o por que, e veio a resposta emoldurada na desilusão: “não dá para fazer parte desse processo”. Vi gente talentosa “jogar a tolha” simplesmente porque cansou de lutar contra a faceta sombria desse cenário. Um desses exemplos preferiu seguir a carreira de advogado e deixar adormecido o sonho de fazer política decente no nível da representação.

Ah sim! A delação de Silval Barbosa não pode ser interpretada como verdade absoluta, respeitados os limites do juízo de valor, claro, e todos terão o direito à ampla defesa. Também há de se levar em consideração a tese da vingança do peemedebista que pode ter usado de artimanha para atingir adversários ou mesmo a corrente aliada, magoado em quase 2 anos de prisão. Mas deixa evidente a prática agigantada do desvirtuamento.

A delação premiada foi a grande “sacada” no momento em que o país pede transformação. Um viva à ex-senadora Serys Slhessarenko, autora da Lei nº 12.850/2013 que tipifica o crime organizado e estabelece normas para a delação premiada.

Na esteira da delação, é preciso ser forte para resistir à ideia de que política não funciona. A verdade vem causando avalanches, mas política é essencial. E essencial são aqueles bons políticos, porque acreditem eles existem, e mantêm-se firmes no propósito de transmudar esse país.

O momento é mais que oportuno para passar a limpo esse sistema, e em que pese a Reforma Política estar distante dos planos da sociedade, é imprescindível a renovação de representantes. Então aos que abandonaram a política pelos dissabores da contrariedade, pensem em voltar. Aos que ainda não tiveram a coragem de colocar o nome à disposição, o façam! E aos que não pensaram nessa possibilidade, comecem!

A hora é de enfrentamento e coragem. Coragem para avançar. O país precisa de um socorro chamado seriedade.




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