• Cuiabá, 22 de Junho - 00:00:00

Vendem-se sonhos

Um sonho, por favor. A senhora quer um pequeno, médio ou grande? E há diferença? Evidentemente há: o sonho grande é aquele que dará a sensação de estar ocupada a noite toda. Mas durmo mal. Bem, então compre um médio. Perfeito, vou querer um sonho médio então. Bom ou mau? Como assim?

Perguntei se a senhora quer sonhar com coisas bonitas ou feias. Ah sim...e quem quer ter pesadelos?! Muita gente, ora. Há clientes que pedem muitas coisas diferentes, suplícios de toda a natureza. Não é o meu caso. Pois então quer um sonho bom. É isso, um sonho bom. Com que tema? Posso escolher qualquer tema que eu quiser? Não, senhora. Temos os temas listados aqui no cardápio, dê uma olhada. Já escolhi – quero um sonho de amor. Com homem? Com homem, claro, não me dou com certas modernidades. Pois não.

A senhora quer um homem mais jovem, da mesma idade ou mais velho? Eu sempre fiquei com homens mais velhos, mas no sonho, vou tentar um mais jovem. Naturalmente. Naturalmente o quê? Está me chamando de velha? É claro que não. Estou a falar apenas que, nos sonhos, temos a tendência de nos permitir coisas inéditas. Pois bem, quanto fica o sonho? São dois mil e quinhentos. Quanto? Dois mil e quinhentos. Mas isso é um absurdo! Sinto muito, senhora, mas é o preço. Dois mil e quinhentos por um sonho com um rapaz mais jovem? O amor é caro, a senhora há de convir. Pensei que fosse de graça. Não, senhora.

O amor é das coisas mais raras. Isso é fato. Então, concordamos. Mas dois mil e quinhentos é demais para o meu bolso. A senhora pode optar por um homem mais velho, o que parece? De forma alguma. Vou lembrar do meu ex-marido que fez do casamento um inferno. Pense comigo: a senhora vai sonhar com um amor perfeito e não terá que pagar por roupas novas, maquiagem, bolsas e sapatos, percebe a economia? Sem dúvida, mas não tenho esse dinheiro comigo. O amor então fica para depois? Eu vivo adiando, me falta a vontade e, quando a tenho, carecem os meios. Nesse caso, a senhora pode mudar de um tema para outro, mais barato.

Qual o senhor me recomenda? Veja aí no lado esquerdo do cardápio. Viu? Vi sim: sonho de voar, sonho de ser rica, sonho de escalar montanhas, sonho de ser invisível, sonho de cantar ópera, sonho de nadar com baleias. Sim, senhora, estes estão abaixo de oitocentos. Ainda assim, é muito dinheiro por um sonho, ainda mais um médio. Compreendo. Temos, por fim, uma promoção. Promoção? Foi o que eu disse. Quais os sonhos mais baratos? Aqui estão os sonhos políticos.

Como é que funcionam eles? São sonhos curtos, onde o sonhador vira político, temos disponível o sonho de deputado, de senador e de presidente da república. Mas eu pensei que esses fossem os mais caros. Não senhora, são baratos porque começam bem, perdem-se no meio do caminho e viram pesadelos, em alguns casos.

Como é que pode um sonho virar pesadelo? Sonho de político vem com defeito de fábrica, minha senhora, produto de ponta de estoque. Não tenho muita escolha, vou levar um desses. São quatrocentos e cinquenta. Sim senhor, mas pago depois de sonhar, não? Não senhora, sou obrigado a cobrá-la adiantado. Por que? Todos os outros são pagos apenas depois de sonhar, menos estes: é que, depois que os clientes têm sonhos políticos, não querem pagar por mais nada.


Eduardo Mahon é escritor.



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