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A palavra que somos

  • Artigo por Emanuel Filartiga Escalante Ribeiro
  • 19/01/2018
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É verdade que as palavras mudam, que as grafias se modificam. Até seus significados se alteram; a palavra tem história. E a vida se transforma pra nunca perder a magia.

Em seus escritos, Freud conta que “uma pessoa leiga teria, certamente, dificuldades em entender como é possível eliminar patologias da mente e do corpo somente pelas palavras. Certa vez, uma dessas pessoas perguntou, atônita, a Freud, quer que eu acredite em mágica?” O leigo adivinhou, afirmou Freud, pois as palavras de nosso cotidiano “não são outra coisa senão um feitiço que perdeu o efeito”.

Uma jornalista perguntou recentemente como as palavras podem voltar a dizer no Brasil. Ela reconheceu essa interdição, esse exílio das palavras; como cartas que não chegam ao seu destinatário ou como árvores ocas, que a qualquer brisa tombam.

Tem que ter cuidado com a palavra, muito cuidado... como se cuida de um bebê. Aprender a falar é coisa grande, escrever é coisa extraordinária, aprender a usar a palavra, conversar, dialogar; afetar a alma por meio de palavras, para isso precisamos devolver o seu poder originário de feitiço.

Para os Guarani o sintagma “palavra” significa “voz, fala, alma, nome, vida, personalidade”. Lá na floresta, é o mesmo dizer “minha palavra sou eu” ou “minha alma sou eu”. Para eles palavra é “palavra que age”. A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra.

As palavras que somos, “engendradora de nuestra persona, que habla en nosotros el propio, inconfundible lenguaje que, como la sangre, nos constituye y nos mueve, y estamos inscalados en ellas como em el aire que respiramos”. Indicam-nos, fala que somos quem somos, são raízes que nos seguem.  “A palavra circula pelo esqueleto humano”. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. A palavra é um antídoto contra a morte.

Nas cidades, nos Poderes, nas “autoridades”, estranhamente, as palavras que se dizem já não dizem. As palavras não têm mais vida. Não vemos mais o ouvido atento ao ruído da voz que vem nos alimentando desde que nascemos. Há um grande desinteresse pela sua magia, há uma rudeza e desamor no seu trato.

A magia da palavra condena o cinismo do discurso, o falsear da verdade, o iludir o incauto, o golpear o fraco e indefeso, o soterrar o sonho e a utopia, a falsa promessa, o testemunhar mentirosamente, o falar mal dos outros pelo gosto de falar mal. O fantástico da palavra é a que se sabe traído e negado nos comportamentos grosseiros, na rudeza imoral, na perversão hipócrita da pureza em puritanismo; que se sabe afrontada na manifestação discriminatória e autoritária dos “senhores da verdade”.

Chegamos num lugar de incomunicação, não diálogo, “inconversa”: adversários políticos, em vez de falarem, desqualificam uns aos outros; torcidas organizadas, em vez de incentivarem seu time, lutam, brigam, até matam adversários; no trabalho, operadores do direito ofendem-se, em vez de homenagear a vida; órgãos fundamentais se dividem em grupos e discutem pelo institucional, em vez de buscar sua missão que é muito mais importante: é o próprio ser humano.

Nesse contexto, onde a palavra está em crise, não há o diálogo. Paulo Freire, com toda sua pedagogia, falou:

Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.
Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo.
O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir, se rompe, se seus polos (ou um deles) perdem a humildade.
Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim?
Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros “isto”, em que não reconheço outros eu?
Como posso dialogar, se me sinto participante de um “gueto” de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são “essa gente”, ou são “nativos inferiores”?
Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?
Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela?
Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?
A auto-suficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não tem humildade ou a perdem, não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos, há homens que, em comunhão, buscam saber mais.

O nosso afastamento da palavra e sua magia nos faz mal.  Por isso, os rezadores e as rezadoras (Guarani) se esforçam para “trazer de volta”, “voltar a sentar” a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde. Pois, quando a palavra não tiver mais lugar, a pessoa morre e “torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais (ñe’ẽngue, ãngue), um ex-lugar.”

Talvez as crises da vida são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra, como querem os Guarani.

Procuremos a palavra que nos salve. E lembremos que “o amor é palavrador, gorjeante: o amor é eloquente, e quem cala ao amar não tem remédio, é anormalmente taciturno”. E como quer  Guimarães Rosa:

Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.



Emanuel Filartiga Escalante Ribeiro é Promotor de Justiça em São Félix do Araguaia



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