• Cuiabá, 25 de Maio - 00:00:00

Nada se tem na Bruaca

As especulações norteiam o jogo político-eleitoral no país. Especulações associadas a plantações de notícias, e estas, quase sempre, pautam as conversas sobre as eleições deste ano. E não são quaisquer conversas, a exemplo das muitas que se tem nos botequins, pelas calçadas ou nos pátios de estacionamentos. Mas também nas academias e nos programas especializados de rádio e de TV, onde igualmente se tem o achismo. Achismo que acaba influenciando uma porção de eleitores. Não deveria, porém o é. Infelizmente. Pois uma grande parcela do eleitorado é constituída de votante-torcedor, e esta, dividida tal como as torcidas, é claro, ora ovaciona ora apupa. E, em meio a isso tudo, os atores mais afoitos se destacam. Ganham projeção. Não se fala em mais ninguém. Apenas neles. Como se o próprio jogo, sem eles presentes, não existisse. Ideia falsa. Mas, de tanto falar neles e no que eles dizem, ainda que sem importâncias, muito tendem a acreditar que a inverdade é, de fato, verdadeira. O pior de tudo não é exatamente transformar o irreal no real, o falso em verdade. E sim, estranhamente, a inexistência de alguém que surja para retirar o véu, para desnudar o tal cenário das disputas.

Até os partidos nada fazem. Eles, aliás, se valem também disso. Pois, ao longo do espaço de uma eleição para outra, nada fizeram para construir seus discursos, programas e ações. O que explica ficarem sempre na espera de alguém, com capacidade eleitoral suficiente para ganhar a eleição, e, desse modo, conquistar ou manter o poder de mando. Ainda que não tenha ideia, nem teve, tampouco tem ou terá para resolver ou solucionar os problemas ou parte deles que afligem o Estado e a sociedade. Reedita-se, então, a improvisação. Esta, na verdade, encontra-se muitíssimo longe de ser exceção. Ela é, evidentemente, a regra. Uma regra antiga. Não questionada. E, por isso, norteia todos os governos. Foi assim no passado, recente ou bem distante, o é no presente, e, certamente, será a partir de 2019. E não precisa ser um adivinho, tampouco uma cartomante. Bastam que se dê o trabalho de ver os noticiários, os encontros entre partidos e seus integrantes, regados de boas comidas e bebidas. Com muitas falações. Falam no nome “A”, ou “B” ou “C”. E são em torno dos fulanos e dos sicranos que as alianças são alinhavadas. Nunca, infelizmente, das ideias, dos projetos. Estes e aquelas chegam a ser ditas, e até usadas como palavras-chave nos discursos enfadonhos. Nada além desse pouco. Um pouco que se resume ou se restringe nas figuras, cujos interesses particulares são vendidos como se fossem de toda a sociedade.

Tem-se aqui o discurso ideológico. Embora pouquíssimos os que a usam sabem de fato do que se trata, pois jamais ouviram tais palavras, ainda que saibam o alcance de suas palavras quando chegam ao seio do eleitorado. Aprenderam dos marqueteiros, os quais se prestam ao trabalho de transformar os candidatos em mercadorias, e, então, vendê-los a um consumidor bem especial, o eleitor. Este, diferentemente, de quando vai ao supermercado fazer as compras do mês, quase não tem opções de escolhas. Ainda que o tivesse, não as escolheria pelo conteúdo, mas pela embalagem. A embalagem passa a ser mais importante. Pois o horário de TV e de rádio não permite ao eleitorado conhecer o que os candidatos carregam nas bruacas. Muito menos os debates que virão, os quais se prendem tão somente a ataques pessoais. É isto.

 

Lourembergue Alves é professor e articulista.



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