• Cuiabá, 24 de Abril - 00:00:00

Espelho brasileiro

O chamado “jeitinho brasileiro” criou uma distorção ética e moral no caráter das pessoas e nos faz ter a tendência de indignarmos e acharmos horroroso, absurdo e escandaloso tudo aquilo que os outros fazem de errado. Mas em circunstâncias semelhantes repetimos os feitos que condenamos e sempre justificamos com uma frase de efeito tipo “todos falam dos tombos que levei, mas ninguém sabe das pingas que tive que tomar”, ou “amigo é amigo, FDP é FDP”.

João Alberto Souza, presidente do Conselho de Ética do Senado, arquivou o pedido de cassação de Aécio Neves. Justificativa: não há provas e as que existem são forjadas. Pode isso? Vamos ao espelho: quantas vezes brasileiros comuns fazem isso? Afinal, amigo é amigo, FDP é FDP, né?

Quatro dos setes ministros do Tribunal Superior Eleitoral inocentaram a chapa Dilma/Temer por “falta” de provas, quando todos sabem que na verdade houve “excesso” de provas. Militantes do PT arrecadaram dinheiro para ajudar Jose Dirceu pagar fiança, lembra? Os mesmos são partidários do ex-presidente Lula. Eles sabem a verdade, mas são próximos, de alguma forma, do “homi”, mesmo aqueles que nunca pegaram na mão dele, como vão ficar contra ele? Afinal, amigo é amigo, FDP é FDP.

Nos meus quase trinta e três anos de professor, recebi inúmeras vezes mãe e/ou pai de alunos mentindo em nome do filho. Algo como ele(a) “estava doente’, “viajou e não chegou a tempo”, ou outras das mais absurdas mentiras para que o filho fizesse uma prova que tinha perdido. Depois o próprio filho conta na sala de aula que não tinha vindo fazer a prova porque não tinha estudado. Mentiram para ele ter oportunidade de fazer sem ter que pagar. São centenas de casos similares. Na média e no geral defendemos a moral e a ética, mas no individual o que prevalece são os nossos interesses.

O que assusta um brasileiro é o fato de não estar envolvido afetivamente em uma coisa que pode se tornar pública e ter repercussão. Caso contrário, um número significativo de pessoas estaria dizendo que Gilmar Mendes, Renan Calheiros, Aécio Neves, João Vaccari Neto, Guido Mantega, Loures, Joesley, Eike, Marcelo Odebrecht, Lula, Jucá e etc. é que são amigos de verdade. Temos a tendência de sermos éticos publicamente e prevaricar na intimidade do particular. Afinal, amigo é amigo e FDP é FDP.

Quantos brasileiros que ao necessitar de um documento de uma repartição recorre a um amigo influente ou que trabalha lá? Não é o mesmo que ocorre em Brasília ou nas demais unidades da federação? A maioria das pessoas que vendem o voto ou votam por interesse individual de pequenas vantagens também se escandalizam com o preço das eleições. Se “amigos” são para essas coisas, por que ficamos escandalizados?

É hora de encaramos o espelho e perguntar: “espelho, espelho meu, os homens do poder são mais corruptos que eu?”. Se um político falar a verdade, somente a verdade, no palanque ele seria eleito? Se aparecer um candidato realista, que não seja otimista, ele terá seu voto? Logo concluímos que Brasília não é de verdade. Brasília é um enorme espelho que projeta a ética e a moral cotidiana da maioria dos brasileiros. Ouvir o que vem de lá é o eco de nossa voz. Ver o que ocorre lá é estar olhando nossa imagem e semelhança de forma ampliada.

Um país que sacrifica o trabalhador e criminaliza o empregador vai continuar construindo presídios até que algum dia metade da população esteja presa e o resto só não estará porque estarão no poder, mandando e fazendo leias que os absolvam. George Carlin escreveu que “a honestidade pode ser a melhor política, mas é importante lembrar que aparentemente, por eliminação, a desonestidade é a segunda melhor política”. No Brasil insistimos em viver esta frase, porque aqui para os amigos em primeiro lugar vem o jeitinho.

Como afirmou o historiador Leandro Karnal: Não existe país no mundo em que o governo seja corrupto e a população honesta e vice-versa”. Brasília é um espelho com repercussão mundial. Saber o que fazemos no nosso dia a dia nos sufoca a alma. O brasileiro “jeitoso” moralmente, “indignado” politicamente está triste e desanimado porque nunca tinha visto sua própria imagem no espelho. Afinal, “nunca antes na história deste país” tinham me mostrado um espelho.

 

João Edison é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso.



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