• Cuiabá, 21 de Julho - 00:00:00

Pra não dizer que não falei das flores


Sonia Fiori

A atitude do deputado Gilmar Fabris (PSD) de levar ao Ministério Público denúncia contra o ex-diretor do Hospital Regional de Sorriso, Roberto Satoshi Yoshida, chama atenção e remete a uma análise mais profunda, necessária.

Alegação do parlamentar: Roberto Yoshida mantinha contrato com a administração pública e recebeu nos últimos dois anos e três meses aproximadamente R$ 3,2 milhões.

Fabris pontuou que a Lei Complementar 04/1990, que trata do Estatuto dos Servidores Públicos, cita expressamente no artigo 144 que é proibido ao servidor público se valer do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem em detrimento da dignidade da função pública.

Não é difícil de entender que o fato de o ex-diretor ter chorado diante das câmeras de TV, e que chegou a ser notícia nacional, irritou o parlamentar que na tribuna do Poder Legislativo, o atacou, chamando-o de mentiroso.

“Aquele médico é um mentiroso. Você vê o choro dele: ele chora na hora que a televisão mostra, na hora que some a TV, acabou o choro. Ele é desse tipinho de gente que está tendo no Brasil. Ele chorou para comover. Aquilo que ele fez foi pra criar uma notícia nacional.” 

De pronto, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM), Sindicato dos Médicos de Mato Grosso (Sindimed) e Associação Médica de Mato Grosso emitiram uma nota de repúdio ao deputado.

Gilmar Fabris pertence ao PSD, partido sob o comando do vice-governador Carlos Fávaro, vinculado umbilicalmente à base do Governo Pedro Taques.

Fazer a defesa do Estado, mesmo numa seara em que a saúde pública está em crise, em que pese o esforço pontuado pelo Executivo para sanar as pendências, merece bom senso. Atribuir uma fala emocionada do ex-diretor a simplesmente um interesse próprio, precede a justiça?

Quem é dono da isenta régua para medir a distância entre a verdade e o mais sombrio sarcasmo? Vamos pensar.

Que a Saúde está doente, todos sabem. Que o Governo admite as pendências e diante da situação emergencial busca alternativas, todos estão cientes. Mas daí os que estão na linha da defesa tomarem posse de mecanismos para “fritar” vozes críticas, não parece ser inteligente. Em tempo, se o ex-diretor incorreu de irregularidades, que seja posto a julgamento.

Há de se ressaltar que o ataque vil a uma posição contrária não só é incoerente, golpeando a democracia, como se assemelha a uma guerra fria e calculista quando se vasculha o íntimo do adversário para miná-lo a qualquer preço, mesmo que isso custe os últimos traços de caráter. É esse o instrumento para se resolver impasses no sistema?

Ademais, não seria muito perguntar por que só depois do “choro” do ex-diretor apareceram as tais irregularidades.

É preciso ainda discutir o choro do médico e seus argumentos, já que se vislumbra a chance de ter recebido dinheiro para prestar serviço a pedido do próprio Estado numa relação com OSS.  Em muitas situações a gestão pública pode se utilizar de contratos com empresas para não constar nos cálculos dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF, nas despesas com salários do funcionalismo.

Em suma, o médico defendeu suas convicções e o deputado as convicções do Estado. Devem ser discutidas as convicções do povo, do doente que tem direito segundo a Constituição Federal à saúde, Educação e segurança.

Resta mostrar onde este direito está respeitado, seja pela União, pelo Estado ou pelos Municípios.  Em tempo, o presidente da Assembleia Legislativa, Eduardo Botelho (PSB), anunciou com pompa e circunstância dia desses que neste ano e em 2018 o Poder devolveria R$ 80 milhões de seu duodécimo para que o Estado pudesse aplicar em obras de asfalto.

Esse montante de R$ 80 milhões somado com os R$ 70 milhões já liberados pelo Estado à Saúde saldaria a maior parte do passivo do Governo que deve para hospitais, laboratórios, médicos e municípios. Hora de repensar atitudes, ou alguém sabe aí fazer Saúde sem recursos e profissionais como médicos?

Nessa reflexão, bem cabe Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei das flores... “Pelos campos há fome, em grandes plantações, pelas ruas marchando, indecisos cordões, ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão. Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos irmãos, braços dados ou não...”




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