• Cuiabá, 15 de Novembro - 00:00:00

?Muitos cuidam da saúde física, mas poucos da saúde mental?, alerta psicólogo


Vinícius Bruno ? Especial para o Foco Cidade

Encurralados pelas próprias armadilhas existenciais, os seres humanos vivem um contemporâneo marcado pela incisiva presença de doenças psicológicas. Transtornos como stress, síndrome do pânico, depressão entre outras psicopatologias começam a fazer parte do rol de problemas que a maioria da população vai enfrentar em algum momento da vida, se já não enfrentou.

Cura não é a palavra usual na comunidade científica psicológica, mas sim tratamento. E para se tratar, o paciente precisa, antes de tudo, tomar consciência de si mesmo, vencer preconceitos e retomar o transcendente processo de descobrimento do sentido da vida.

Vida. Eis o que tenta preservar e ajudar a conquistar o psicólogo Douglas Luiz Rocha de Amorim. Com 29 anos de idade, atua como psicólogo clínico em Cuiabá, além de ser especialista em Gestão de Pessoas – Coach, estendendo a atuação profissional com palestras em empresas e instituições.

Amorim também é escritor, sendo autor do E-book “Comportamento Obeso e Bariátrico”, publicação para ajudar pessoas no tratamento contra a obesidade e no processo pré e pós cirúrgico.

Em recente ensaio fotográfico, Amorim foi modelo para retratar doenças psicológicas como bipolaridade, síndrome do pânico, stress e o suicídio.

Quanto as características dos problemas citados, Douglas enfatiza que entre as causas pertinentes está a preocupação exacerbada sobre a opinião alheia, por sua vez, polarizada na multiplicidade de plataformas das redes sociais, mal que pode ser revertido com a vivência intensa e sincera do hoje.

Confira na íntegra a entrevista

Foco Cidade - Por que as doenças psicológicas estão cada vez mais presentes no cotidiano hoje? Quais causas estão sendo preponderantes para isso? 

Douglas - Segundo a OMS até 2025 depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Isso só é possível afirmar por conta das estatísticas. Daí vem uma pergunta: os transtornos mentais aumentaram, ou apenas são mais diagnosticados. A psicologia no Brasil tem pouco mais de 50 anos, a depressão pouco mais que isso. Até então as pessoas nem tinham um nome para o que sentiam, e isso é imprescindível para sabermos exatamente com o que estamos lidando. Uma epidemia. A vida moderna, o desejo de viver modelos ideais, presentes nas redes sociais, o desejo de ser amado por todos, aceito, encaixado, faz com que as pessoas usem da comparação, colocando-se como inferior. A pressão para ser “bem sucedido”, eternamente jovem, bonito entre outras coisas. A falta de habilidade em lidar com frustração, impossibilidade, espera, dor, tristeza, perda, é a maior questão.

Foco Cidade - Recentemente o senhor protagonizou um ensaio fotográfico sobre as doenças psicológicas mais evidentes como a depressão, a bipolaridade e a síndrome do pânico. O que te levou a fazer este tipo de trabalho? 

Douglas - Eu queria transmitir de modo artístico os transtornos mentais. Convidar à empatia aqueles que nunca sofreram, e acolher aqueles que sofreram. Sabe é muito complicado para o sujeito acometido conseguir traduzir e explicar o que está sentindo. Muitas vezes ele prefere fingir que nada está acontecendo para não ser julgado como fraco, que é só coisa da cabeça dele. Pelos feedbacks que recebi das pessoas, mesmo as que nunca sofreram, puderam sentir um pouco a angústia que é ter e muitas vezes nem saber o que é. Aliás, essa também foi uma das intenções com o ensaio, informar sobre a doença e informar que há tratamento, há saída.

Foco cidade - O que pode ser considerado mais grave dentre os problemas psicológicos? Por quê? 

 Prevenção é o caminho mais curto para a saúde. Prevenir tem a ver com se antecipar. Não ignore os sinais

Douglas - A questão mais grave é não saber o que está acontecendo. Até o século XVIII e mesmo o XIX os transtornos mentais eram “tratados” de modo espiritual. Com rituais de exorcismo, passe. Tratado como trabalho de bruxaria e infelizmente muitas pessoas eram mortas. A informação liberta e aponta caminhos de tratamento. A falta dela condena as pessoas àquela condição, não dá possibilidade nem da esperança. Acredito mesmo que a informação é importante para todos, para quem sofre e para quem tem um ente querido em tal situação.

Foco cidade - Como conquistar saúde mental? 

Douglas - Estamos num momento de total consciência do que é ser saudável, estar saudável. Isso é incrível! As pessoas aprenderam os caminhos para melhorarem-se. E todos se orgulham de estarem cuidando de suas saúdes físicas. Você observa as manifestações nas redes sociais de fotos na academia, correndo nos parques ou mostrando uma dieta nova. Mas, você não vê ninguém se manifestando dizendo: “Gente, eu era uma pessoa extremamente ciumenta, sofria muito com isso,  e depois que comecei a tratar isso na psicoterapia estou mais seguro compreendendo as raízes. Hoje estou melhor para meus relacionamentos.” Isso acontece porque ainda há um tabu para ser quebrado. De que a busca por psicoterapia é para quem é fraco, está doido, ou mesmo para casos extremos. Quando na verdade, assim como o esporte, o exercício físico, a alimentação mais saudável é para prevenção, aumento da qualidade de vida e compreensão se está no melhor caminho para si mesmo em suas decisões, emoções. A saúde mental vem da prevenção e do desejo de olhar pra si mesmo, se amar no mundo e nas possibilidades.

 Foco Cidade - O que temos feito de errado no nosso dia a dia que nos tem levado a perder o sentido da vida? 

Douglas - Temos feito morada no que achamos que acham de nós. Feito morada no passado, em suas dores, e num catastrófico imaginado futuro. Ao invés de viver no presente. Onde está. Viver das possibilidades, do que se pode alcançar. Viver cada momento como sendo único e recheado de possibilidade de significação. É a era do prazer, do tédio, queremos ser surpreendidos, agradados, satisfeitos. E nada pode preencher se não o significado que nós mesmos damos às coisas, pessoas e momentos. É muita exigência e pouca oferta. E com oferta, quero dizer dar significado. Porque para existir é necessário dar, não ficar procurando.

Foco Cidade - Doenças como stress, depressão, síndrome do pânico entre outras mazelas psicológicas têm cura? Como alcançar essa cura? 

Douglas - Dentro da psicologia falamos sobre tratamento e não cura. Porque a cura teríamos que estabelecer a certeza que ela deixaria de existir. Em muitos casos isso é fato. O transtorno mental deixa de existir após tratamento. Em outros casos ela é eliminada e o sujeito ganha habilidades de lidar melhor com ela em suas manifestações. Sendo assim se torna uma questão não mais paralisante. É possível viver melhor a partir do tratamento, mas, também é possível viver sem para o resto da vida.

Foco Cidade - Ainda existe muito preconceito do grande público em fazer acompanhamento psicológico? O que motiva isso? 

Douglas - Sim. O que motiva é o receio de parecer fraco ou doido. Ou ainda, daquilo ser apenas um “bate-papo” que não resolve nada. De que está jogando dinheiro fora. Que pode simplesmente esperar passar. Há também quem considere uma coisa pra rico. Como se fosse um supérfluo. Propus-me como missão pessoal alcançar com a psicologia todas as pessoas. Por isso criei em fevereiro de 2016 o perfil no instagram @UmPsicologoEmCuiaba e nele passei a me aproximar das pessoas. Levando a elas reflexões e abertura à compreensão de suas questões através da busca da psicoterapia. Deixar a porta aberta para que saibam como um psicólogo pode ajuda-las. As vezes pessoas me perguntam através do Messenger, direct ou mesmo WhatsApp se elas “precisam de psicólogo, eu respondo que elas merecem um.

Foco Cidade - O que fazer para prevenir contra os males psicológicos do contemporâneo? 

Douglas -   Prevenção é o caminho mais curto para a saúde. Prevenir tem a ver com se antecipar. Não ignorar os sinais, compreender os próprios sinais. E buscar informações. Somos produto do nosso próprio aprendizado. Ensino em minhas palestras o princípio fundamental da Psicoterapia Cognitiva Comportamental que diz que tudo que somos, fazemos, sentimos, pensamos em algum momento aprendemos. Então é possível aprender diferente. Aprender melhor.