• Cuiabá, 23 de Setembro - 00:00:00

?Oligopólio frigorífico distorce mercado da carne em MT?, assevera presidente da Acrimat


Vinícius Bruno ? Especial para o FocoCidade

Um dos principais setores da economia mato-grossense a pecuária de corte gerará em 2017 aproximadamente R$ 9,923 bilhões só no Estado, conforme dados do Valor Bruto da Produção (VBP), divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Apesar da relevância do setor, que está presente nos 141 municípios de Mato Grosso, os últimos meses foram turbulentos para que criadores conseguissem fechar a conta. Isso porque o preço da arroba do bovino no mercado estava sendo vendida na média de R$ 118, enquanto que o custo médio de produção estava em R$ 120.

A desvalorização ocorreu por alguns motivos, sendo o principal deles o oligopólio da indústria frigorífica, cujo principal player é a JBS, detentora de mais de 50% do processamento de carne bovina, em Mato Grosso.

Na entrevista desta semana, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Marco Túlio revela que o cenário começa a mudar, e que o setor encara novas realidades, tais como a produção de carne para nicho e melhoramento da qualidade da carne produzida para atender os dois grandes mercados consumidores, o interno e o externo.

Confira a entrevista na íntegra:

 

De acordo com o Agrostat, o volume de carne exportado por Mato Grosso no primeiro semestre deste ano foi 12,7% menor que em igual período do ano anterior. O fato refletiu na queda de 7,3% no valor gerado pelas exportações de carne bovina pelo Estado no período. A Operação Carne Fraca influenciou nesta queda? 

A Operação Carne Fraca teve reflexos imediatos no mercado, principalmente entre os importadores dos produtos brasileiros. Porém, com a atuação rápida do Ministério da Agricultura, a situação foi revertida e a relação comercial reestabelecida. Assim, somente no mês de abril percebemos uma queda mais acentuada nas exportações de carne. O Imea aponta que a média mensal da exportação de carne em 2016 foi de US$ 74,2 milhões e este ano o valor é US$ 78 milhões.

O preço do boi de corte no mercado interno já recuperou a rentabilidade novamente, ou ainda se vive um momento no qual as contas - custo de produção e preço de venda - não fecham? 

Desde março a arroba do boi acumula quedas nos preços. Comparando com mesmo período de 2016, hoje temos uma desvalorização de 12% e no acumulado deste ano são 9%. A última semana foi a primeira, de uma sequência de 11, sem quedas no preço da arroba. A estabilidade é consequência da redução da oferta de animais e provavelmente de algumas medidas adotadas, como a redução do ICMS. Esperamos que as ações para o fortalecimento da cadeia da carne continuem em andamento, como medidas sanitárias, econômicas e de mercado.

Quando bem atendido, o consumidor paga o valor agregado.

O oligopólio na indústria frigorífica foi um fator que prejudicou a cotação da carne no mercado interno? 

O que verificamos é que o setor da carne em Mato Grosso ficou, por uma década, concentrado nas mãos de quatro grandes grupos, o que distorce o mercado. O governo precisa criar políticas que permitam que mais empresas atuem e conquistem mercados. Isso pode ser por linhas de financiamento, capacitação empresarial e vigilância sanitária eficiente em todas as esferas.

As desavenças entre criadores e frigoríficos é algo histórico, principalmente em relação a remuneração ao criador. Que cenário seria ideal para que os preços atendam as expectativas e investimento dos criadores? 

Não existe cenário ideal, existe o mercado livre. Existem consumidores para nossa produção, existem empresários querendo investir, existe produção de qualidade na pecuária de corte, falta o mercado ser livre e aberto para que a concorrência regule a oferta e a demanda.

O que verificamos é que o setor da carne em Mato Grosso ficou, por uma década, concentrado nas mãos de quatro grandes grupos, o que distorce o mercado.

Em 2016, o governo do Estado criou o Imac (Instituto Mato-grossense da Carne), com intuito de certificar a carne produzida em Mato Grosso com um selo de qualidade. Em tese, o instituto agregaria mais valor à carne, na medida em que os elos da cadeia de produção da proteína animal aderissem ao programa de certificação. Todavia, percebe-se a ideia proposta pelo Imac não está indo à frente. O que falta para isso ser uma realidade? 

Não acredito que ideia não tenha ido para frente. O Imac é uma realidade e conta com a participação dos produtores e da indústria, o varejo vai aderir conforme a aceitação dos consumidores. Acontece que um programa como esse, no Estado que é o segundo maior processador de carne do país, requer tempo e investimento. Acreditamos que até o final da gestão do Pedro Taques o selo estará estampado nos cortes que chegam aos consumidores.

Existe predisposição dos criadores em fazer investimento para produção de carne com maior valor agregado? E os frigoríficos estão dispostos a pagar mais caro por essa carne premium? 

Não só existe a predisposição, como pode ser comprovado com números. Os investimentos são muitos e não param. Desde genética, alimentação, manejo, todas as áreas da pecuária de corte estão em constante atualização para atender as demandas do mercado, que são por carne de qualidade, produzida de forma sustentável e em menor tempo. São esses investimentos que têm possibilitado os avanços registrados, como o ganho de 17% no peso da carcaça, o aumento de 1 para 1,25 número de animais por hectare e redução na idade de abate (nos últimos 10 anos, a participação de animais com até 36 meses passou de 35% para 63% do total abatido). Fora isso, ainda atendemos mercados mais exigentes, como o europeu. Mas isso realmente tem um custo e nem sempre o produtor é remunerado por isso. Sabemos que o consumidor exige e está disposto a pagar por isso, mas nem sempre isso é repassado ao produtor.

[...] em muitos momentos os custos superaram a receita e há uma desproporção na evolução dos preços da arroba e da carne no atacado e no varejo.

Produzir para nicho de mercado é uma boa saída estratégica para se livrar na produção em massa? O senhor, que tem experiência na produção de proteína animal para nicho, atesta que é algo rentável? O mercado consumidor está apto para receber produtos mais caro, em razão da excelência e da procedência? 

Sim. Em todos os segmentos existem nichos e é preciso identificar qual se quer atingir e se preparar para atender a demanda. Assim como existe o mercado popular, existe aquela parcela que quer produtos diferenciados e estão dispostos a pagar o preço justo pelo produto. Quando bem atendido, o consumidor paga o valor agregado.

A crise provocada em relação a carne, principalmente em razão dos abcessos provenientes da vacinação é solucionável em um pequeno período de tempo? As medidas propostas pelo MAPA foram suficientes? 

A Acrimat, juntamente com a Confederação Nacional da Agropecuária e com apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) formularam uma série de medidas que acreditamos que poderão melhorar a qualidade da vacina e evitar tantas reações nos animais. Também trabalhamos, junto com o Ministério da Agricultura e demais entidades envolvidas, no processo de retirada da vacina contra aftosa.

Na cadeia da carne bovina, quem acaba pagando mais caro pelo produto: o produtor (que cria o gado que exige cada vez mais um custo de produção mais caro), a indústria (que a qualquer falha no processo tem as vendas suspensas), o consumidor (para o qual o preço oscila em cada crise nos outros dois elos)?

O que posso falar, enquanto produtor, é que em muitos momentos os custos superaram a receita e que há uma desproporção na evolução dos preços da arroba e da carne no atacado e no varejo, como já foi apontado nos estudos realizados. De 2005 a 2011, a arroba e o atacado tiveram um aumento de 87%, enquanto no varejo o aumento foi 130%.

Mato Grosso já possui um rebanho de aproximadamente 30 milhões de cabeça de gado. Este é um número que continuará crescente nos próximos anos? O Estado está pronto para atender a esta demanda? 

A pecuária de corte mato-grossense está pronta para atender a demanda mundial, sem precisar abrir novas áreas. Com tecnologia e aumento de produtividade, podemos aumentar nossa produção de carne e a qualidade do produto. Sistemas de integração lavoura-pecuária, melhoramento genético e intensificação da produção são uma realidade, mas as pesquisas não cessam e ainda podemos investir mais. Para isso só precisamos de demanda e mercado.