• Cuiabá, 22 de Outrubro - 00:00:00

Vamos fugir para as colinas

2016 está sendo um ano difícil de ser digerido. As funções do Poder Público protagonizaram momentos que nem Gabriel Garcia Marquez, na eloquência do realismo fantástico, seria capaz de traduzir em ficção. A indústria cinematográfica deve invejar as cenas realizadas no Congresso, no Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF). Sem contar o melodrama em Mato Grosso, com direito a revisão geral anual, salários escalonados, reforma tributária, direitos adquiridos escorrendo pelo ralo e uma eleição municipal feita ao estilo oligárquico, à base do grito e de escândalos em praça pública, neste caso a imprensa.

Neste ano, houve de tudo um pouco. Prisão de políticos e empresários, impeachment, delações premiadas sendo usadas como moeda de troca pela liberdade de criminosos do alto escalão. Na economia, a tempestade perfeita fechou portas, demitiu pessoas, levou gente à pobreza. Os mais otimistas falavam em 2015, que em tempo de crise é importante ser criativo, “basta tirar o ‘s’ da palavra crise, que vira ‘crie”. Em 2016, não escutei mais esta frase. A utopia cedeu lugar ao realismo. Os entendidos do assunto perceberam que não basta boa vontade, é necessário ter capital. E capitalizar recursos em tempos de taxa Selic acima de 14% (como foi na maior parte do ano) não é uma tarefa fácil, que possa ser protagonizada por meros mortais.

O ano ainda não acabou, e pelo que parece, as duas semanas que ainda faltam para o dia de desejar “Feliz ano novo” ainda serão de grandes acontecimentos. Brasília virou uma bomba relógio, a qualquer momento explode, e os direitos trabalhistas, previdenciários, fiscais entre outros direitos adquiridos podem esfumar. O devido processo legal se transformou em ornamento constitucional, é um princípio pautado pela tese republicana, mas na prática, os tentáculos de Leviatã são sebosos demais e só não deixam escapar as vísceras do povo, as quais consome até o último caldinho.

O povo pena. E não seria diferente. Como alcançar a ‘eudaimonia’, que é o estado da felicidade no mais alto grau de conquista, por meio da razão, da inteligência, da ciência e da sabedoria como arguiam os gregos antigos, se aqui nos pântanos existenciais só existem trevas?

Estamos perdendo a capacidade de enxergar a luz no fim do túnel, porque na verdade não há. Mas a culpa não é das estrelas, nem dos astros, ou de São Jorge na lua. A culpa é coletiva. Todos têm uma parcela de participação na ruína do Estado. Como diz o professor doutor em História, Leandro Karnal, não existe governo corrupto em uma sociedade ética. E ele tem toda razão. Estamos colhendo os frutos podres de eleições fracassadas. Elegemos exemplos vivos da miséria moral e intelectual do povo brasileiro. E mesmo que entre os políticos, raramente existe algum douto, a concupiscência, no sentido dado por Santo Agostinho, que é o de oposição à caridade, reina soberana onde deveria emanar a Justiça, as leis, a convenção social em prol do bem comum, onde deveriam estar guardiões da moral e da ética.

A quem tem um pouco de juízo e bom senso sobra fugir para as colinas, enclausurar-se em uma torre de observação stricto sensu, comer gafanhotos ao estilo dos eremitas do deserto, e se vestir de estopa. Entenda esta metáfora, caro leitor, como a perseguição da sabedoria. E enquanto não começarmos esta transformação pessoal, nenhuma colina será segura. Mas se for possível, fuja enquanto há tempo. 

*Vinícius Bruno é jornalista em Mato Grosso.

viniciusbrunojornalista@outlook.com



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